A ADunicamp vai realizar uma ampla e inédita pesquisa para investigar em profundidade as condições de trabalho de docentes na Universidade, numa consulta que também se estenderá em entrevistas e análises junto a servidores(as) técnico-administrativos e estudantes. Em outra ação de grande relevância, a entidade vai contratar especialistas para acompanhar os efeitos da reforma tributária sobre o financiamento das universidades públicas paulistas. Essas duas decisões, propostas pela Diretoria da ADunicamp, foram aprovadas por unanimidade dos participantes da reunião do CR (Conselho de Representantes) da associação, ocorrida nesta terça-feira, 28 de abril.
O objetivo da pesquisa é construir um diagnóstico detalhado das mudanças recentes e das atuais condições de trabalho e ensino. E vai abordar desde os efeitos dos novos modelos de contratação e aposentadoria, ocorridas nas últimas décadas, até as atuais condições de saúde da categoria. A proposta é a de reunir percepções, conflitos, preocupações e críticas relacionadas ao cotidiano profissional dentro da Unicamp.
“Pensamos esse projeto a partir de respostas que tivemos na pesquisa realizada no ano passado pelo ANDES-SN sobre a saúde docente, quando a questão das condições de trabalho, das dificuldades e do excesso de demanda foi frequentemente citada”, relatou a presidenta da ADunicamp, professora Silvia Gatti (IB).
A professora Silvia lembrou que, de forma especial após a pandemia, mudanças substanciais ocorreram com a massificação do trabalho digital, que resultou inclusive em novas formas de assédio sobre muitos grupos docentes, inclusive com “novas demandas gigantescas” e não previstas nos contratos iniciais. A partir do diagnóstico aprofundado que será gerado pela pesquisa, a ADunicamp pretende ampliar a discussão sobre as atuais demandas, junto a toda a comunidade acadêmica, e estabelecer novas ações e reivindicações junto à Reitoria.
A professora Ana Maria Fonseca de Almeida (FE), que coordenará a pesquisa, relatou ao Conselho de Representantes os principais passos e o modelo de construção da pesquisa, já apresentado em documentos para a Diretoria da ADunicamp. A pesquisa, intitulada Transformações no Trabalho Docente na Unicamp: condições de trabalho, vivência universitária e relações institucionais, deverá ser realizada ao longo de um ano, mas fornecerá relatórios periódicos, após a conclusão de cada etapa. “E esses relatórios já poderão orientar ações que a ADunicamp deverá tomar, mesmo antes da conclusão final dos trabalhos”, afirmou a professora Silvia.
A professora Ana reiterou que o questionário sobre saúde docente realizado pelo ANDES-SN acendeu um alerta para a necessidade de um estudo mais profundo sobre as atuais condições da vida acadêmica. “O questionário é muito preocupante, pois apresenta um quadro no qual as pessoas sentem sofrimento muito grande e um descolamento com relação àquilo que se espera da universidade, à própria missão da universidade. A sensação é de trilharmos o caminho para uma anomia. As pessoas não estão conseguindo, apesar de seu interesse e de sua vontade, se engajar de uma maneira significativa, propositiva e positiva com o seu trabalho”, avaliou.
Apesar de sua importância, o questionário do ANDES-SN, de abrangência nacional, ouviu apenas 200 docentes na Unicamp. Na avaliação da professora Ana, foi um número relativamente pequeno, diante de cerca de dois mil docentes em atividade na Universidade, mas “um número que não pode ser ignorado”. A pesquisa, segundo ela, será um trabalho bastante “fino e profundo” e que avaliará todas as mudanças ocorridas na comunidade acadêmica nas últimas décadas. “Desde modelos de avaliação até mudanças no poder de compra dos salários, as formas de contratação e progressão na carreira e assim por diante.”
Embora o foco da pesquisa seja o corpo docente como um todo, e não apenas associados(as) à ADunicamp, serão feitas também entrevistas com representações estudantis e do corpo técnico-administrativo. Afinal, na avaliação das professoras, é preciso identificar no conjunto da comunidade acadêmica os impactos causados pelas mudanças ocorridas na Universidade nas últimas décadas.
DATA-BASE 2026
A professora Silvia Gatti atualizou o CR sobre o andamento em curso das negociações da Data-Base 2026. Ela informou que a Pauta Unificada de reivindicações foi entregue ao Cruesp em reunião realizada no dia 22 de abril, na Reitoria da Unesp, em São Paulo. Segundo ela, o encontro ocorreu em clima cordial e receptivo, embora “marcado por cautela por parte da Reitoria”.
Os próximos passos da negociação incluem uma reunião preparatória do Fórum das Seis, marcada para este 29 de abril, seguida por encontro técnico com o Cruesp no dia 30. A expectativa é alinhar posições antes da reunião principal com os reitores, prevista para 4 de maio.
Silvia Gatti apontou que o cenário econômico não favorece as negociações neste momento. A arrecadação do ICMS, principal fonte de financiamento das universidades estaduais, apresenta desempenho abaixo do esperado, agravado por problemas administrativos e auditorias na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo. Esse quadro pode limitar a margem de negociação salarial.
A pauta defendida pelo Fórum das Seis inclui sete itens, além do reajuste salarial. A reivindicação atual deverá superar a casa dos 16%, índice que incorpora inflação acumulada (ainda sem os dados de abril/2026) e busca recuperar perdas salariais históricas. A conjuntura política e econômica torna o processo de negociação mais complexo neste momento. Uma situação agravada pelos recentes acordos firmados na USP, com pagamento de prêmio e reajustes em benefícios, ações que dividem as categorias e tendem a enfraquecer a mobilização unificada das universidades. Diante disso, apontou Silvia, a mobilização das categorias é essencial para garantir conquistas nas negociações.
Para fortalecer a pressão sobre o Cruesp, está prevista uma manifestação em frente à Reitoria da Unesp no dia 4 de maio, com organização de ônibus saindo de diferentes cidades. Segundo a professora, a mobilização será decisiva para fortalecer a mesa de negociação e poderá resultar em novas assembleias, estado de greve ou paralisações, caso não haja avanços concretos.
Comissão vai acompanhar reforma tributária e efeitos no financiamento das universidades
A proposta de contratação de dois especialistas para acompanhar os efeitos da reforma tributária sobre o financiamento das universidades públicas paulistas foi aprovada por unanimidade pelo Conselho de Representantes. A reforma, estabelecida pela Emenda Constitucional 132, vai alterar profundamente o sistema de tributação do consumo no país e prevê a extinção gradual do ICMS, principal base de arrecadação que sustenta os repasses às universidades estaduais.
O ICMS será gradualmente substituído por um novo tributo, o IBS (Imposto Sobre Bens e Serviços), e isso vai alterar completamente a forma e a base de cálculos dos repasses às universidades públicas paulistas. Assim, um novo formato de financiamento das universidades terá que ser definido, o que se dará a partir de negociações com o governo estadual e com a Assembleia Legislativa.
A reforma substitui o ICMS pelo IBS entre 2029 e 2033, mas o processo de transição começa antes, com a criação da Contribuição sobre Bens e Serviços, prevista para 2027. Como os novos tributos terão regras integradas, decisões tomadas já nos próximos anos poderão repercutir diretamente sobre a arrecadação futura do Estado de São Paulo.
Outro ponto considerado estratégico é a criação do Comitê Gestor do IBS, instância nacional responsável pela repartição de receitas entre estados e municípios. Esse novo órgão concentrará funções de fiscalização, cobrança e regulamentação tributária, reduzindo a autonomia dos estados sobre políticas fiscais e incentivos tributários. Essas mudanças podem redefinir os critérios de distribuição de receitas que impactam diretamente as universidades estaduais.
O acompanhamento técnico pretende mapear riscos durante o período de transição, especialmente entre 2027 e 2032, quando ICMS e IBS coexistirão. Nesse intervalo, as universidades deverão acompanhar simultaneamente duas bases arrecadatórias distintas: uma em declínio gradual, ligada ao ICMS, e outra em expansão progressiva, vinculada ao IBS.
Segundo a proposta aprovada, os especialistas contratados serão responsáveis por monitorar a arrecadação dos dois tributos, elaborar matrizes de risco para o financiamento estadual, estimar impactos sobre os repasses universitários e analisar decisões legislativas e normativas que possam gerar perdas de receita. Também deverão indicar medidas legais e institucionais capazes de preservar o financiamento das universidades públicas paulistas.
A equipe será integrada pelo professor Geraldo Biasotto Jr (FE), que tem ampla experiência no acompanhamento de questões tributárias no Estado de São Paulo, e pelo economista Ângelo de Angelis, aposentado da Receita Federal. O trabalho terá duração de 24 meses, com produção contínua de análises e acompanhamento das decisões tributárias em âmbito estadual e nacional.
Contas do primeiro trimestre são aprovadas por unanimidade
O Conselho de Representantes aprovou por unanimidade as contas da ADunicamp do primeiro trimestre de 2026. É o seguinte parecer da Comissão de Acompanhamento Financeiro do CR, lido e aprovado sem restrições na reunião, após uma apresentação detalhada das contas feita pela professora Silvia Gatti:
“Reunido(a)s no dia 22 de abril, juntamente com a Diretoria Financeira e a equipe técnica da ADunicamp, o(a)s membros da comissão apreciaram o balanço trimestral das contas da entidade, referente ao período janeiro, fevereiro e março de 2026. Para tanto, tiveram acesso à documentação pertinente e a uma detalhada apresentação, a cargo da tesouraria.
“Na reunião, questões pontuais relativas ao movimento financeiro foram devidamente sanadas pela equipe técnica e diretoria financeira. Com relação à planilha, destacamos os seguintes itens: a) alínea sobre infraestrutura de audiovisual, no grupo de despesas com sedes que apresenta a aquisição de equipamentos para o auditório (sede da ADunicamp); b) alínea sobre ações sindicais que se refere à publicação da cartilha “Maternagem e o Mundo do Trabalho”; c) na alínea ações solidárias, verificou-se a realização de apoios regulares (cozinhas solidárias, compras de cestas de alimentos orgânicos, Assentamento Marielle Vive e o Assentamento Milton Santos) e além destas, apoios à criação da associação dos moradores da Moradia Estudantil, ao Instituto Negras em Ação e à compra e envio de medicamentos para Cuba. Nos demais pontos sobre a movimentação financeira, o conjunto das despesas foi justificado pelos documentos disponíveis. Os dados acumulados (primeiro trimestre) do ano apontam uma situação financeira equilibrada e coerente com as projeções feitas para todo o período.
“Assim sendo, e não havendo quaisquer irregularidades a relatar, a comissão indica a aprovação das contas da entidade.”









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