A ADunicamp recebe, de 6 a 27 de novembro, o Festival de Cinema Italiano 2026, com uma programação de 14 sessões que reúne produções contemporâneas e clássicos do cinema italiano. As exibições acontecem na sede da entidade, em Barão Geraldo, Campinas, e apresentam ao público obras de importantes cineastas, como Federico Fellini, Roberto Rossellini, Giuseppe De Santis e Gabriele Muccino.
Uma oportunidade para conhecer diferentes períodos, estilos e narrativas de uma das cinematografias mais importantes do mundo. Confira a programação, escolha os filmes que deseja assistir e participe!
SERVIÇO
21º Festival de Cinema Italiano 2026 na ADunicamp
Data: 6 a 27 de novembro de 2026
Local: ADunicamp – Avenida Érico Veríssimo, 1479, Cidade Universitária, Barão Geraldo, Campinas/SP.
PROGRAMAÇÃO
06/11 (sexta-feira)
12h – Alla Festa della Rivoluzione (2025) – Arnaldo Catinari
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10/11 (terça-feira)
12h – La Vita Va Così (2025) – Riccardo Milani
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11/11 (quarta-feira)
16h – Riso Amaro (1949) – Giuseppe De Santis
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19h – Il Rumore delle Cose Nuove (2026) – Paolo Genovese
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13/11 (sexta-feira)
12h – Le Cose Non Dette (2025) – Gabriele Muccino
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17/11 (terça-feira)
16h – Stromboli, Terra di Dio (1950) – Roberto Rossellini
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19h – Scherzetto (2026) – Mario Martone
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18/11 (quarta-feira)
16h – I Vitelloni (1953) – Federico Fellini
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19h – Idda (2026) – Irene Dionisio
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19/11 (quinta-feira)
12h – Elena del Ghetto (2025) – Stefano Casertano
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24/11 (terça-feira)
16h – Viaggio in Italia (1954) – Roberto Rossellini
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19h – I Figli della Scimmia (2026) – Tommaso Landucci
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25/11 (quarta-feira)
14h – Prendiamoci una Pausa (2026) – Christian Marazziti
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27/11 (sexta-feira)
12h – Che Dio Perdona a Tutti (2026) – Pierfrancesco Diliberto (Pif)
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SOBRE O FESTIVAL
A 21ª edição do Festival de Cinema Italiano no Brasil oferece um panorama expressivo da diversidade do cinema italiano, reunindo produções contemporâneas e obras fundamentais da história cinematográfica do país. Entre dramas familiares, romances, comédias e narrativas históricas, os filmes nos convidam a percorrer diferentes épocas e territórios, observar as contradições da sociedade italiana e reconhecer, nas histórias particulares, conflitos que atravessam a experiência humana.
Na seleção de inéditos, chama a atenção a presença de diretores que exploram as tensões da vida contemporânea, suas relações afetivas, seus dilemas morais e suas transformações sociais. Em Le cose non dette (As Coisas Não Ditas), Gabriele Muccino investiga as fissuras de um relacionamento aparentemente estável. Uma viagem ao Marrocos, que deveria proporcionar descanso e leveza, acaba expondo segredos, ressentimentos e distâncias acumuladas. O filme coloca em questão aquilo que permanece oculto nas relações mais próximas e a fragilidade das certezas que sustentam a vida familiar.
Outras produções ampliam esse olhar sobre os vínculos humanos. Il rumore delle cose nuove acompanha três famílias cujas rotinas são abaladas por um encontro inesperado; Scherzetto confronta gerações por meio da relação entre um avô e seu neto; e I figli della scimmia aborda os desejos, as projeções e as expectativas que podem ameaçar o equilíbrio de uma família. Já Prendiamoci una pausa explora, com humor, as crises amorosas de três casais de gerações distintas. São histórias que revelam como a intimidade, longe de constituir um espaço protegido das contradições do mundo, é também atravessada por conflitos sociais, diferenças geracionais e mudanças de valores.
O festival não se limita, contudo, aos dramas privados. Em La vita va così, a resistência de um pastor à venda de sua terra para a construção de um resort de luxo coloca em confronto a preservação do território, a identidade de uma comunidade e a promessa de desenvolvimento econômico. Em Alla festa della rivoluzione, a ação se passa em Fiume, em 1919, num momento decisivo da história italiana, quando disputas políticas, projetos revolucionários e movimentos nacionalistas anunciam a aproximação do fascismo. A narrativa histórica permite revisitar as encruzilhadas de uma sociedade e refletir sobre as consequências das escolhas políticas.
É, porém, na presença de mulheres que enfrentam a violência, a opressão e as convenções de seu tempo que encontramos um dos fios mais potentes desta programação.
Em Elena del ghetto, Micaela Ramazzotti interpreta Elena Di Porto, mulher judia romana que, entre 1938 e 1943, desafia o regime fascista e a ocupação nazista para salvar vidas. Sua coragem e independência fazem de sua trajetória uma história de resistência individual e coletiva, inscrita na memória de uma comunidade perseguida. O filme recupera a experiência histórica do gueto judaico de Roma e recorda que, diante da barbárie, a resistência pode assumir a forma concreta de proteger outras pessoas e recusar a submissão.
A presença de atrizes como Ramazzotti, ao lado de nomes como Tecla Insolia, Romana Maggiora Vergano, Valentina Romani, Miriam Leone e Claudia Pandolfi, dá corpo a personagens femininas atravessadas por conflitos distintos. São mulheres que enfrentam a história, os limites impostos pelas relações afetivas, as expectativas sociais e as contradições de seu próprio tempo. Não se trata de uma única forma de resistência: ela pode se manifestar na luta contra um regime autoritário, na preservação da memória, na reconstrução de um vínculo ou na recusa a aceitar como inevitável uma vida que já não corresponde aos próprios desejos.
Essa dimensão ganha uma expressão particularmente sugestiva em Idda, dirigido por Irene Dionisio. Duas amigas de infância se reencontram aos trinta anos e decidem enfrentar juntas a subida do Etna. O vulcão, chamado de “Idda”, figura feminina, deixa de ser apenas uma paisagem natural e se torna presença simbólica: força, perigo, transformação e possibilidade de reencontro. Ao percorrer suas encostas e suas entranhas, as protagonistas confrontam concepções de feminilidade e redescobrem um vínculo que resiste ao tempo e às diferenças. A travessia física torna-se também uma experiência interior, em que a amizade oferece espaço para a transformação e para o reconhecimento mútuo.
A relação com Stromboli, terra di Dio, de Roberto Rossellini, exibido na retrospectiva, é especialmente fecunda. Em ambos os filmes, o vulcão ultrapassa a função de cenário e participa ativamente da experiência das personagens. Mas os sentidos dessa presença são distintos. Em Idda, o Etna aproxima duas mulheres e acompanha a redescoberta de uma relação. Em Stromboli, a ilha vulcânica, com sua beleza áspera e suas regras implacáveis, intensifica o isolamento de uma mulher que tenta escapar de um passado marcado pela guerra. A paisagem torna-se uma força que confronta a protagonista com a privação, o choque cultural e a sensação de aprisionamento.
A interpretação de Ingrid Bergman em Stromboli ocupa lugar central nessa experiência. Sua personagem, presa entre um casamento de conveniência, uma comunidade hostil e a impossibilidade de encontrar pertencimento, enfrenta os limites de sua própria sobrevivência. O vulcão expressa a tensão entre forças externas e conflitos interiores, tornando visível uma luta pela liberdade que não encontra soluções fáceis.
A retrospectiva permite reconhecer, assim, a grandeza de diretores que transformaram o cinema italiano em referência mundial. Roberto Rossellini e Federico Fellini representam caminhos singulares, mas igualmente decisivos, na construção de uma linguagem cinematográfica capaz de ultrapassar seu contexto de origem e alcançar questões universais.
Em Viaggio in Italia (Viagem à Itália), Rossellini volta a trabalhar com Ingrid Bergman, agora na história de um casal que viaja à região de Nápoles para resolver uma herança. O deslocamento geográfico se converte, pouco a pouco, em uma travessia emocional. Entre museus, ruínas, paisagens e vestígios de outras épocas, o casal se confronta com o desgaste da relação, os silêncios e a distância acumulada. A Itália, com suas camadas de história, vida e morte, funciona como espelho das personagens e abre a possibilidade de um reencontro.
Stromboli e Viaggio in Italia são obras-primas de uma fase particularmente importante da trajetória de Bergman: sua colaboração com Rossellini, que marcou profundamente sua carreira e a história do cinema. Os dois filmes apresentam mulheres muito distintas. Em Stromboli, uma mulher estrangeira, deslocada e submetida às exigências de uma comunidade fechada luta para não desaparecer sob o peso do isolamento. Em Viaggio in Italia, uma mulher inserida em um casamento em crise começa a reconhecer, no distanciamento e na contemplação, as fissuras de sua vida afetiva. Uma enfrenta a violência de um mundo que a exclui; a outra descobre, na experiência da viagem, a possibilidade de olhar de outra maneira para si mesma e para o companheiro.
São personagens que não se reduzem a tipos femininos nem oferecem respostas prontas. Suas experiências revelam a complexidade da liberdade, a dificuldade de romper com as estruturas que nos aprisionam e a possibilidade de transformação que emerge quando as certezas deixam de funcionar.
Com I vitelloni, Federico Fellini apresenta outro retrato memorável: o de cinco amigos que permanecem suspensos entre a juventude e a vida adulta, entre os planos adiados e a responsabilidade de escolher. Sob a ironia e o humor, o filme revela medos, frustrações e desejos de mudança. Já Riso amaro (Arroz Amargo), de Giuseppe De Santis, aproxima crítica social, paixão e suspense no universo das trabalhadoras dos arrozais do Piemonte. Com Silvana Mangano em uma atuação marcante, o filme faz do trabalho exaustivo, das desigualdades e dos conflitos entre desejo e sobrevivência elementos centrais de um dos grandes retratos do neorrealismo italiano.
Ao aproximar filmes recentes e clássicos, o festival constrói um diálogo entre épocas, estéticas e experiências sociais. A Itália que emerge dessa seleção não é uma imagem imóvel, reduzida à beleza de suas paisagens ou à nostalgia de seu passado. É um país atravessado por conflitos políticos, transformações culturais, tensões familiares e disputas em torno da memória, da identidade e do futuro.
Do Etna a Stromboli, das ruas de Roma às paisagens de Nápoles, das comunidades rurais às famílias urbanas, o cinema revela que os territórios também guardam histórias e que os dramas individuais são inseparáveis dos mundos em que se desenrolam. E, entre as muitas personagens que habitam essas narrativas, as mulheres ocupam um lugar fundamental: mulheres que resistem, enfrentam a solidão, desafiam o poder, interrogam os papéis que lhes foram atribuídos e buscam, por caminhos diversos, a possibilidade de decidir sobre a própria vida.
É essa capacidade de fazer da experiência particular uma pergunta sobre o mundo que dá força ao cinema. A 21ª edição do Festival de Cinema Italiano no Brasil nos oferece, assim, não apenas a oportunidade de conhecer novas produções e rever grandes obras, mas também a possibilidade de reconhecer, nas imagens e nas histórias, as contradições do nosso tempo e a persistência humana em imaginar outras formas de viver.








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