Na parte da tarde do primeiro dia do 1º Encontro da Regional São Paulo do ANDES-SN (Gestão 2025–2027), realizado na ADunicamp entre os dias 08 e 09 de maio, docentes das diversas seções sindicais do Estado de São Paulo presentes na entidade discutiram temas centrais para a educação pública, a organização sindical e as lutas em defesa das Instituições de Ensino Superior.
A primeira mesa abordou o Plano de Lutas das IEES, IMES e IDES, com a participação da professora Caroline de Araújo Lima, 1ª vice-presidenta e encarregada de relações internacionais do ANDES-SN e da professora Regina Célia da Silva, 2ª VPR Regional São Paulo do ANDES-SN.
O debate tratou dos desafios enfrentados pelas Instituições Estaduais, Municipais e Distritais de Ensino Superior, incluindo questões relacionadas ao financiamento das universidades públicas, à precarização das condições de trabalho docente, à defesa da autonomia universitária e à necessidade de fortalecimento da mobilização sindical.
Na abertura da mesa, a professora Regina Célia da Silva, que também é diretora da ADunicamp, destacou o caráter político do debate sobre o plano de lutas das IEES, IMES e IDES e afirmou que o espaço representava “um momento de afirmação política sobre o lugar das estaduais, municipais e distrital, no atual cenário de ataques ao serviço público e à educação pública”. Segundo a docente, o plano de lutas aprovado no 44º Congresso do ANDES-SN parte da compreensão de que o cenário atual não se trata de “uma crise pontual”, mas de “um projeto estruturado de restrição do fundo público, de austeridade permanente ou austericídio e de avanço da financiarização sobre os direitos sociais”.
Regina também relacionou esse processo ao avanço internacional da extrema-direita e às tentativas de subordinação da educação e dos serviços públicos à lógica do mercado. Para a professora, a universidade pública se tornou “um alvo estratégico”, pois produz conhecimento, forma sujeitos críticos e está ligada à soberania científica e social do país. Ao final, ressaltou que “defender o orçamento das universidades é defender muito mais do que instituições, é defender um projeto de sociedade” e enfatizou a necessidade de mobilização coletiva e unidade entre os setores da educação pública.
Durante sua fala, a professora Caroline de Araújo Lima destacou a importância das IEES, IMES e IDES enquanto patrimônio do povo brasileiro e reafirmou a necessidade de fortalecer a defesa dessas instituições em articulação com sindicatos docentes, organizações estudantis e movimentos sociais. A docente ressaltou a continuidade da campanha “Universidades Estaduais, Municipais e Distritais: quem conhece defende?” e afirmou que “a população precisa entender que a universidade pública é um patrimônio nosso”.
Ao longo da exposição, Caroline alertou para o processo de desfinanciamento das universidades públicas estaduais e municipais e criticou a forma como muitos governos tratam essas instituições “não como investimento, mas como gasto”. A professora também destacou o papel das IEES, IMES e IDES na expansão da educação superior no interior do país, lembrando que “quem garantiu a expansão da educação superior no Brasil foram as universidades estaduais e depois as municipais”.
Outro ponto abordado foi a defesa do concurso público e o enfrentamento à precarização do trabalho docente. Caroline defendeu a realização de concursos com garantia de direitos, valorização da carreira e dedicação exclusiva, além de criticar os impactos da Reforma Administrativa e da PEC 38, que, segundo ela, representam “o fim do concurso público”, “o desfinanciamento das nossas universidades” e “um ataque aos serviços públicos”.
A professora também ressaltou a importância da defesa da carreira única e problematizou os projetos de “Universidades de Excelência” e “Universidades Tecnologistas”. Para Caroline, há um projeto em curso que busca transformar as universidades estaduais e municipais em “escolões”, limitados ao ensino técnico. “A universidade tem um papel, seja ela federal, estadual, municipal, distrital e ponto”, afirmou, ao defender a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
No bloco de intervenções, docentes e representantes sindicais destacaram a importância da luta pelo financiamento das universidades públicas estaduais, municipais e distritais, especialmente diante dos impactos da reforma tributária, do subfinanciamento e das políticas de austeridade. As falas também abordaram os efeitos da precarização do serviço público, da privatização e das dificuldades para garantir permanência estudantil, contratação de docentes e condições adequadas de trabalho.
As intervenções ainda ressaltaram a necessidade de fortalecer a unidade entre as seções sindicais e os diferentes setores da educação pública. Também foram debatidas pautas relacionadas à democratização do acesso ao ensino superior, às políticas de inclusão e ao enfrentamento das desigualdades regionais. Ao responder aos comentários, a professora Caroline de Araújo Lima reforçou que o desfinanciamento das universidades integra um projeto mais amplo de ataque à educação pública e destacou a importância da mobilização coletiva em defesa das instituições públicas de ensino superior.
Docentes discutem desafios das IFES
Na sequência, foi realizada a segunda mesa da tarde, que propôs um amplo debate sobre o Plano de Lutas das Universidades Federais (IFES). A atividade contou com a participação da professora Vanessa Vendramini, 1ª secretária da ADunifesp e 1ª tesoureira da Regional São Paulo do ANDES-SN, e da professora Jacqueline Magalhães Alves, presidenta da ADufla e 1ª VPR da Regional Leste, integrante da coordenação do GTPE do ANDES-SN. Durante a mesa, as docentes discutiram os desafios enfrentados pelas universidades federais diante do cenário de desfinanciamento da educação pública, dos ataques à autonomia universitária e da precarização das condições de trabalho docente.
A professora Vanessa Vendramini iniciou sua intervenção destacando a preocupação com o desfinanciamento das universidades federais e os impactos permanentes da redução dos repasses orçamentários às instituições públicas de ensino superior. Segundo ela, “o que não dava para ser reduzido só vem sendo reduzido”, situação que compromete não apenas a infraestrutura universitária, mas também “toda a organicidade da universidade”. A docente afirmou ainda que o desmonte das IFES faz parte de um projeto político mais amplo de desvalorização da educação pública, gerando descrédito social sobre as universidades e afetando diretamente as condições de trabalho docente.
Ao abordar o cenário político e sindical, Vanessa Vendramini criticou a falta de mobilização de parte da categoria docente diante da crise enfrentada pelas universidades públicas. Em um dos momentos de sua fala, comparou a situação à imagem do “Titanic afundando”, enquanto muitos docentes “continuam tocando violino”, ignorando a gravidade do contexto. A professora também denunciou o não cumprimento do acordo firmado após a greve nacional de 2024, sobretudo no que se refere à infraestrutura das instituições, e criticou a lógica das emendas parlamentares como mecanismo de financiamento das universidades. Para ela, a necessidade de docentes “mendigarem dinheiro” para garantir o funcionamento das atividades acadêmicas demonstra o aprofundamento da precarização e reforça a urgência de manter a mobilização permanente em defesa das universidades públicas.
Na sequência, a professora Jacqueline Magalhães Alves ressaltou a importância da organização sindical e da continuidade das lutas em defesa da educação pública, relacionando os ataques às universidades ao avanço de políticas de austeridade fiscal e de ameaças à autonomia universitária. Ao comentar a conjuntura política em Minas Gerais, afirmou que o estado tem se tornado “um laboratório da extrema-direita”, alertando para os riscos representados por projetos políticos que atacam diretamente as universidades públicas. A docente também manifestou solidariedade internacional à Palestina e denunciou a criminalização de ações humanitárias, defendendo a soberania dos povos e o fortalecimento das mobilizações sociais.
Em sua análise sobre o cenário das IFES, Jacqueline destacou o agravamento da precarização do trabalho nas universidades federais, enfatizando o descumprimento dos acordos de greve e a insuficiência de servidores técnicos e administrativos nas instituições. Ao citar o caso da Universidade Federal de Lavras, apontou que a universidade possui apenas “78 técnicos de laboratório” e “18 técnicos de informática”, números que, segundo ela, “gritam” e revelam a sobrecarga de trabalho enfrentada pela comunidade acadêmica. A professora também criticou o novo arcabouço fiscal e as medidas infralegais impostas pelo governo federal, alertando para a queda vertiginosa dos investimentos nas IFES e para os riscos à permanência estudantil, à democratização do acesso e à manutenção das atividades de ensino, pesquisa e extensão. Para ela, o cenário atual exige “novas formas também de pensar as nossas lutas” e o fortalecimento da organização sindical desde as bases.











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