Cuidado, direitos e resistência marcam lançamento de cartilha sobre maternagem na ADunicamp

Histórias de cuidado, resistência e luta por direitos atravessaram o Auditório da ADunicamp na noite de 20 de março, quando foi lançada a cartilha “Maternagem e o Mundo do Trabalho: conheça seus direitos”. O encontro reuniu vozes da universidade, do movimento sindical e de organizações da sociedade civil em um debate marcado por relatos pessoais, reflexões políticas e a defesa do reconhecimento social do trabalho de cuidado.

O lançamento reuniu pessoas que participaram diretamente da elaboração da publicação, representantes de entidades e lideranças sociais, em um momento que combinou escuta, partilha de experiências e reafirmação do direito à informação como ferramenta de autonomia.

Produzida pela ADunicamp, em parceria com a LBS Advogadas e Advogados e com apoio do Ministério das Mulheres, a cartilha apresenta orientações jurídicas, reflexões sobre desigualdades estruturais e depoimentos que revelam os múltiplos desafios enfrentados por pessoas que maternam no mundo do trabalho.

O evento marcou o segundo momento do lançamento da cartilha, que teve início pela manhã, na Casa Laudelina de Campos Mello, Organização da Mulher Negra, com a participação da ministra das Mulheres, Márcia Lopes, e lideranças de movimentos sociais.

COLETIVIDADE

A presidenta da ADunicamp, professora Silvia Gatti, destacou o caráter coletivo da construção e o papel político da publicação. Segundo ela, o material não foi pensado para permanecer restrito a ambientes institucionais.

“Essa cartilha não foi construída para ficar em uma prateleira ou apenas no site. Nós temos que levar essa cartilha para onde conseguimos chegar com ela. Temos que levar para a periferia, para os espaços onde muitas mulheres ainda não têm acesso à informação sobre seus direitos.”

Durante sua fala, Silvia também ressaltou a importância da divulgação ativa da publicação como estratégia de enfrentamento à violência e às desigualdades. “Temos que espalhar isso daqui para evitar a violência, para induzir ao carinho, ao afeto. Esse é um trabalho coletivo que vai continuar sendo coletivo.”

DIREITO COMO FERRAMENTA DE AUTONOMIA

As advogadas responsáveis pela elaboração jurídica do material ressaltaram que a cartilha foi pensada como instrumento acessível e inclusivo. Para a advogada Luciana Barreto, a intenção foi produzir um conteúdo que ultrapassasse os limites técnicos do direito.

“Essa cartilha tem sangue nas veias. Ela tem depoimento, tem denúncia, tem vivência. Não foi construída para ficar numa prateleira, é para ser discutida nas rodas de conversa e nos coletivos.”

Ela também destacou que o conhecimento jurídico é fundamental para que os direitos sejam efetivamente exercidos. “Para vivenciar o direito, é preciso conhecer o direito.”

Já a advogada Letícia Correia enfatizou a dimensão racial e social presente na publicação. “Quando uma mulher negra pode maternar sendo cuidada, nós atingimos um ponto essencial da nossa Constituição. Pensar o direito dessa forma é um ato de resistência.”

EXPERIÊNCIAS REAIS MARCAM CONSTRUÇÃO DA CARTILHA

A dirigente da Casa Laudelina, Cleusa Silva, destacou a importância de reconhecer a diversidade das maternagens e a centralidade das experiências das mulheres negras.

Durante sua fala, ela ressaltou que as desigualdades históricas impactam diretamente a forma como o cuidado é exercido. “A maternagem precisa ser reconhecida como trabalho e como responsabilidade coletiva. Não podemos romantizar essa luta. Ela é diária e atravessada por desigualdades.”

DEPOIMENTOS

A professora Maria José Mesquita (IG/Unicamp) também trouxe à mesa a força das experiências reunidas na cartilha ao destacar trechos de depoimentos anônimos que revelam as múltiplas realidades vividas por pessoas que maternam. Em sua fala, ela ressaltou que essas narrativas evidenciam desafios muitas vezes invisibilizados, mas também demonstram resistência, coragem e a busca cotidiana por direitos e dignidade. Os relatos integram a publicação e podem ser conhecidos na íntegra neste link.

ARTE COMO LINGUAGEM POLÍTICA E DE PERTENCIMENTO

A identidade visual da cartilha foi criada pela artista Luara Souza, que destacou o papel da arte na construção simbólica da publicação.

Segundo ela, a proposta visual buscou representar a diversidade das experiências de cuidado. “Quis trazer uma imagem que mostrasse que maternagem é rede. Que ninguém materna sozinho e que sempre existe uma rede sustentando o cuidado.”

A artista também ressaltou a importância da representatividade. “Quando uma pessoa abre uma cartilha e se reconhece ali, isso gera pertencimento. E pertencimento gera força.”

CARTILHA COMO INSTRUMENTO DE CIDADANIA

Representando a administração central da universidade, o professor Fernando Coelho destacou o papel da publicação como ferramenta social. Para ele, o material deve ser entendido como um documento de cidadania. “Essa cartilha é um instrumento de cidadania. Ela trata de direitos e deixa claro que as pessoas precisam conhecer e lutar por esses direitos.”

Ele também ressaltou a importância da universidade no apoio à difusão do material. “Precisamos fazer um grande alarde sobre essa cartilha. Ela é, de fato, um documento de cuidado.”

PUBLICAÇÃO REÚNE DIREITOS E HISTÓRIAS DE VIDA

A cartilha aborda temas fundamentais relacionados ao mundo do trabalho e ao cuidado, como licença-maternidade, proteção à gestação, violência obstétrica, desigualdades raciais e de gênero e direitos de pessoas trans, encarceradas e cuidadoras.

Além das orientações jurídicas, o material reúne depoimentos anônimos que relatam experiências marcadas por desafios sociais, acadêmicos e profissionais, evidenciando como a maternagem impacta diferentes trajetórias.

A publicação foi elaborada com linguagem inclusiva e busca contemplar múltiplas formas de cuidado, reconhecendo as diferentes identidades e contextos sociais envolvidos nas práticas de maternagem.

O debate contou com a participação da presidenta da ADunicamp, Silvia Gatti, da dirigente da Casa Laudelina, Cleusa Silva, da representante do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU), Elisiane Lobo, das advogadas Luciana Barreto e Letícia Correia (LBS Advogadas e Advogados), da professora Maria José Mesquita (IG/Unicamp), do coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, e da artista visual Luara Souza, responsável pela identidade visual da cartilha. A mediação do encontro foi realizada pela jornalista da ADunicamp, Cristina Segatto, que conduziu o debate e também integrou, de modo destacado, o processo coletivo de elaboração da cartilha.

Cartilha também foi lançada na Casa Laudelina com presença da ministra das Mulheres

O lançamento da cartilha integrou uma programação realizada ao longo do dia 20 de março, com atividades em dois espaços simbólicos da cidade. Pela manhã, às 9h, a publicação foi apresentada na Casa Laudelina de Campos Mello, Organização da Mulher Negra, referência histórica na luta pelos direitos das mulheres negras em Campinas.

A atividade contou com a presença da ministra das Mulheres, Márcia Lopes, além de lideranças de movimentos sociais e organizações que atuam na defesa dos direitos das mulheres.

Em vídeo exibido durante as atividades, a ministra destacou o caráter humano e coletivo da iniciativa e afirmou que a cartilha “nasce como quem oferece um abraço”, reunindo informações e experiências que buscam garantir que nenhuma pessoa que materna caminhe sozinha diante dos desafios do cuidado e do trabalho.

A realização das atividades em dois espaços, Casa Laudelina, pela manhã, e o Auditório da ADunicamp, no período da noite, reforçou o caráter coletivo e territorial da iniciativa, conectando sindicatos, universidade, movimentos sociais e políticas públicas na defesa dos direitos das pessoas que maternam.

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