O texto a seguir, escrito pela professora Regina Célia da Silva (CEL/Unicamp), diretora da ADunicamp, é um chamado urgente à reflexão e à mobilização da comunidade universitária diante das ameaças concretas à autonomia, ao financiamento e ao futuro das universidades públicas paulistas.
O manifesto denuncia o avanço do desmonte da educação pública, a precarização das condições de trabalho, os ataques aos direitos sociais e a necessidade de fortalecer a organização coletiva da categoria docente, em unidade com estudantes, técnico-administrativos e movimentos sociais.
Mais do que um diagnóstico, este manifesto é um convite à ação. É hora de transformar preocupação e indignação em mobilização, ampliar o debate público e defender, de forma ativa e organizada, a universidade pública, gratuita, democrática e socialmente referenciada.
Conclamamos toda a comunidade acadêmica, docentes, estudantes, pesquisadoras(es) e servidoras(es) técnico-administrativas(os), a ler, divulgar e assinar este manifesto, que estará disponível no site da ADunicamp (veja aqui) e será amplamente difundido em todos os espaços de interesse da comunidade universitária.
Para assinar, envie e-mail para fernando@adunicamp.org.br, informando nome completo e a unidade da Unicamp à qual pertence.
A defesa da universidade pública exige participação, compromisso e mobilização coletiva.
O momento é agora.
Confira o manifesto:
MANIFESTO: PPRT Papo reto e urgente: precisamos nos mobilizar.
Colegas,
O que está em jogo hoje não é apenas mais uma data-base. É o futuro das universidades públicas — e, no caso das estaduais paulistas, a própria sobrevivência do modelo que conhecemos.
Há um risco real, imediato e concreto: a autonomia financeira pode cair. E pode cair a qualquer momento. Como sabem, nosso financiamento depende de um decreto. Um decreto que, desde 1989, precisa ser validado a cada ano pela assembleia legislativa. Não tem amarra constitucional sólida. Não tem blindagem institucional robusta. Avaliem o risco dessa situação com um governo que não nos oferece nenhuma garantia de salvaguarda das universidades, e que já se mostra há tempos inimigo da educação pública no nosso Estado, haja vista o que tem feito na educação básica.
Em um cenário de reforma tributária em curso, de reorganização da arrecadação e de disputa federativa, isso nos deixa ainda mais expostos. Sem financiamento adequado, não há pesquisa, formação acadêmica, atividades de extensão. Não há universidade pública, nem carreira docente.
O Estado de São Paulo vem sendo sistematicamente saqueado por políticas de desoneração fiscal que retiram bilhões dos cofres públicos — e esse volume só cresce. Soma-se a isso a venda do patrimônio público; a precarização dos serviços, a intensificação das jornadas de trabalho e a burocratização crescente das universidades e das instâncias de fomento, com processos de avaliação e de controle sem a devida contrapartida em termos orçamentários e de valorização da carreira. É um processo articulado de estrangulamento.
Enquanto isso tudo acontece, nós, professores universitários, temos jogado recuados.
É preciso dizer com todas as letras: por razões históricas e de conjuntura, o movimento docente — especialmente nas estaduais paulistas — tem atuado na defensiva. Isso pode ter sido compreensível em determinados momentos. Hoje, é insuficiente. E muito perigoso.
Não se enfrenta um processo de desmonte estrutural jogando na retranca.
Nosso sindicato precisa ser fortalecido pela sua base. Não pode ser uma instância formal de representação. Precisa ser espaço de organização, de formação política, de elaboração estratégica. E isso depende de nós. Assembleias esvaziadas e Conselho de Representantes com número reduzido, debates sobre conjuntura e temas prementes para a vida universitária esvaziados.
Temos à nossa frente uma agenda urgente: financiamento, gestão da universidade, sobrecarga de trabalho com atribuições de gestão a docentes, e adoecimento, privatização por dentro (fundações, OSS, plataformização), expansão sem lastro, os impactos da autarquização da saúde, política de permanência estudantil, violências institucionais.
Além disso, precisamos entender urgentemente o impacto das contrarreformas — trabalhista e previdenciária — e organizar respostas. Isso exige de nós debates, grupos de trabalho sérios, continuidade, acúmulo.
E de nossos gestores, precisamos exigir compromisso político real. Basta de decisões de gabinete. Chega de tecnocracia que despolitiza escolhas profundamente políticas.
O Fórum das Seis cumpre há décadas um papel importantíssimo de interlocução com o CRUESP, mas não resolve tudo — e, sua própria existência não pode amortecer a mobilização da base. Porque sem base ativa, não é possível modificar a correlação de forças. Não é possível resistir à retirada de direitos, garantir as conquistas do passado, nem obter novas vitórias.
E o cenário é sombrio: avanço da extrema direita a nivel nacional e estadual, desmonte do serviço público, ataque permanente à educação.
Diante disso, precisamos ser claros: há uma dimensão política mais ampla que não pode ser ignorada. Derrotar a extrema direita é parte da defesa da universidade pública. Isso passa, concretamente, por disputar os rumos do país: pela reeleição de Lula, pela eleição de Haddad em São Paulo, pela reconstrução de um campo democrático e popular capaz de enfrentar esse projeto de desmonte.
Mas isso não se faz por delegação.
É nossa tarefa (re)unir os sindicatos de Campinas e região, impulsionar a militância junto com os movimentos sociais, construir unidade de luta entre docentes, estudantes e trabalhadores técnico-administrativos, unirmos e defendermos de forma intransigente os demais níveis da educação pública. É preciso debater o projeto de universidade, o projeto de estado e o projeto de país — de forma aberta, permanente, sem medo.
Precisamos lutar pelo fim da lista tríplice nas estaduais, pela democratização radical da universidade, pelo financiamento público estável da educação. Precisamos defender o estado de bem-estar social, enfrentar as reformas que precarizam o serviço público, combater o austericídio imposto pelo teto de gastos e questionar a lógica de exploração extrema do trabalho — e ir às ruas pelo fim da escala 6×1.
E precisamos fazer isso com método e estratégia.
Não basta se indignar. Precisamos nos organizar. Precisamos (nos) formar e informar. Precisamos produzir análise de conjuntura. Sem teoria e sem estratégia, seguimos fragmentados.
Internamente, é preciso reconhecer que falta debate estruturado, falta construção coletiva de estratégias. Não dá mais para discutir política apenas em eleição ou em data-base e se informar pelos boletins.
Mas, ao mesmo tempo, precisamos saber aproveitar esses momentos. O período eleitoral e a própria data-base abrem espaços, criam agrupamentos, mobilizam pessoas. É hora de politizar ainda mais esses espaços, debater conjuntura, construir alianças — com os de baixo. Porque as alianças com os de cima, sabemos, tendem a nos desarmar.
E não estamos sem referência. Os estudantes apontam caminhos de luta, os movimentos sociais — indígenas, quilombolas, sem terra — seguem mostrando o que é resistência real, o que é organização de longo prazo. Eles não esperam. Eles lutam.
Precisamos aprender com isso.
A universidade não pode continuar falando apenas para si mesma. Precisamos abrir canais diretos com a sociedade. O povo que financia a universidade precisa entender o que está em jogo.
Se não houver envolvimento real da categoria docente, seguimos transferindo o peso da luta para quem já está sobrecarregado. E isso, simplesmente, não se sustenta, além de não ser justo!
No fim, a questão é simples e brutal: nossa geração pode ser responsável, por ação ou por omissão, pelo sepultamento da autonomia das universidades públicas.
Se não nos movermos agora, outros decidirão por nós.
E o tempo não está do nosso lado.
Seremos nós, omissos diante de tantos problemas?
Regina Célia da Silva
Diretora da ADunicamp e 2ª Vice-presidenta da Regional São Paulo do ANDES-SN
03.05.26
ASSINAM ESTE MANIFESTO:
Aldair Rodrigues (IFCH)
André Kaysel (IFCH)
André Luiz G. Oliveira (FE)
Andréia Galvão (IFCH)
Aparecida Mari Iguti (FCM)
Carolina de R. Catini (FE)
David Jozef Cornelius Debruyne (IG)
Elaine Prodócimo (FEF)
Elisabete M. Pascholati (IG)
Emília Wanda Rutkwoski (FECFAU)
Eneida de Paula (IB/ADunicamp)
Fabiana Fantinatti Garboggini (CPQBA)
Holly Cavrell (IA)
José Vitório Zago (IMECC)
Josely Rimoli (FCA)
Josianne F. Cerasoli (IFCH)
Juliana M. R. de Moraes (IA)
Karla Bessa (PAGU)
Kelly Sabino (FE)
Laurita Marconi Schiavon (FEF)
Leonardo de Oliveira Fontes (IFCH)
Lucas Barbosa Pelissari (FE)
Marcelo Onofim (IA)
Márcia Mendonça (IEL)
Maria Cristina Bahia Wutke (COTUCA/ADunicamp)
Maria Cristina Castro Cunha (IMECC)
Maria José Mesquita (IG)
Maria Silvia Viccari Gatti (IB/ADunicamp)
Mariana S. P. Gomes (FEF)
Mario Nunes (FEF)
Martim Pareja (IB)
Mary Ann Foglio (FCF)
Noel Silva (IA)
Norma Wucherpfening (CEL)
Olivia C. F. Ribeiro (FEF)
Patrícia Magalhães (IFGW)
Paulo César Silva Teles (IA)
Paulo Van Noije (FCA)
Pedro C. Holanda (IFGW)
Rafael Straforini (IG)
Regina Célia da Silva (CEL/ADunicamp)
Renata C. B. Barros (FCM)
Ricardo Antunes (IFCH)
Rodrigo Spina (IA)
Romilda Mochiuti (CEL)
Sávio Cavalcante (IFCH)
Silvia Cristina Franco Amaral (FEF)
Simone A. Vieira (NEPAM)
Wanderley Martins (IA)








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