Comando de Greve Docente da ADunicamp divulga manifestação sobre carta da Pró-Reitoria de Graduação (PRG) da Unicamp


O Comando de Greve Docente da ADunicamp divulgou uma manifestação pública sobre a Carta PRG nº 3/2026, publicada pela Pró-Reitoria de Graduação da Unicamp.

No documento, os(as) docentes apresentam sua avaliação sobre o posicionamento da administração universitária em relação ao movimento grevista e defendem a necessidade de interlocução institucional com as entidades representativas legitimamente constituídas.

A manifestação destaca preocupações quanto à ausência de reconhecimento explícito da greve docente, à desconsideração de seus representantes eleitos e à importância de que as negociações ocorram por meio do diálogo direto com as organizações que conduzem o movimento.

A seguir, leia a íntegra da manifestação do Comando de Greve Docente da ADunicamp:

Manifestação do Comando de Greve Docente da ADunicamp sobre a Carta PRG nº 3/2026

O Comando de Greve Docente da ADunicamp considera necessário manifestar-se publicamente acerca da Carta PRG nº 3/2026, divulgada pela Pró-Reitoria de Graduação, tanto pelo seu conteúdo quanto pelas concepções sobre a greve e sobre o diálogo institucional que nela se expressam.

A greve docente em curso foi deliberada em Assembleia Geral da ADunicamp realizada em 15 de maio de 2026, ocasião em que a categoria decidiu pela paralisação e elegeu seu Comando de Greve como instância legítima de coordenação e representação do movimento. Trata-se, portanto, de uma decisão coletiva, democrática e plenamente legítima, tomada após longo acúmulo de insatisfações e diante da insuficiência dos canais ordinários de negociação para responder às reivindicações apresentadas.

Antes mesmo de examinarmos os argumentos apresentados pela Pró-Reitoria, é preciso registrar um aspecto revelador da própria redação da carta. Em sua abertura, o documento informa que a PRG acompanhou “os desdobramentos da greve dos servidores e da paralisação estudantil”, sem qualquer menção à greve docente. Em um primeiro momento, poder-se-ia supor que a expressão “servidores” estivesse sendo utilizada em sentido amplo, abrangendo docentes e servidores técnico-administrativos. Contudo, essa interpretação é desmentida pelo próprio texto, que posteriormente passa a distinguir explicitamente “docentes, servidores e estudantes” como categorias diferentes.

A omissão, portanto, não parece casual. A carta reconhece a existência da greve dos servidores técnico-administrativos e da mobilização estudantil, mas silencia sobre a greve docente, embora esta tenha sido regularmente deliberada em assembleia da categoria e esteja em pleno curso. Tal ausência não é um detalhe semântico. Ela produz dois efeitos políticos concretos: primeiro, ao não reconhecer explicitamente a existência da greve docente, a PRG também deixa de reconhecer seus representantes legitimamente constituídos, entre eles o Comando de Greve eleito pela categoria; e segundo, tenta quebrar a unidade das greves das três categorias e colocar as categorias em confronto, já que efetivamente retrata os servidores técnico-administrativos e os estudantes como disruptivos e os docentes como a categoria contrária à greve. Torna-se difícil sustentar a disposição para o diálogo quando sequer se nomeia um dos sujeitos coletivos que participam ativamente da greve unificada.

Por essa razão, chama ainda mais atenção que a Pró-Reitoria afirme reconhecer a legitimidade do movimento ao mesmo tempo em que opta por dirigir seus esforços de interlocução principalmente a coordenadores de graduação e diretores de unidades, em vez de dialogar diretamente com as entidades representativas e com o Comando de Greve eleito por cada uma das três categorias.

Não se trata de questionar a importância das coordenações ou das diretorias na gestão acadêmica. Trata-se de registrar que nenhuma dessas instâncias foi constituída para representar o movimento grevista, negociar suas pautas ou deliberar sobre seus rumos. Quando a administração universitária escolhe contornar os interlocutores legitimamente constituídos pelo movimento, transmite à comunidade a mensagem de que a greve deve ser administrada, neutralizada ou superada, e não efetivamente compreendida e negociada.

A carta da PRG dedica-se extensamente a enumerar os impactos decorrentes da paralisação. São mencionados prejuízos a estudantes, estágios, intercâmbios, programas de pós-graduação, projetos acadêmicos, acordos internacionais e à própria imagem institucional da Universidade. Curiosamente, porém, quase nada se diz sobre as razões que levaram docentes, servidores e estudantes a recorrer a um instrumento extremo de mobilização.

Essa assimetria não é trivial. Ela produz um enquadramento em que a greve aparece como o problema central, enquanto as condições que a motivaram desaparecem do horizonte da discussão. A comunidade é convidada a refletir sobre os custos do movimento, mas não sobre as causas que o tornaram necessário.

Mais preocupante ainda é o recurso recorrente a cenários de risco institucional associados à continuidade da mobilização. Ao enfatizar possíveis danos à reputação da Universidade, à confiança da sociedade e às relações com parceiros nacionais e internacionais, a carta sugere, ainda que de forma indireta, que a responsabilidade por tais consequências recairia sobre os trabalhadores e trabalhadoras em greve.

É preciso rejeitar essa lógica.

A reputação da Unicamp não é ameaçada pela existência de mobilizações legítimas em defesa de direitos e condições de trabalho. Universidades públicas são instituições democráticas e, como tais, convivem historicamente com o dissenso, o conflito e a organização coletiva de seus diferentes segmentos. O que compromete uma instituição pública não é a existência de greves, mas a incapacidade de enfrentar, por meio do diálogo e da negociação, os problemas que lhes dão origem.

Mais do que isso: a reputação de uma universidade pública também se constrói pela sua capacidade de reconhecer interlocutores legítimos, respeitar a organização coletiva de sua comunidade e enfrentar conflitos por meio do diálogo institucional. Ignorar a existência de uma greve regularmente deliberada por suas categorias não contribui para a solução do impasse; ao contrário, aprofunda a sensação de que determinados sujeitos coletivos estão sendo deliberadamente excluídos do processo de interlocução.

Não é razoável que os custos políticos de um impasse institucional sejam atribuídos exclusivamente àqueles que decidiram mobilizar-se. Tampouco é aceitável que se procure produzir constrangimento moral sobre o movimento por meio da evocação permanente dos efeitos da greve, sem discussão equivalente sobre as responsabilidades da administração universitária na construção de soluções para o conflito.

A leitura da carta transmite a impressão de que a greve é tratada como uma perturbação transitória da normalidade institucional, algo que precisa ser encerrado porque seus efeitos se acumulam. Essa visão reduz um movimento político legítimo a uma questão de gestão acadêmica. A greve, entretanto, não é uma falha no funcionamento da Universidade. Ela é a expressão de um conflito real, decorrente de reivindicações concretas que permanecem sem resposta satisfatória.

O Comando de Greve reafirma que permanece aberto ao diálogo e à negociação. Mas diálogo pressupõe reconhecimento mútuo entre as partes. Reconhecer a legitimidade da greve exige reconhecer também a legitimidade de seus representantes e a necessidade de interlocução direta com eles.

Por isso, conclamamos a Pró-Reitoria de Graduação e a Administração Central a abandonarem quaisquer iniciativas que tenham por efeito contornar as instâncias representativas do movimento e a estabelecerem canais efetivos de negociação com a ADunicamp e com00 o Comando de Greve.

A superação do atual impasse não decorrerá da multiplicação de alertas sobre os efeitos da greve, nem da tentativa de transferir aos grevistas a responsabilidade pelos impactos de um conflito institucional. Ela dependerá da disposição concreta de enfrentar as causas que levaram à mobilização e de negociar, de boa-fé, as pautas que a sustentam.

Comando de Greve Docente da ADunicamp

Campinas, 31 de maio de 2026


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