1

Democracia e Vida!

O último dia 7 de setembro, quando o Brasil comemorou os 199 anos desde a proclamação de sua Independência, foi sequestrado por uma série de mobilizações fascistas, comandadas pelo atual Presidente da República, Jair Bolsonaro, com o intuito de demonstrar apoio popular às suas intenções manifestamente golpistas. Concentradas em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, as manifestações reuniram números grandes de adeptos do bolsonarismo, ainda que provavelmente aquém das expectativas de seus organizadores, tendo-se em vista o tempo de preparação e os recursos, tanto privados como públicos, investidos nestas marchas, nas quais o governo pareceu apostar sua própria sobrevivência política, em um jogo de “tudo ou nada”.

Em seus dois pronunciamentos às multidões, em Brasília e São Paulo, Bolsonaro subiu o tom de suas já costumeiras ameaças, afirmando que não cumpriria mais ordens do Ministro Alexandre de Morais, do Supremo Tribunal Federal (STF), além de dar um ultimato ao Presidente da mais alta corte do país, para que enquadrasse seus colegas, sob pena de levar à imposição de medidas de força por parte do chefe do Executivo federal. Como lembraram diversas personalidades, tanto do meio jurídico, como da política, tais declarações configuram, em si mesmas, crimes de responsabilidade, enquadráveis no artigo 85 da Constituição Federal (CF), que enquadra nesta categoria “atentar contra o livre exercício dos demais poderes”. Mais um, na longa série de crimes de responsabilidade de Bolsonaro desde o início de seu mandato, que já motivaram mais de 130 pedidos de impeachment, que hoje dormem nos escaninhos da Presidência da Câmara dos Deputados, sob o olhar cúmplice do deputado Arthur Lira (PP-AL), que prefere sustentar um golpista assumido no poder, em troca do botim do orçamento federal, para si e o “centrão”.

Não por acaso, o mesmo Lira, em pronunciamento na tarde de 8 de setembro, retoma seu tom conciliatório usual, falando em uma “crise superdimensionada” e dispondo-se a trabalhar pela “reconciliação” dos poderes, como se tal coisa fosse possível a essa altura. Em um contexto como o que vive o país, atitudes como estas só podem ser tomadas como mais um indício de cumplicidade criminosa de quem prefere manter o país sujeito ao desgoverno em nome de cálculos de ganho pessoal e imediato. Já o Presidente do STF, Luiz Fux, embora tenha adotado tom mais duro em relação à chantagem presidencial, tampouco esteve à altura da urgência do momento, limitando-se a falar na “possibilidade” do impeachment, caso o mandatário venha a descumprir decisões da corte, como se tudo o que Bolsonaro disse e fez até o momento não fosse mais do que o suficiente para afastamento do cargo. Por fim, o Presidente do Senado Federal, o Senador Rodrigo Pacheco, limitou-se às suas usuais trivialidades em favor do “Estado democrático de direito” e a cancelar as sessões da casa previstas para semana passada.

Como se percebe claramente, as ameaças golpistas de Bolsonaro se nutrem da pusilanimidade, covardia ou pequenez dos titulares dos outros dois poderes do Estado, que relutam, muito além de qualquer medida de sensatez, em conter a maré montante do golpismo deste que, a muito deixou de governar e se dedica tão somente a minar as bases do que ainda resta de democracia no Brasil. Depois de escancarar um chamado ao golpe, um setor da base do Presidente – constituída por alguns caminhoneiros e fazendeiros – ainda chantagearam o país, bloqueando estradas em cerca de 14 estados, entre a quarta, dia 8 e a quinta, 9 de setembro. Para a surpresa desses promotores do caos, seu líder enviou uma mensagem solicitando o desbloqueio das rodovias. Após se consultar com o ex-Presidente Michel Temer, Bolsonaro ensaiou um recuo tático, publicando uma carta a nação, em tom conciliatório. Contudo, seria um equívoco interpretar esse gesto – motivado pela percepção da falta de apoio das elites civis e militares a seu autogolpe – como uma desistência de Bolsonaro em relação a seus propósitos desestabilizadores. Afinal, já foram várias as vezes em que o Presidente encenou pretensos recuos, só para voltar a investir contra as instituições quando as condições o permitissem. Assim, os acontecimentos do último 7 de setembro e dos dias seguintes deixam patente, mais uma vez, que temos no governo federal alguém cujo único propósito é destruir a ordem constitucional que, falsamente, jurou defender.

Deve-se dizer, a bem da verdade, que o grotesco espetáculo oferecido pelas hostes bolsonaristas ao menos moveu algumas importantes forças políticas da centro-direita, cujas principais lideranças, passaram a falar mais abertamente na possibilidade de um impeachment.

Mesmo que muito tardias, se tais movimentações forem minimamente consequentes, abrem ao menos alguma possibilidade da unificação do campo das oposições em torno da demanda da urgente destituição do atual inquilino do Planalto. Hoje, essa oposição encontra-se dividida, tanto pelo passado – as posições opostas durante o processo de destituição da ex-Presidenta Dilma Rousseff -, como pelo futuro próximo, as diferentes candidaturas presidenciais às vindouras eleições de 2022, fissuras essas que se expressam, inclusive, em diferentes convocatórias para manifestações, a maior parte das esquerdas optando pelo já tradicional “Grito dos Excluídos”, no mesmo dia 7 de setembro, e a centro-direita, chamando o ato do domingo, 12 de setembro.

Contudo, o que o conjunto das forças democráticas, ou ao menos não-bolsonaristas, precisam entender com a maior urgência é que ninguém pode se dar ao luxo de esperar 2022 para se ver livre do atual governo! Afinal, as insistentes investidas de Bolsonaro contra o voto impresso e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), reiteradas uma vez mais no 7 de setembro, na Avenida Paulista, deixam claro que o bolsonarismo, diante da probabilidade de ser derrotado nas urnas, está mais do que disposto a inviabilizar a realização de eleições livres, seja lá pelos meios que forem. Assim sendo, quanto mais tempo o líder neofascista permanece no mais alto cargo político do país, mais tempo terá para urdir sua trama conspiratória contra a democracia brasileira e o direito ao sufrágio popular universal, livre e soberano. Quanto às graves pendências das crises recentes, que nos trouxeram até aqui, muito embora não possam ser simplesmente jogadas para debaixo do tapete, elas só poderão ser devidamente ponderadas e debatidas publicamente, se forem preservadas as condições mínimas do Estado democrático de direito, como a garantia da liberdade de expressão, justamente aquilo que o bolsonarismo diz defender, mas claramente pretende minar.

Assim sendo, já passamos da hora de, dentro de nosso pluralismo e divergência de posições político partidárias, cerrarmos fileiras em mobilizações de massa unitárias em defesa da democracia e pela imediata remoção de Bolsonaro, seja pela abertura de um dos inúmeros pedidos de impeachment, seja pela cassação da chapa presidencial no TSE, para o que há abundantes provas de crimes eleitorais em 2018, ou ainda pela autorização do parlamento para o STF processar penalmente o titular do Executivo por seus crimes.

Cabe destacar que, em que pese os números que Bolsonaro mobilizou na última terça-feira, sua demonstração de força foi incapaz de ocultar o óbvio: o profundo isolamento de seu governo na sociedade, atestado por todas as pesquisas de opinião pública, que restringem o apoio presidencial a um quarto da população, aproximadamente. Não seria, aliás, para menos em um país com quase 600 mil mortos pela gestão criminosa da pandemia da Covid19; inflação crescente de alimentos e preços administrados que corroem o poder de compra dos salários; quase 15 milhões de desempregados e outros milhões mais de subempregados; mais de 19 milhões passando fome, deterioração ambiental acelerada, agravada pela predação do agronegócio sobre as florestas e os povos indígenas e a correlata crise hídrica e energética, que ameaçam deitar ao chão uma já cambaleante economia.

Nenhum destes temas urgentes, que constituem as verdadeiras preocupações e angústias do povo brasileiro, foi abordado nas alocuções presidenciais por ocasião do Dia da Independência, as quais não passaram de uma pregação para convertidos, reproduzindo as arengas golpistas e autoritárias de costume, enquanto as condições de vida da maioria da sociedade se deterioram a olhos vistos. Sejam quais forem nossas divergências em relação às soluções a serem dadas a tantos e tão graves dilemas da vida nacional, o certo a essa altura, para qualquer observador honesto, é que qualquer solução passa pelo afastamento definitivo de Bolsonaro da Presidência e pela abreviação de seu desgoverno, que merece com justeza o título de pior da história brasileira.

Não deixemos que os urros intimidatórios dos êmulos de tropas de assalto nos amedrontem. Nós, não eles, constituímos a maioria do povo brasileiro e desejamos viver em democracia para reconstruirmos esse país. Lutemos, pois, unidos em nossa diversidade e retomemos de volta os símbolos nacionais que o autoritarismo bolsonarista sequestrou e corrompeu. A bandeira verde e amarela não pode se prestar a emblema de facção de fanáticos, milicianos e delinquentes. No espírito do Dia da Independência, é preciso lançar, de uma vez por todas, um novo grito pelas multidões: democracia e vida!

ADunicamp – Associação de Docentes da Unicamp
ADUSP – Associação de Docentes da USP
Adunesp – Associação de Docentes da Unesp

Arte da imagem de capa, na home: Paula Vianna (ADunicamp)




O PL 3729/04 encaminha a destruição do meio ambiente

Por Prof. Mário Antônio Gneri
(IMECC / Unicamp)

A câmara de deputados aprovou, por 300 votos a 122, o texto base do PL 3729/04 de licenciamento ambiental, que legitima a “passagem da boiada” preconizada pelo ministro Salles. Ex-ministros de todos os governos pós ditadura até 2018 fizeram um importante e didático manifesto contra.

É criminosa a atitude aos congressistas que “abriram a porteira”, entre eles os integrantes das bancadas do boi (representantes do agronegócio), da bala, da bíblia e do centrão. Em particular merecem destaque (negativo) o relator (deputado Neri Geller, PP) e o presidente da câmara (Lira, PP), que colocou o PL em regime de urgência e impediu a discussão do assunto, utilizando manobras baseadas no absurdo regimento interno que ele mesmo colocou em votação dias atrás e que na prática dificulta quase por completo a obstrução e a discussão.

É também repudiável a atitude da mídia escrita e televisiva, que, mesmo criticando o PL, evitou difundir os nomes dos deputados que votaram a favor ou contra do projeto (sequer mencionaram como votaram maioritariamente os partidos) colaborando clara e hipocritamente com a desinformação e assim com a aprovação do PL.

Por outro lado, merece fortes críticas a atitude dos partidos de oposição, que tem infraestrutura suficiente como para divulgar o que a mídia silenciou, mas não o fizeram. Ainda faltam muitos capítulos, como ser a passagem do citado PL pelo senado e a próxima posta em pauta da reforma administrativa, que merecem rejeição firme e explícita.

O papel da oposição não deveria restringir se a que os congressistas levantem suas brancas mãozinhas para votar contra. A divulgação de nomes e outras ações agitativas são necessárias. De nada serve esperar que nas eleições se consume a derrota de Bolsonaro pois até lá se prolongará a pandemia, a Amazônia será incendiada e desmatada, as populações de indígenas e quilombolas dizimadas, a infraestrutura estatal de saúde, educação e assistência social destruída e as empresas estatais privatizadas.

A oposição deve acordar e não dar trégua ao governo, caso contrário, mesmo ganhando as eleições, encontrará um Brasil tão destruído que pouco poderá fazer para levar as condições de vida da população a um nível minimamente humano, tendo que administrar o já instalado projeto neoliberal de Guedes, quase certamente na “companhia” do insaciável centrão e devendo apenas contentar-se com algumas leves melhoras de perfumaria.

Pinochet caiu há décadas, mas os posteriores governos democráticos moderados quase nada mudaram. O povo chileno somente hoje tem chances de superar a herança maldita do sangrento golpe 1973, depois de atropelar pinochetistas e moderados.

Fora Bolsonaro. Impeachmet já.




ELEIÇÕES 2020 | Doutor Li | A Universidade e o Desenvolvimento para Campinas

A Diretoria da ADunicamp convidou todos/as candidatos/as a vereador/a ligados à Unicamp para escreverem sobre “a universidade e o desenvolvimento da cidade de Campinas”. Os textos serão publicados por ordem de chegada. A seguir, confira o material preparado pelo candidato Doutor Li:
 


 
Prezados colegas docentes:
Agradeço imensamente a oportunidade conferida pela Adunicamp de poder divulgar minha candidatura a vereador pelo município de Campinas. Para quem não me conhece, sou o Prof. Dr. Li Li Min, docente do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas – FCM Unicamp, lançando-me em um projeto bem diferente dos projetos que tive oportunidade de desenvolver nesses 20 anos de residência em Campinas e, sobretudo, como pesquisador e professor na Unicamp.
Sou de fato muito grato à comunidade da Unicamp, pela oportunidade de desenvolvimento profissional e, à cidade de Campinas, que acolheu minha família. Gratifico-me ao lembrar que, aqui, juntamente com inúmeros parceiros, dei início ao projeto Epilepsia Fora das Sombras, uma iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), em parceria com a Liga Internacional de Epilepsia (ILAE) e com o Escritório Internacional de Epilepsia (IBE). Tendo fundado, também a Organização Não Governamental de Assistência à Saúde de Pacientes com Epilepsia (AspeBrasil.org), tornando-se referência nacional.
Da carreira de pesquisador e professor na Unicamp, gosto de destacar a colaboração do nosso grupo, na proposta das atividades de pesquisa em neurociências passassem a ser desenvolvidas de forma multicêntrica e em rede. Dessa atuação, dois importantes programas foram firmados junto à Fapesp, o CInAPCe e o Instituto Brasileiro de Neurociências e Neurotecnologia (CepidBRAINN).
Paralela às atividades acadêmicas, a necessidade de gestão de projetos de alta complexidade, tais quais o CInAPCe o CepidBRAINN, me fizeram retornar a uma cadeira dos bancos escolares. Graduei-me em Administração e, a partir deste novo título acadêmico, construí uma rede de relações em torno da Filosofia do Pensamento Enxuto (Lean), criando assim, o Grupo de Inovação e Gestão na Saúde na Unicamp (GIGS.org.br).
Como parte do aperfeiçoamento e experiência como gestor, passei dois anos nos Estados Unidos, na realização do meu pós-doutorado como professor visitante na Escola de Negócios do Worcester PolytechnicInstitute (WPI) e no grupo gestor de pesquisa do Departamento de Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Massachusetts.
A diversidade temática de minha área de atuação, possibilitaram uma percepção acadêmica e profissional, como pesquisador e gestor, focada na promoção e no desenvolvimento de pessoas para o exercício da cidadania plena, motivação explícita, agora, sob destaque neste meu novo projeto, que deposita no exercício da atividade político-partidária pilares basilares, que acredito serem necessários ao sustento das atividades científicas e educacionais. Acredito que a Ciência é a força geracional de riqueza sustentável, fundamental para o desenvolvimento, a autonomia e a soberania de uma Nação. A Ciência nasce no banco das escolas e progride no avançar dos níveis educacionais. Ciência e Educação, portanto, são investimentos sociais fundamentais na construção de um futuro melhor para a cidadania plena. Assim, pretendo atuar diretamente na esfera da política para que esses fatores sejam levados em conta na construção de políticas públicas e na fiscalização de ações do Poder Executivo.
Faço um chamado a todos meus colegas cientistas para o desenvolvimento de Campinas. Enquanto servidores públicos e membros da comunidade universitária, nós exercemos um papel importante na sustentação da ponte que liga o conhecimento científico à sociedade. Que a Unicamp possa ser cada vez mais protagonista no desenvolvimento da cidade de Campinas e toda Região Metropolitana de Campinas. A
produção de conhecimento – DNA da Unicamp – é matéria-prima para o estabelecimento de um ciclo econômico baseado em ciência. Precisamos, no entanto, garantir projetos de lei e políticas públicas que avancem nessa direção. Conto com o apoio e voto de todos vocês meus colegas docentes para que, juntos, possamos trabalhar para que a Unicamp seja cada vez mais participativa, integrativa e atuante para tornar Campinas uma cidade sustentável e inclusiva para todos.
Projetos prioritários
Saúde
Faremos uso da gestão com base no princípio da filosofia Lean Healthcare que visa eliminar desperdícios, aumentar a capacidade de atendimento e melhoria contínua. Aliada a visão estratégica do quadruple aim (ações devem ter 4 objetivos – saúde da população, experiência do usuário, custo efetividade, experiência do colaborador). Um plano é o gerenciamento de fluxo de atendimento aos pacientes com Covid-19, bem como o fluxo de pessoas com doenças crônicas, como diabetes, epilepsia, hipertensão, transtornos mentais e tantos outras, que necessitam prosseguir no acompanhamento médico e que neste momento estão impossibilitadas devido à pandemia.
Geração de Renda e Emprego
Campinas é um polo gerador de Ciência, Inovação e Tecnologia (CIT). Essa estrutura pode ser melhor aproveitada. No ano de 2019, Campinas registrou um aumento no número de empresas, em particular de pequeno porte, possivelmente um reflexo de desemprego e uma resposta individual frente a referida situação. Cabe lembrar também,- que Campinas vem se consolidando como um novo berço de franquias de acordo com dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF).Destaco aqui uma oportunidade para apoiar e promover mecanismos, além de estabelecer parcerias com esses polos da CIT, ampliando o apoio aos microempreendedores para aumentar a receita positiva,
bem como criar novas formas de negócio com as empresas locais.
Cultura e Arte
Mais do que nunca, Cultura e Arte têm sido fundamentais para a nossa saúde mental nesses tempos difíceis de distanciamento social. Há quem diga, que Campinas mesmo antes de ter água encanada e luz elétrica, já tinha teatro. Olhando o sucesso do setor de Inovação, que se valeram dos modelos de negócio, como aceleradoras, hubs e incubadoras, proponho estudos e elaboração de projetos que utilizem de tecnologia de informação e comunicação para a Cultura, podendo culminar em um HUB de Arte e Cultura de Campinas (HACC) com objetivo de facilitar, agilizar e dar suporte as pessoas, conectando os elos da cadeia produtiva deste setor com possibilidade de geração de renda e empregos.
Educação
A educação é a base para o desenvolvimento de pessoas, ocupando um espaço muito importante na minha agenda, sobretudo a questão da inclusão escolar que sempre esteve no foco dos meus projetos sociais. Vou trabalhar em prol da inclusão socioeducacional dessas pessoas e de suas famílias, seja na escola bem como ampliando suas perspectivas para o mercado de trabalho. Por exemplo, na criação de material de apoio paradidático em temas sobre Autismo, TDAH, Epilepsia, Surdas e Cegas (para cego ver e surdo ouvir). Também na promoção/realização de audiências em parceria com Ministério Público do Trabalho e empresas locais para promoção da Lei da Inclusão com extensão à nova referência da Organização das Nações Unidas na questão da deficiência.
Doutor Li (Cidadania) – 23238
Candidato a vereador




ELEIÇÕES 2020 | Profa. Katia Stancato | A Universidade e o Desenvolvimento para Campinas

A Diretoria da ADunicamp convidou todos/as candidatos/as a vereador/a ligados à Unicamp para escreverem sobre “a universidade e o desenvolvimento da cidade de Campinas”. Os textos serão publicados por ordem de chegada. A seguir, confira o material preparado pela candidata Katia Stancato:
 


 
Desde que a Unicamp foi construída, o nome da cidade de Campinas se vinculou ao nome da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Uma aliança celebrada em 2020, de vida e prestação de serviços humanitários de nossa querida Unicamp. E essa história completou em 2020, significativos e relevantes 53 anos.  Desde então, a Unicamp esteve e está promovendo o desenvolvimento de Campinas, de diversas formas: pragmáticas, simbólicas e afetivas. Neste texto, convido o leitor, a população de Campinas, a refletir sobre o momento de constantes mudanças locais, nacionais e no contexto global de uma sociedade humana que enfrenta grandes desafios no final destas duas décadas do Milênio. 
O que é desenvolvimento em Campinas no ano de 2020? Podemos pensar em êxito, atingir objetivos previamente estabelecidos, superar metas, alcançar um novo status econômico, ascender na perspectiva do economicamente e da inclusão? Sabemos que o conceito de desenvolvimento para uma cidade é um estado de condições amplas as quais podem envolver tanto as riquezas materiais arregimentadas, o avanço tecnológico e qualidade de vida, melhores condições de saúde, enfim, uma vida coletiva comtemplada por mais acessos à vida com dignidade. Nesta linha de pensamento, a Unicamp colabora há 53 anos com Campinas.
E Campinas, como parte integrante de uma sociedade mais abrangente – a sociedade brasileira –, sente e reverbera grande parte dos eventos que representem mudança, desenvolvimento econômico e humano, como também retrocessos, impactos ambientais, perdas culturais e socioeconômicas. O clima mudou no Planeta, as chuvas caem em diferentes estações, as altas temperaturas assustam e geram desconforto, perde-se fauna e flora em queimadas no Pantanal e na Amazônia. Latente a todos estes fenômenos, a percepção da necessidade de pausa, de refrearmos ritmos, de desacelerarmos padrões, antes tidos como marcadores de prosperidade. Porém, a pausa imposta pela pandemia pede também atitude e disposição para mudanças.
Em 2020, além da pandemia Covid-19, muitos desdobramentos de processos históricos e ambientais nos fizeram refletir sobre a continuidade de organismos sociais ou a necessidade de observarmos os fenômenos da vida e assumirmos com responsabilidade o papel de cuidadores das coisas sociais e das vidas que nos cercam. É preciso considerar que organismos vivos são complexos, necessitam ser conhecidos em profundidade. E assim como um organismo vivo, a cidade de Campinas tem suas especificidades, suas características, uma fisionomia social digna de admiração, mas que desvela, já há alguns 10 anos, a premência de uma gestão municipal que introduza a filosofia do cuidado responsável, no melhor sentido desta expressão.
Campinas, com seus 1,2 milhão de habitantes continua sendo destino para brasileiros de outras regiões ou cidades paulistas. De 2019 para 2020 a cidade atraiu 9,7 mil novos moradores, segundo informações do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Temos de nos perguntar: o quê Campinas ainda reserva de atraência para aqueles que deixam seu lugar de origem e resolvem plantar sonhos, sobreviver, empreender à migração? Campinas tem muitos pontos de convergência, muitos imãs, além de indústrias de ponta, pólos de alta tecnologia, pujança no setor terciário e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ao longo de seus 53 anos de existência é, e continuará a ser um referencial, um desejo de destino, uma necessidade como centro de ensino, pesquisa científica de alto nível, extensão e atendimento em Saúde.
No entanto, conforme introduzi, a reflexão neste texto, tudo que é vivo exige o ato do cuidado, do zelo, da promoção do bem-estar em múltiplas dimensões. E isso faz parte da compreensão do ciclo vital. Os seres e criações que nascem, vivem, se desenvolvem, imperativamente passam pelo experimento da demanda de serem cuidados ou de terem de encontrar os recursos necessários para sua sobrevivência e/ou desenvolvimento. Uma empresa, uma cidade, uma tradição, as instituições, todas as criações sociais que sustentam o fluxo da vida em coletividade passam por ciclos. Na natureza, as plantas, os animais, os oceanos, tudo vive sob a égide de um ciclo de vida, sendo que o tempo de existência individual dos seres varia de acordo com diversos fatores: o quanto ele é autônomo em seus ecossistema, o quanto de recursos ele dispõe para se manter vivo, o quanto ele é forte e resiliente para persistir às intempéries. 
Enfim, cada cidade, cada universidade tem seu ciclo vital e cabe a estas entidades conhecerem sua natureza, seus limites, as advertências dos riscos, os seus processos e obviamente ter um planejamento em constante observância do mundo que muda a sua volta. Porém, os alicerces que “seguram a casa” não podem balançar conforme a velocidade dos ventos. A acepção de desenvolvimento que entendo ser sustentável para Campinas de forma deve priorizar a sinergia com a universidade, deve considerar premissas de valores humanos inegociáveis, de gestões públicas que cuidem com responsabilidade do contexto presente, para que o presente venha a constituir futuros, os mais sólidos, os menos exclusivos possíveis, de maneira a preservar e cuidar da universidade como um patrimônio interligado ao desenvolvimento humano da cidade e de suas produções que elevam a ciência e educação.
Pensar o desenvolvimento de Campinas e da Universidade, passa ainda, a meu ver, a um exercício de nos perguntarmos qual é a compreensão semântica e de expressão que a palavra “desenvolvimento” nos confere no contexto 2020.  O desenvolvimento de uma cidade não pode ser lido unicamente pelos indicadores da arrecadação municipal de impostos. Uma arrecadação de R$ 6,7 bilhões (orçamento anual de 2020) da Prefeitura Municipal pode ser vista como um traço de desenvolvimento, porém este mesmo número perde toda a sua eloquência, quando nos defrontamos com a ausência de investimento em saúde pública no município e o transporte coletivo é o mais caro do país.
A Universidade de Campinas, por sua amplitude como centro de ensino, pesquisa, extensão e cobertura em saúde, apesar de contar com recursos financeiros dos repasses estaduais não está imune de impactos advindos das condições “de desenvolvimento” da cidade. E diversos setores da vida desta coletividade, como moradia, transporte de qualidade, segurança, saneamento, redes de proteção social, lazer, cultura e esportes são áreas relevantes para que a cidade saudável e sustentável, proporcione condições favoráveis ao desenvolvimento da Universidade. Não haverá universidade forte e desenvolvida numa cidade pauperizada e em desarmonia com a agenda de preservação de direitos cidadãos, de valores humanizados e de oportunidades iguais indistintamente.
Caso eleita vereadora de Campinas, confiando em minha experiência docente na Faculdade de Enfermagem (Unicamp), em minha atuação no Hospital de Clínicas, em meus princípios como cidadã e profissional de Saúde, ex-coordenadora do Programa UniversIDADE-Unicamp, pretendo atuar no Legislativo de forma responsável e atenta para, além do papel fiscalizador das ações do Executivo, empreender em prol da interlocução permanente entre Legislativo, universidade, sociedade civil e Executivo na seguinte direção de promover a efetivação de parcerias profícuas entre o Executivo, o Legislativo e a Unicamp. Estas parcerias, devidamente planejadas, reverberarão certamente para a melhoria da gestão pública municipal e o fortalecimento institucional de nossa Unicamp, com repercussão em desenvolvimento humano. 
Enfermeira Katia Stancato (PTB) – 14013
Candidata à vereadora




ELEIÇÕES 2020 | Juliano Davoli | A Universidade e o Desenvolvimento para Campinas

A Diretoria da ADunicamp convidou todos/as candidatos/as a vereador/a ligados à Unicamp para escreverem sobre “a universidade e o desenvolvimento da cidade de Campinas”. Os textos serão publicados por ordem de chegada. A seguir, confira o material preparado pelo candidato Juliano Davoli:
 


 
“A Unicamp e o desenvolvimento da cidade de Campinas.”
A nossa Campinas, cidade do interior de um estado brasileiro, tem condição singular no país. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) oficializou, em 25 de junho deste ano, a nossa cidade com status de metrópole no país. Ou seja, Campinas é a única metrópole que não é capital de um estado brasileiro, destacando-se no conjunto das atuais 15 metrópoles brasileiras, ou seja, como um dos principais centros urbanos do Brasil. 
Campinas adquiriu o status em virtude do elevado dinamismo da sua economia, que concentra uma estrutura empresarial sólida, diversificada e forte, com grande número de empresas; por sua influência regional sobre a Região Metropolitana (RM) de Campinas com dezenove municípios; e, pelo porte demográfico, que ultrapassa os quatro milhões de habitantes na RM. Conhecida como “Vale do Silício brasileiro”, é um dos principais polos tecnológicos da América Latina e concentra 30 das 500 maiores empresas de alta tecnologia do mundo, segundo dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Social e Turismo. Campinas tem um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 57 bilhões, em 2018, o décimo maior do País, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cidade é a maior do interior do Estado de São Paulo e desempenha importante papel no escoamento da produção e distribuição de produtos e insumos na região.
Campinas atingiu o nível de metrópole, também, por abrigar instituições públicas nacionalmente importantes, atraindo contingentes populacionais muito significativos de outras cidades para acessarem bens e serviços, incluindo os serviços de Educação oferecidos pela PUCC e por várias universidades privadas. No cenário das instituições públicas campineiras catalizadoras da atenção nacional a Unicamp tem um lugar muito especial, talvez o de maior importância, ao lado do IAC, do ITAL, do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, a nova denominação da Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron, que inclui o Laboratório Sirius), CPqD/Telebrás, CTI e Embrapa/Campinas. E podemos afirmar que a nossa Unicamp é o núcleo educacional, científico e tecnológico e que fez desta pujante cidade um centro gerador de conhecimento e de riquezas da maior importância para o Brasil.
É desta forma que enxergo a importância da cidade e da Unicamp, simbioticamente, com um amplo e forte potencial de geração de desenvolvimento socioeconômico, mais intensamente baseado no potencial científico e tecnológico disponível. Entretanto, também considero que esse potencial não tem se manifestado com a força e as múltiplas possibilidades que oferece, principalmente porque os sucessivos governos da cidade e seus prefeitos titulares não têm tido a devida sabedoria para provocar uma aproximação produtiva e profícua para a cidade.

A CAMPINAS E A UNICAMP QUE EU VEJO E DESEJO.
A minha experiência pessoal como servidor da Unicamp, quando fui Diretor da Casa do Lago – entre 2008 e 2012 – e Coordenador do GGUS (Grupo Gestor Universidade Sustentável), – entre 2014 e 2019 – e Diretor Administrativo e Financeiro da IMA (Informática dos Municípios Associados) – entre 2013 e 2014 –, empresa pública municipal de Campinas, levam-me a acreditar que existe uma enorme lacuna no espaço possível de colaboração entre a Unicamp, o governo local de Campinas, as empresas, as organizações educacionais e as organizações da sociedade civil.
Além do que já sabemos, sobre a importância da prestação de serviços médico-hospitalares que a Unicamp oferece para a população de Campinas e regiões próximas, que dão muita notoriedade à Universidade e deve continuar, a cidade de Campinas, em particular, pode se beneficiar de conhecimentos científicos e tecnológicos que a Unicamp produz nas áreas de Educação, de Energia, de Meio Ambiente, de Sustentabilidade, de Recursos Animais e Vegetais, de Planejamento Urbano, de Recursos Hídricos, de Qualidade do Ar Atmosférico, de Tratamento de Resíduos (reciclagem do lixo urbano e destinação dos resíduos perigosos), de Artes Cênicas e Musicais, de Construção Civil, de Transportes e Locomoção Urbana, Agricultura Familiar Sustentável (Agroecologia), Políticas de Alimentação e Nutrição e Política de Esportes.
Na vanguarda da procura por novos caminhos para o desenvolvimento regional e nacional quero destacar uma investida inovadora da Unicamp para os tempos mais próximos, que cria perspectivas muito positivas para o impulsionamento da parceria que eu vislumbro com o governo municipal. Trata-se da proposta de instalação em Campinas de um HIDS – “HUB Internacional para o Desenvolvimento Sustentável – cuja finalidade é construir uma estrutura que combina e articula ações, através de parcerias e cooperações entre instituições que possuem competências e interesses voltados a prover contribuições concretas para o desenvolvimento sustentável de forma ampla, incluindo as ações que tenham impactos nos eixos social, econômico e ambiental. Essa estrutura deve estar sediada em um local onde as sinergias são identificadas e potencializadas, sendo, desse modo, denominada como um HUB. A ocupação dessa área é uma oportunidade de explorar iniciativas para promover atender e incentivar a Agenda 2030, da ONU, com seus 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, um compromisso assinado por 193 países, incluindo o Brasil.
Sua visão é contribuir para o processo do desenvolvimento sustentável, agregando esforços nacionais e internacionais para produzir conhecimento, tecnologias inovadoras e educação das futuras gerações, mitigando e superando as fragilidades sociais, econômicas e ambientais da sociedade contemporânea.” (http://www.hids.depi.unicamp.br/sobre/). 
Ressalto, a partir da minha experiência como Coordenador do GGUS/Unicamp, a importância da estreita colaboração entre a Universidade e o governo municipal na implantação de politicas de sustentabilidade, por ser uma das áreas mais preocupantes na atualidade. 
A minha conduta diuturna como vereador da cidade de Campinas, se eleito, será trabalhar como agente promotor de uma intensa cooperação entre os setores da municipalidade, que considero vitais, tendo o Executivo Municipal como núcleo articulador e a Unicamp como fornecedor de conhecimentos, e com a participação do legislativo (Câmara Municipal), do meio acadêmico universitário privado, das instituições públicas de pesquisa cientifica e tecnológica, já citadas acima, e das entidades organizadas da sociedade civil representativas da população. 
juliano Davoli (PT) – 13222
Candidato a vereador em Campinas




ELEIÇÕES 2020 | Prof. Wagner Romão | A Universidade e o Desenvolvimento para Campinas

A Diretoria da ADunicamp convidou todos/as candidatos/as a vereador/a ligados à Unicamp para escreverem sobre “a universidade e o desenvolvimento da cidade de Campinas”. Os textos serão publicados por ordem de chegada. A seguir, confira o material preparado pelo Prof. Wagner Romão:
 


 
A IMPORTÂNCIA DA UNICAMP PARA SUPERARMOS A CRISE EM CAMPINAS E NO BRASIL
A grave crise pela qual passamos possui pelo menos cinco vetores: 

  • o sanitário, com a pandemia do coronavírus longe de ser debelada, em meio ao desmantelamento do nosso Sistema Único de Saúde; 
  • o econômico, com a incapacidade dos governos realizarem políticas anticíclicas de combate à estagnação econômica e ao desemprego; 
  • o ambiental, com uma matriz energética poluidora, com a predação do nosso ambiente pela especulação imobiliária e pela voracidade do avanço das fronteiras agrícolas sobre as reservas florestais, entre outras tantas dificuldades;
  • o cultural, com a extrema fluidez da produção de informações duvidosas, ataques ao conhecimento científico e aos avanços civilizacionais das décadas recentes; e, por fim,
  • o político, com a fragilização da democracia e com a exclusão das maiorias (mulheres, pessoas negras, população periférica) do exercício da cidadania no país.

Não há maneira de sairmos desta crise sem o conhecimento cientifico que, no Brasil, é produzido  majoritariamente pela Universidade Pública!
Os governos federal e estadual, no entanto, têm atacado fortemente a Universidade, seja pela visão neoliberal de Estado, que mina sua capacidade de promover justiça social e efetivar direitos; seja pelo autoritarismo que sempre é inimigo da livre produção do conhecimento.
Em Campinas, temos uma Prefeitura e uma Câmara Municipal que estão muito longe de ter condições de debelar esta crise. Mais que isso, elas promovem a fragilização do SUS e não conseguiram reagir à quebradeira das empresas locais e ao desemprego. E estão distantes da Universidade.
Nossa candidatura a vereador em Campinas pretende agir para fortalecer a luta em defesa da Universidade pública, em especial da Unicamp. Atuei nos últimos dois anos na presidência da ADunicamp. Foi um período de muitas dificuldades, em que tivemos como estratégia de atuação o estreitamento de laços com a sociedade campineira e a busca da visibilidade para nossas causas em São Paulo e no país.
A Unicamp é muito querida em Campinas. Seu Hospital de Clínicas e toda a área da saúde são referências regionais e tenho percebido a enorme gratidão das pessoas pelo HC e pela Unicamp. Mas, precisamos nos aproximar ainda mais da cidade. 
Há muito a se fazer, e tenho certeza que uma melhor configuração da Câmara Municipal e uma Prefeitura com pessoas de mentalidade mais arejada e comprometidas com a transformação social podem gerar fortes parcerias entre a Unicamp e o poder público. Muito mais do que já é feito hoje. Campinas precisa da Unicamp e nossa Universidade pode colaborar muito para o desenvolvimento sustentável da cidade. 
Com o apoio de nossa comunidade acadêmica, espero poder ser um dos articuladores deste novo e frutífero momento das relações entre a Unicamp e a cidade de Campinas.
Prof. Wagner Romão (PT) – 13300
Candidato a Vereador em Campinas




MANIFESTO DA APAER EM DEFESA DA EXTENSÃO RURAL E DA POPULAÇÃO RURAL DE SÃO PAULO

O político João Dória quer acabar com os serviços públicos se aproveitando da pandemia
A APAER – Associação Paulista de Extensão Rural vem aqui manifestar a nossa indignação pelas medidas que vêm sendo tomadas pelo político governador de São Paulo, João Dória.
O governador Dória mandou para a Assembleia de São Paulo um projeto para acabar com 11 entidades que prestam serviços públicos essenciais. Dória quer acabar com a Fundação Itesp, que apoia as populações rurais mais vulneráveis do estado. Dória quer acabar também com o Instituto Florestal, que protege nossas riquezas naturais. Em plena pandemia, pasmem, nosso atual governador Dória quer acabar com entidades que cuidam da saúde da população, como a fundação do remédio popular e a entidade que atende as pessoas com câncer. A vida política de João Dória é assim – o discurso é um e a prática é outra. No mesmo projeto de lei ele também pede para os nossos deputados estaduais carta branca para vender os patrimônios do estado.
O projeto do político João Dória para acabar com o serviço público tem várias frentes. Ao mesmo tempo do projeto de lei também está em andamento na secretaria da agricultura do governo Dória projeto para acabar com as 574 Casas da Agricultura em todo o estado. Dória quer abandonar ao relento e sem extensão rural mais de 345 mil famílias agricultoras, pescadoras, quilombolas e assentadas paulistas. A proposta de Dória é desastrosa – em plena pandemia quer abandonar sem dó nem piedade as famílias de agricultores que colocam a comida no prato dos paulistas.
Dória quer acabar com a extensão rural de São Paulo – a mão amiga que o produtor rural procura quando precisa de serviço público de qualidade.
Desde o tempo que abandonou o cargo de prefeito de São Paulo para ser candidato a governador de São Paulo Dória tem o discurso de que não é político – chama a si mesmo de gestor. Dória é um necropolítico – que usar seu poder para ditar como algumas pessoas podem viver e como algumas devem morrer à míngua. Fala uma coisa e faz outra.
Que tipo de político é esse que fala para preservar o emprego e quer acabar com o emprego dos servidores, que sobe no palanque para falar em defesa da saúde e quer acabar com as instituições que cuidam da saúde das pessoas? Que tipo de gestor é esse, que para enfrentar a crise deixa sucatear os bens públicos e quer vender boa parte do patrimônio do estado. Que ao invés de motivar os trabalhadores para defender a população quer aproveitar a pandemia para demitir trabalhadores e acabar com serviços públicos que atendem a população.
Ao invés de fazer uma revisão dos 23 bilhões de renúncia fiscal que beneficiam principalmente grandes empresas Dória quer acabar com os atendimentos de serviços que são essenciais para a população. Dória fala uma coisa e faz outra.
Temos então uma grande necessidade – precisamos reagir!!! Pra que a gente consiga reagir vamos fazer aqui dois pedidos:
Pedido 1 – direcionado aos nossos deputados estaduais e ao ministério público:
Pedimos que tomem providências com relação ao projeto de lei e a reforma administrativa do político João Dória, que quer acabar com os serviços públicos que atendem a população rural do Estado de São Paulo. Que rejeitem o projeto de lei que dá carta branca para o político João Dória vender o patrimônio público. Quando o político João Dória conseguir todo o poder que ele quer concentrar na sua pessoa não vai mais querer negociar com os deputados – #ficaaDica
Pedido 2 – Alerta para toda a população do Estado de São Paulo
Pedimos que fiquem atentos para a importância das eleições municipais. Vamos aqui lembrar do que nos ensina a sabedoria popular – “diz-me com quem tu andas e eu te direi quem és”
Muita atenção na escolha do seus pré-candidatos a vereador e a prefeito. Se nas vésperas das eleições o político João Dória está tomando medidas tão amargas e que vão prejudicar tanta gente, sem rever os 23 bilhões de renúncia fiscal – que tipo de gestor é esse???
Vamos acabar com essa história de que brasileiro não tem memória, de que brasileiro não sabe votar. É chegada a hora de virar esse jogo.
#maisExtensãoRuralé+Saúde
APAER – Associação Paulista de Extensão Rural – Contato: apaer2019@gmail.com
 


Divulgação realizada por solicitação da Profa. Edwiges Morato (IFCH), na condição de sindicalizada. As opiniões expressas nos textos assinados são de total responsabilidade do(a)s autore(a)s e não refletem necessariamente a posição oficial da entidade, nem de qualquer de suas instâncias (Assembleia Geral, Conselho de Representantes e Diretoria).




Réquiem por um maestro aguerrido

Por Batata (Ronaldo Simões Gomes).

Cheguei a Campinas para estudar Engenharia, em 1971, quando o Instituto de Artes da Unicamp ensaiava sua presença na seara universitária, trazendo o Professor Hans Joaquin Kollreutter para deflagrar um processo de instalação de um Departamento de Música da Unicamp. Foram oferecidos, então alguns cursos de extensão universitária, ministrados pelo Prof. Kollreutter, e programada uma apresentação do CoralUsp, regido pelo Maestro Benito Juarez, na Catedral de Campinas, onde se anunciou a contratação do Maestro pela Unicamp e a proposição de criação de um Coral da Universidade, como primeira atividade de implementação de um trabalho de musicalização que servisse de base para a futura implementação de um Curso de Música.

Participei do processo de criação do Coral Unicamp, como um barítono desafinado que desenvolveu um aprendizado de canto e de percepção musical, a ponto de, passados dois anos, ser indicado pelo maestro Benito Juarez para assumir a regência de um Coral em São Miguel Paulista, vinculado ao Movimento Mário de Andrade, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
Vivíamos, então, o período mais truculento da Ditadura Militar, com censura às artes e às manifestações culturais e políticas em geral e o trabalho de Benito Juarez se apresentava como um exercício de insurgência contra padrões estabelecidos tanto na perspectiva musical, pela incorporação da música popular e da música contemporânea em seus repertórios, como pela concepção de que a prática musical prescindia da pompa da sala de concerto: a prática musical poderia ser implementada nos espaços cotidianos e de maneira inesperada. A máxima, que teria anos mais tarde, sua enunciação poética pela voz de Mílton Nascimento – “todo artista tem que ir aonde o povo está” – foi a prática cultural de Benito Juarez.
Os bloqueios eram muitos. Mas, a estratégia de Benito passava por uma busca de reconhecimento do Coral então criado, pela própria comunidade universitária, interagindo no seu cotidiano. Fazíamos ensaios extras pelo campus, no horário do almoço, com os participantes que pudessem comparecer, e cantávamos duas ou três músicas nos espaços de maior circulação de gente pelo campus. Isso nos manteve como um grupo de grandes dimensões, contando com entre 80 e 100 cantores no período de 1971 a 1975.
Essa prática se implementava também pela cidade. Anualmente fazíamos uma apresentação oficial do Coral com um repertório novo, que se tornaram grandes eventos, numa cidade que na época sequer tinha teatros. Depois de uma primeira apresentação na Catedral de Campinas no final de 71, com a casa lotada, realizamos as seguintes no Ginásio do Tênis Clube de Campinas, com milhares de pessoas na plateia. e passamos a intervir no espaço cultural da cidade, cantando em eventos e cantando pelas ruas. No período natalino, passeatas corais, com um mote de músicas natalinas e um tempero da diversidade cultural que o Coral cultivava, dos madrigais renascentistas aos pontos de candomblé arranjados por Villa-Lobos, e às coletâneas carnavalescas arranjadas por Damiano Cozzela.
Em dezembro de 1972, ao final de uma passeata coral, batemos às 21 horas na porta da Cadeia de Campinas, na Avenida Andrade Neves, anunciando querer cantar para os presos. Pânico na burocracia prisional! O inesperado fazendo-se surpresa! Consultas aos superiores e faxina no prédio. Esperamos cerca de uma hora para entrar por corredores rescendendo a creolina; distintas senhoras da sociedade campineira se deparando com o horror do espaço prisional, adentrando a um pátio interno onde farfalhavam baratas pelo chão; e nas janelas gradeadas, penduravam-se pernas e roupas e braços a manifestar sua surpresa e curiosidade. Antes de se apresentar qualquer música, ressoou uma frase pelo pátio: – “Aí, hein! Vieram trazer Jesus pra gente?!” . Risos na geral e pânico entre os cantores; cumprimos com algumas músicas natalinas como justificativa da presença e enquadramento à perspectiva acenada pela frase vinda das grades, e na sequência, um repertório diversificado, com o Aleluia do Handel – impactante – e no desfecho, “Disparada” de Geraldo Vandré, trazendo no desfecho a resposta à interrogação da abertura: “não canto para enganar …”. Foi o suficiente para o cadeião vir abaixo em euforia. Saímos em estado de graça, emocionados como em poucas outras apresentações monumentais que realizamos. Ali se configurou para os cantores a contundência do fazer da arte um domínio público.

Benito Juarez foi um interlocutor e um cúmplice das produções culturais universitárias quando organizávamos atividades pelo campus e pela cidade; as Feiras de Arte, nossa construção modernista de manifestação da cultura universitária, onde o Coral Unicamp era uma presença constante, e os espetáculos musicais que organizávamos com os grupos que foram se articulando em nossas cercanias, com os quais circulamos pelas universidades do Estado. Criar espaços de expressão cultural era também uma política de resistência
Como educador, Benito tinha a referência da Escola Livre de Música da Bahia, onde estudou sob a batuta de Kollreutter, e onde o aprendizado se desenvolvia em ambientes informais e baseado na prática musical. Estruturou nas instalações do CoralUsp uma grande escola livre, onde os cantores interessados iam se iniciar ou aprofundar conhecimentos junto a uma equipe qualificada que tinha como partícipes o maestro Damiano Cozzela, a cantora Ana Maria Kieffer, o cantor Antônio Baldur, e a musicista Elizabeth Pinheiro, sua então esposa, além dele mesmo disseminando as práticas de regência. Nos períodos de férias escolares, ele desenvolvia cursos de regência para os participantes de seus corais, aglomerando 30, 40 pessoas no auditório da Faculdade de Enfermagem da USP, trabalhando desde o preparo físico necessário à atividade, até estratégias de ensaio e análise de partituras. Paralelo a essas maratonas de formação, saia em busca de abrir espaços institucionais que abrigassem a prática de seus discípulos.
‘Missa da Coroação’ de Mozart, ‘Carmina Burana’ de Carl Orff, ‘Missa Criolla’ de Ariel Ramirez e Felix Luna (com esta montagem ganhamos o prêmio da APCA de melhor coral do Estado de São Paulo), ‘Colombo’ de Carlos Gomes, ‘Missa da Nova e Eterna Aliança’ de Raul do Valle, ‘10 Canções de Amor’ de Schumann, foram as grandes intervenções de Benito no cenário cultural de Campinas, iniciando o trabalho que viria a dar continuidade como reestruturador e regente da Orquestra Sinfônica de Campinas, tornando a música coral e sinfônica em um espetáculo de massas.
Como dirigente de um grupo institucional, foi obrigado por duas vezes, a prestar serviços às manifestações da Ditadura. Em 31/Março/1973, uma apresentação numa cerimônia comemorativa da Ditadura causou um cisma no Coral, e um grupo desfalcado compareceu às escadarias da Prefeitura para o evento; posteriormente, em 1976, numa visita do General Geisel à Campinas, por motivos eleitorais, novamente o Coral comparece sem conseguir contar com seu corpo pleno, num episódio que contou até com o grampeamento do telefone da maestrina assistente, Profa. Vilma Brandenburgo, pelas ‘forças de segurança’ para escuta das dissenções que o episódio causara. Esse segundo constrangimento havia sido requisitado para compensar a presença de cantores do Coral que se apresentaram no Culto Ecumênico em memória de Wladimir Herzog, depois de seu assassinato em tortura no DOI-CODI de São Paulo, em novembro/75, e que foi noticiado na imprensa local como presença do Coral Unicamp.
Benito defendeu com todas as suas forças a posição conquistada no Departamento de Música da Unicamp, mesmo depois da recusa do Prof. Kollreutter em assumir a condução da implementação do Departamento e do Curso de Música, pois sabia o quanto aquilo significava nos embates dos grupos de interesse consolidados nas instituições de música erudita, onde os discípulos do Prof. Kollreutter eram tidos como heréticos. Ordenados em torno de uma perspectiva nacionalista e conservadora , discípulos do compositor Camargo Guarnieri, capitaneados pelo maestro Eleazar de Carvalho, mantinham o culto à pompa musical tradicional, e a vassalagem aos poderosos da vez, e  faziam da música erudita um acervo que se interrompia no limiar do Século XX, sem incorporar os desdobramentos da contemporaneidade, do dodecafonismo – que Kollreutter introduziu no país – das contribuições do poliritmismo, da música aleatória, do concretismo, e das permeações da música erudita com a música popular, onde o jazz era o campo mais explorado. Nesses embates, maestros colegas de Benito, como Júlio Medaglia, Rogério Duprat, Damiano Cozzela, Moacir Del Pichia, e outros, eram tidos como malditos por ignorarem estas restrições ao campo da criação musical.

Sobre a miscigenação cultural que praticava, ele costumava dizer que uma orquestra pública não poderia deixar de fazer com que os músicos, sejam eles de qual gênero sua obra, não pudessem explorar a complexidade da estrutura orquestral: de Mílton Nascimento a Chitãozinho e Xororó, um grande número de músicos da música popular brasileira usufruíram deste caráter de orquestra pública, conforme sua concepção estabelecia.

Nestes embates, Benito contava com o reconhecimento da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e de setores da burocracia cultural das Secretarias de Estado de Cultura, depois alojados na Secretaria Municipal de Cultura que organizavam o Movimento Mário de Andrade. Na primeira metade dos anos setenta, recebeu quase que todos os prêmios de Melhor Coral do Estado, com o CoralUsp e com o Coral Unicamp, e na segunda metade da década, com a Sinfônica de Campinas.
Provocações e retaliações foram constantes na relação de Benito com os conservadores no campo musical: em 1975, quando do recebimento do prêmio de Melhor Coral da APCA, no Festival de Inverno de Campos de Jordão – o Festival era um dos espaços institucionais controlados pelo Maestro Eleazar de Carvalho – Benito inseriu no repertório a apresentação de uma peça atonal e experimental,  ‘Aleluia’ de Ernst Widmer (também discípulo de Kollreutter), onde a palavra aleluia era decomposta foneticamente, sem qualquer resquício de religiosidade.
Anos mais tarde, no final dos anos 80, Eleazar de Carvalho dá o troco, e veta a apresentação da Sinfônica de Campinas com a peça ‘Carnavais’ de Francis Hime (peça para coro, orquestra e bateria de escola de samba) por se tratar de obra de cunho popular, incompatível com o caráter do Festival de Inverno de Campos de Jordão, restrito à música erudita. A peça, inédita até então, e desconhecida para Eleazar, era tão popular como as obras de Villa-Lobos, na apropriação de valores e temas da cultura popular.
A sustentação política ao trabalho de Benito, ao longo dos 25 anos em que esteve à frente da Orquestra Sinfônica de Campinas, se deu por conta do reconhecimento público por seu trabalho, pela concepção de que como ente  público, a orquestra tinha uma missão de formação cultural e de espelhamento daquilo que a população entendia como música, preservando sempre a diversidade de estilos e gêneros de nosso universo cultural. Concertos por escolas, ginásios, espaços abertos, subgrupos da orquestra desenvolvendo gêneros específicos, tornando a Orquestra um patrimônio cultural incorporado pela população. Interagiu com grupos estabelecidos na cidade, atraindo-os para desenvolver projetos com a Orquestra, e vivenciar o aprendizado da complexidade da estrutura sinfônica.
Ser o regente do concerto da Campanha das Diretas, que o projetou como um ícone político da redemocratização do país, foi apenas a consequência lógica de sua trajetória construída no arrepio das tradições, e sem maiores estresses políticos, pois o Prefeito de Campinas à época, Magalhães Teixeira, era um dos próceres da Campanha das Diretas no Estado.
Sua concepção de música coral se prolifera com seus discípulos formados nas instituições que participou e na incorporação da música popular como um assunto universitário, com a criação do curso da Unicamp que pauta essa linguagem como prática cultural de relevo social. Onde a prédica enunciada por Paulinho da Viola e Élton Medeiros – ‘sambista não tem valor nesta terra de doutor’ –  deixa de ter sentido.
Depois de retornar a São Paulo, transforma o CoralUsp numa estrutura rizomática, disseminando grupos corais em várias unidades da Universidade, com um conjunto de regentes, e que confluíam periodicamente para compor grandes espetáculos.
Leais ao percurso do fundador, um dos  corais rizomáticos, o CoralUsp Lapa se articula durante a pandemia e deixa na internet sua contribuição para o entendimento do distanciamento social com a música ‘20Ver’. Assistam abaixo.
A obra do artista permanece como  um amálgama sedimentar de um campo liberto para as novas criações, fusões, reinterpretações.
Campinas – Agosto/2020

Batata é servidor municipal de cultura de Campinas

 
 




Um imperativo do presente: Future-se nas estaduais de SP?

por Carolina Catini e Lalo Watanabe Minto – publicado originalmente em 4 de agosto de 2020, no Lemonde Diplomatique Brasil

Há pouco mais de um ano, o economista que ficou conhecido como o pior ministro da Educação da história brasileira, Abraham Weintraub, lançou o programa Future-se para as universidades e institutos federais. O evento com formato de Ted Talk empresarialanunciava com tom heroico a pretensa grandeza das suas inovações. No primeiro painel, um mapa do mundo se interligava por traçados reluzentes e depois pelos nomes de grandes marcas: “Google, Yahoo, Intel, Dell, Airbnb, Uber, Facebook. Muitas das maiores empresas do mundo nasceram em universidades. Essa é nossa inspiração. Esse é o futuro e o Brasil não vai ficar fora dele. É tempo de inovar”.
O excesso de brilho contrasta com nossas universidades sem recursos para pagar contas de luz, como a UFRJ e a UFRGS, nas quais o trabalho nos departamentos – por vezes ainda separados por paredes de amianto – se dedica a mediar brigas de docentes por quantidades de cargas didáticas, ou para direções e reitorias negociarem com estudantes o preço da bandejão ou as condições de moradia estudantil. A menção às empresas citadas, criadas em universidades cujo padrão é de difícil comparação com as nossas (como as privadas Stanford e Harvard), ou por milionários não concluintes de cursos de ensino superior, como o caso da Uber, já evidenciaria a inviabilidade desse “plano” nacional de universidade do futuro.
Evidenciaria, não fosse a adesão a outro tipo de meritocracia acadêmica, tão moderna quanto subserviente ao mercado, que menospreza a produção de certo tipo de conhecimento para abraçar a virulência das regras da concorrência. Sem esta, aliás, seria apenas curioso o fato de que a aplicação dos eixos mais fundamentais do programa esteja se dando em universidades para as quais o projeto não se dirigia.
É verdade que o Future-se foi amplamente rechaçado na ocasião, sendo retomado na forma de minuta de PL neste ano, com mudanças em relação às versões anteriores[1]. Mas isso não faz dele coisa do passado, tampouco se deve assumir que foi delineado apenas como um projeto para tramitar no parlamento. Nesse sentido, é urgente observar o alinhamento das mudanças em curso nas universidades estaduais paulistas com os princípios gerais do Future-se: há indicativos de que ele está sendo colocado em prática de maneira parcelada, mas acelerada e com debate bastante restrito durante a pandemia. Assim como os processos de privatização, a transformação da universidade pública em ativo financeiro pode começar em qualquer ponto, mas quando tais pontos se encontram pode ser tarde para voltar atrás. Vejamos.
“Fature-se” tornou-se rapidamente o apelido do programa, cujo pilar fundamental é a alteração do financiamento de parte estratégica das atividades das universidades públicas mediante a criação de fundos patrimoniais[2] e de fundos de investimentos. De acordo com o texto do programa, o fundo patrimonial seria composto por recursos decorrentes de prestação de serviços de pesquisas e consultorias, comercialização de bens, aplicações financeiras, ganhos de capital e rendimentos, direitos patrimoniais sobre imóveis e concessões, leis de incentivos fiscais, exploração de direitos de propriedade intelectual, mas também com doações privadas e matrículas e mensalidades em cursos de pós-graduação lato sensu.
Para gerir a captação e rendimentos desses fundos, bem como para fazer a gestão do empreendedorismo universitário, o programa previa a contratação de uma prestadora de serviços privada, uma organização social com ampla atuação – do ensino até o aprimoramento dos “modelos de negócios” de incubadoras e startups. Não significaria nada menos do que a terceirização da gestão das universidades. Na versão enviada ao Congresso, esse papel seria feito por fundações privadas, muitas já existentes nas instituições.
Para negar esse tipo de subserviência ao mercado, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras da educação de universidades e institutos federais se organizaram para discutir o programa que planejava se efetivar por adesão. Isto é, onde houve o mínimo de debate, o programa foi veementemente recusado.
A recusa se deu pela evidência de que a adesão significaria compactuar com o padrão já vigente de subfinanciamento estatal, aprofundando-o. A ampliação das desigualdades não seria menor do que a mudança completa das finalidades de uma formação universitária. Além do fato de ficar à deriva de investimentos de capitais e exposta a todo tipo de riscos, o que prejudicaria sobretudo as áreas de humanidades, que tendem a ser menos “atrativas” para essa lógica empresarial.
Pois bem. No dia 25 de junho de 2020 uma das manchetes do Valor Econômico dizia “Unesp e Unicamp criam fundos patrimoniais”. Nas palavras do reitor da Unesp, a criação de fundos neste momento é interessante “porque há uma percepção maior da sociedade sobre a importância da ciência, da necessidade de investimentos em pesquisa”. É pelo menos estranha tal percepção sobre o momento histórico nacional, no qual terraplanismo é levado a sério, que coachs motivacionais são contratados para fazer formação de professores das redes públicas básicas durante a pandemia, ou que mestres e doutores são demitidos em massa das faculdades privadas. Na mesma matéria, o diretor executivo da Agência de Inovação da Unicamp (Inova), responsável pelo fundo patrimonial da Unicamp, diz que “estima levantar aproximadamente R$ 100 milhões no prazo de cinco anos”, e que pretende investir em equipamentos, bolsas, pesquisas e startups. Já o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), acha que a aproximação com o setor privado “vai trazer mais governança e profissionalização” da universidade.
Além da criação dos fundos de tipo endowment, que transforma nossos meios de trabalho em meios de extração de renda, a Unicamp também estuda como participar diretamente no capital de empresas, segundo se soube em matéria do G1 de 6 de junho de 2020. Após menção ao congelamento de salários e ao corte de gastos com a pandemia, a matéria diz que a instituição estaria mais atenta aos “movimentos da Bolsa de Valores e valorização do empreendedorismo realizado pela comunidade interna”. Para tanto, a universidade deverá se tornar cotista de investimentos em ações das “empresas-filhas” da Unicamp, de modo a se apropriar de maneira mais eficiente do que é produzido pela universidade. Em 10 de julho a Veja São Paulo noticiou que “no rastro da pandemia”, a universidade se prepararia para mais esta “modernização”: a criação de um departamento para lidar com doações privadas após a quarentena. Falta dizer quais são as contrapartidas.
A sabotagem do financiamento público às universidades públicas, recorrente na nossa história, intensificada no período neoliberal e catapultada pela EC 95, que congelou os investimentos em políticas sociais, cria terreno fértil para o avanço das tendências aqui apontadas. E tudo isso em nome da autonomia financeira e da sustentabilidade que, na verdade, não tem outro significado que a transformação da universidade em captadora de recursos, que podem ser também – irônica e tragicamente – oriundos de fontes estatais, mas mediados pela lógica da gestão e do interesse privado. Em linhas gerais, observa-se a própria metamorfose da universidade em uma organização social.
Ora, é preciso lembrar que há muito se naturalizou no âmbito das estaduais paulistas a prática privatista da cobrança por cursos e outras atividades feitas a título de extensão. Soma-se a isso, agora, os cursos pagos de pós-graduação lato sensu, aprovados pelo Conselho Universitário da Unicamp em junho deste ano, enfrentando pouca resistência, mesmo daqueles setores que se dizem críticos, mas que revelam, na prática, não representar perigo contra esse novo padrão de acumulação.
Cabe lembrar ainda do famigerado relatório Mckinsey da USP, programa traçado pela consultoria privada para modernização da Universidade de São Paulo com objetivo de torná-la celeiro de inovação, em parceria com proprietárias do grande capital como Coca-Cola, Rede Globo e General Motors. Além do endowment e da terceirização das “atividades-meio” da universidade, o projeto “USP do Futuro” propôs alocação de recursos maiores para unidades estratégicas e capazes de manter o padrão de excelência internacional, a captação de pelo menos 30% de recursos pela própria universidade “sustentável”, e cobrança de taxas, inclusive para permanência estudantil, como alugueis para moradia universitária.
Entre outras medidas, a consultoria propõe a diminuição da formação de mestres e doutores e a ampliação de pós-doutores. Não é por acaso que esse grupo altamente qualificado já está servindo como força de trabalho barata e precária, cumprindo outras alterações no sentido da produção de uma nova hierarquia e relações de trabalho. O Programa de Atração e Retenção de Talentos da USP (PART), por exemplo, previa contratar 250 pós-doutorandos e pós-doutorandas como docentes precários. Em 2020, a USP passou a “valorizá-los” com um salário bruto de R$ 1.279,15, mais auxílio alimentação no valor de R$ 870, em troca do trabalho na pesquisa e de até 6 horas-aula na graduação.
Não bastassem as perdas das últimas décadas e as reformas da Previdência e trabalhista, parcelas cada vez maiores das atividades-fim dessas instituições vêm acontecendo sob o marco de uma profunda e crescente precarização: formal, com a perda de direitos básicos, que modifica os níveis salariais, que intensifica o trabalho, que altera as perspectivas de formação continuada por meio de licenças para qualificação, entre outras; e também por seu caráter de informalização, como no caso dos professores bolsistas, sem vínculo empregatício e com salários inferiores aos dos concursados; ou pelo uso de força de trabalho de pós-graduandos em substituição ao trabalho docente regular em programas de “estágio”, em projetos de extensão atrelados a programas de bolsas socioeconômicas, entre outras. A “flexibilização” dos regimes de trabalho que previam dedicação integral e exclusiva, favorecida pelo arrocho salarial sistemático, amplia a desigualdade entre docentes.
Enfim, além de alterar os graus de desigualdade já existente entre docentes, ampliam-se as esferas da concorrência e se introduz essa relação mercantil como mecanismo de gestão. A prática de colocar uns contra os outros é meio para dissolver a solidariedade e a organização coletiva contra quem determina as regras do jogo. Com isso, é imposta uma concorrência em diferentes escalas: entre docentes, entre áreas de conhecimento, entre universidades. Em suma, uma universidade empreendedora requer empreendedorismo docente, e a captação de recursos privados atualiza de modo radical o publish or perish: empreenda ou desfaleça, adapte-se ou desapareça dos índices de produção acadêmica. Pois a avaliação da performance docente será medida pela capacidade de atrair investimentos, vender serviços e servir ao capital. A qualidade das atividades de ensino ou a relevância social de projetos de formação, pesquisa e extensão serão absolutamente irrelevantes nesse novo padrão de produtividade acadêmica.
E poucos serão os docentes beneficiados (“o professor universitário poderá ser muito rico”, dizia o Secretário de Educação Superior do MEC na apresentação do Future-se). Assim como serão poucas as universidades a alcançar a nova régua da meritocracia medida por um tal grau de simbiose com o grande capital. Algumas sobreviverão, ao passo que as demais ficarão no limbo da escassez dos investimentos estatais, reforçando tendências já conhecidas de hierarquização entre as instituições de ensino superior públicas. Editais recentes do CNPq, órgão com papel fundamental no financiamento da iniciação científica e da pós-graduação, não incluem as ciências humanas entre as áreas “prioritárias” e “estratégicas” de pesquisa.
Sempre apresentada como novidade, a promessa dessa simbiose entre universidade e empresa, nacionais e estrangeiras, aponta antes para projetos hegemônicos das classes dominantes periféricas: sua adesão mimética ao padrão educacional dos países centrais não consegue esconder que por trás dos apelos por uma universidade “moderna”, financiada com dinheiro privado ou por uma espécie de “filantropismo de luxo”, está justamente o interesse pelo desfinanciamento e pelo desmonte da pesquisa científica e tecnológica de base e de interesse social, que em qualquer parte do mundo dependem do financiamento público.
As mudanças em curso nas estaduais paulistas demonstram que papel o Future-se cumpre no interior de uma estratégia ampla de mudança radical no padrão de financiamento, na forma de gestão e de realização do trabalho docente de toda a educação superior. Mostra também que aquele ministro – um economista incapaz de preparar uma aula de porcentagem – cumpriu um papel bem traçado por quem entende do assunto de transformar a educação em ativo financeiro.
Mas a disputa de projetos universitários não está vencida. É necessário se contrapor a esse projeto que se sustenta na precarização do ensino e do trabalho, na divisão entre nós, bem como na interdição da produção de conhecimentos e de práticas de ensino, pesquisa e extensão voltadas ao combate das desigualdades sociais. Esse é um dos maiores e talvez mais definitivos ataques desferidos contra a autonomia universitária, pois ao se voltar completamente aos interesses de empresários e investidores, a universidade toma uma posição que fecha o espaço para processos voltados aos interesses populares, de trabalhadores e trabalhadoras, das periferias, de povos, raças e etnias, todos vilipendiados pela violência estatal, expropriação e opressão econômica.
Mas, contra o imperativo de subserviência completa ao capital, há sempre aqueles e aquelas que sabem que vale a pena lutar. E não se acovardam diante do poder de convencimento do projeto em vias de se consolidar. O poder que captura pelos extratos bancários ganha mais adeptos em períodos de desfalecimento de projetos de formação e crise de princípios políticos, como hoje. Afinal, para que serve nosso trabalho na universidade?

Carolina Catini
e Lalo Watanabe Minto, Faculdade de Educação da Unicamp e do Grupo de Estudos e Pesquisas Educação e Crítica Social (Gepecs).
[1] Ver Roberto Leher, Future-se leva adiante política de supressão da autonomia universitária, Le Monde Diplomatique Brasil, 11 fev. 2020.
[2] Ver Otaviano Helene, Fundo patrimonial: o que é isso?, Jornal da USP, 13 dez. 2018;