Manifesto do MCTP em defesa da Embrapa


Por uma Embrapa Pública, Democrática e Inclusiva!

No momento em que o país se encontra em uma das suas piores crises, nas esferas política, econômica, ética e sanitária, em um ano de grande instabilidade – pois, além da pandemia, teremos eleições para presidente da república, governos estaduais, senadores deputados federais –, o presidente da Embrapa, totalmente alinhado ao Governo Federal negacionista, anuncia, pela imprensa, o desmonte da empresa pública.

Em entrevista dada ao jornal O Estado de São Paulo, em 11 de fevereiro deste ano, a Gestão Moretti anunciou uma imediata reorganização institucional da Embrapa. Na entrevista, propôs cortes drásticos na empresa a fim de fazer jus a um orçamento combalido por conta de sua própria inércia administrativa.

Defendeu, ainda, a captação de recursos da iniciativa privada, por meio de um novo modelo de negócios, para transformar a Embrapa naquilo que acredita ser uma empresa ágil e eficiente. O caminho para conseguir tal feito – converter a Embrapa em uma grande corporação privada – seria por meio da criação de um amplo centro de serviços compartilhados, aliado a uma drástica redução de custos com vigilância, limpeza, água, energia e pessoas (a redução de pessoal seria feita por meio de um eventual plano de demissão voluntária e pelo desligamento daquelas que forem completando 75 anos).

Para iludir os leitores e leitoras, a entrevista foi recheada por citações de cifras, valores e projeções mirabolantes, sem que elas tenham qualquer sustentação na realidade da Empresa, com o objetivo de dar veracidade à fabula ali contada. Nela se retoma a velha e recorrente promessa de eliminação das funções gratificadas existentes na Embrapa. Lembrando que, passados mais de 30 meses da Gestão Moretti, o custo com esse tipo de despesa nunca diminuiu. Pelo contrário, só vem aumentado.

Para mostrar que a Embrapa está alinhada às mudanças do mundo corporativo, essa reorganização desejada pela Gestão Moretti foi elaborada por uma empresa de consultoria, paga com recursos doados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a Organização das Cooperativas do Brasil (OCB). Ou seja, um projeto de reorganização financiado por entidades que têm compromisso irrestrito com o agronegócio.

Todo esse processo evidencia a tentativa de transformar a Embrapa em um balcão de negócios, de modo a facilitar a apropriação privada da estrutura e da intelligentsia constituídas por décadas de investimentos públicos.

É grave também o fato de que trabalhadoras(es)/pesquisadoras(es) da Embrapa souberam dessa reestruturação pretendida pela Gestão Moretti pela referida entrevista ao jornal. Isso demonstra o quão antidemocrática e sem transparência tem sido essa Gestão.

Os questionamentos a seguir, elaborados por um pesquisador da Embrapa, refletem a sensação generalizada de revolta existente dentro da empresa, gerada após a entrevista, pela Gestão apresentar um processo assumidamente privatizante, unilateral e autoritário:

“Como uma instituição científica do tamanho, complexidade e relevância da Embrapa chega ao ponto de ser reestruturada, unilateralmente, sem que a proposta seja discutida e muito menos construída com a participação de seus/suas cientistas e demais trabalhadores/as? O que dizer de uma gestão que não dialoga internamente, mas que se apressa em anunciar na imprensa uma mudança desse porte? Como não ficar indignado com um processo tão apressado e inapropriado, em meio à grave crise institucional vivenciada pela empresa? A mudança proposta precisa ser imediatamente rechaçada.”

Posto isso, nós, que defendemos que as instituições públicas de ensino e pesquisa estejam comprometidas com a produção de conhecimento público, voltado à inclusão e de interesse social, estamos aqui para enaltecer a importância da Embrapa na construção do conhecimento agroecológico, bem como na condução de importantes políticas voltadas às questões da agricultura familiar e, sobretudo, denunciar a forma vil e leviana que essa empresa pública vem sendo usurpada para atender aos interesses do agronegócio. Essa reestruturação desejada pela Gestão Moretti, se levada adiante, vai aniquilar todo o compromisso moral e ético da Embrapa com a construção de um Brasil mais justo, equânime e solidário.

Desse modo, conclamamos às organizações e movimentos sociais, profissionais, pesquisadores e pesquisadoras das mais distintas áreas do conhecimento, ativistas, técnicos e técnicas, agricultores e agricultoras que façam ecoar suas vozes e mensagens em defesa da nossa Embrapa, pública, democrática e inclusiva.

Campinas, 14 de fevereiro de 2022.

Movimento pela Ciência e Tecnologia Pública (MCTP)

As instituições que integram o MCTP:

ADunicamp (Associação dos Docentes da Unicamp)
ADUSP (Associação dos Docentes da USP)
ADunifesp (Associação dos Docentes da UNIFESP)
ANDES-SN (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior)
APqC (Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo)
GAPI-Unicamp (Grupo de Análise de Políticas de Inovação)
NETES-UNIFESP (Núcleo Educacional de Tecnologia Social e Economia Solidária da UNIFESP)
SASP (Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo)
SINPAF-DN (Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário)
STU (Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp)


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