Carta Aberta aos Diretores e Diretoras das Unidades da Unicamp


Colegas,

Dirigimo-nos a vocês não apenas como diretores e diretoras de unidades acadêmicas, mas sobretudo como docentes. Como colegas de profissão. Como pessoas que, assim como nós, dedicaram suas vidas ao ensino, à pesquisa, à extensão e à construção cotidiana desta Universidade.

Nos últimos dias, temos acompanhado as reuniões promovidas pela Administração Central e pela Pró-Reitoria de Graduação com as diretorias das unidades para discutir os impactos da greve e seus possíveis desdobramentos. Reconhecemos a responsabilidade que recai sobre vocês neste momento. Sabemos que ocupam posições complexas, submetidas a múltiplas pressões e expectativas. Sabemos também que, muitas vezes, são convocados a administrar problemas cujas causas não criaram.

Mas é precisamente por isso que lhes escrevemos.

Queremos lembrar algo que a rotina administrativa e as urgências institucionais frequentemente tendem a obscurecer: vocês não são a Reitoria. Não são os empregadores. São docentes que, temporariamente, exercem funções de direção. Os cargos passam. As gestões passam. As administrações passam. Todos nós passamos. O que permanece é a comunidade universitária que construímos juntos e as condições concretas em que trabalhamos, ensinamos, pesquisamos e formamos novas gerações.

Hoje, como ontem, compartilhamos os mesmos desafios: a intensificação do trabalho, a expansão contínua das exigências administrativas, a pressão produtivista, a multiplicação de relatórios, avaliações, indicadores e métricas que frequentemente substituem o debate acadêmico por procedimentos burocráticos. Compartilhamos a experiência de uma universidade cada vez mais pressionada a se justificar em termos de desempenho, competitividade e eficiência, como se sua missão pudesse ser reduzida a números, rankings e metas.

Compartilhamos também a responsabilidade de perguntar: que universidade estamos construindo?

Uma universidade orientada pela formação humana, pela produção crítica do conhecimento, pela arte, pela cultura e pelo compromisso público? Ou uma universidade progressivamente capturada por lógicas gerenciais que transformam pessoas em indicadores, estudantes em clientes, docentes em produtores de resultados e a própria educação em mercadoria?

A greve que hoje mobiliza docentes, estudantes e servidores técnico-administrativos não surgiu por acaso. Ela é expressão de um mal-estar profundo. Ela traduz preocupações que ultrapassam reivindicações imediatas e alcançam questões estruturais sobre os rumos da universidade pública. Trata-se de um debate que se torna ainda mais urgente diante das incertezas geradas pelo cenário político contemporâneo, pela ascensão de forças hostis ao conhecimento crítico, pelos desafios colocados à educação pública e pelas ameaças ao financiamento das universidades estaduais decorrentes das transformações em curso no sistema tributário brasileiro.

Por isso, preocupa-nos a tentativa de tratar a greve como um problema administrativo a ser administrado ou contornado. Mais preocupante ainda é a tendência de deslocar a interlocução para instâncias que não foram constituídas para representar o movimento, como se fosse possível discutir os efeitos da greve sem reconhecer plenamente seus sujeitos, suas pautas e suas razões.

Sabemos que muitos de vocês enfrentam pressões institucionais. Sabemos que lhes é solicitado apresentar soluções, produzir diagnósticos, administrar tensões e minimizar impactos. Mas também sabemos que vocês conhecem, por experiência própria, as condições que levaram à construção deste movimento. Conhecem-nas na própria pele. Conhecem o preço da sobrecarga permanente, da multiplicação incessante de tarefas e da crescente colonização do tempo de vida pelo trabalho. Conhecem o que significa abrir mão do convívio com a família, com os amigos, com os afetos e consigo mesmos para atender às demandas de uma engrenagem que exige sempre mais e devolve cada vez menos. Uma engrenagem que, silenciosamente, vai triturando subjetividades, adoecendo pessoas e transformando nossa maior riqueza — o tempo de vida — em recurso administrável.

Não lhes pedimos adesão automática. Não lhes pedimos concordância irrestrita. Pedimos algo mais fundamental. Pedimos que reconheçam a legitimidade da greve. Pedimos que reconheçam a legitimidade dos comandos eleitos pelas categorias para representá-las. Pedimos que defendam, junto às instâncias superiores, a necessidade de negociação efetiva com aqueles que foram democraticamente escolhidos para conduzir este movimento. Mais do que isso: convidamos vocês a se somarem a uma reflexão coletiva sobre os rumos da universidade pública.

Porque o que está em jogo não é apenas um reajuste, uma pauta específica ou um calendário acadêmico. Se fosse apenas isso, a solução seria relativamente simples. O que está em jogo é a própria ideia de universidade.

Uma universidade que não pode continuar naturalizando a precarização, a sobrecarga de trabalho, o adoecimento crescente e a transformação da vida acadêmica em uma sucessão interminável de metas e indicadores. Uma universidade que não pode continuar tratando a arte, as humanidades e a reflexão crítica como dimensões secundárias de sua missão.

Uma universidade que não pode perder de vista que seu valor maior reside nas pessoas que a constituem.

Colegas diretores e diretoras,

Estamos em lados diferentes de uma estrutura administrativa, mas pertencemos à mesma comunidade acadêmica. Compartilhamos as mesmas salas de aula, os mesmos laboratórios, os mesmos corredores e as mesmas inquietações. Compartilhamos também a condição fundamental de trabalhadores e trabalhadoras da educação pública. Que não permitamos que cargos transitórios nos façam esquecer essa identidade comum. Que não permitamos que as funções de gestão nos afastem daquilo que somos em nossa essência: docentes comprometidos com a defesa da universidade pública. Que sejamos capazes de construir pontes onde outros desejam erguer barreiras. E que possamos, juntos, defender uma universidade mais democrática, mais humana, mais solidária e mais fiel à sua missão pública.

Comando de Greve Docente da ADunicamp


0 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *