Ato na Reitoria reforça unidade da greve geral da Unicamp contra política de arrocho

A greve geral da Unicamp ganhou novo capítulo na manhã desta terça-feira, 26 de maio, com um ato público em frente à Reitoria, durante a reunião do Conselho Universitário (Consu) da universidade. A mobilização reuniu docentes, servidores(as) técnico-administrativos(as) e estudantes em defesa da valorização salarial, da permanência estudantil e da reabertura das negociações com o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp).

Organizado conjuntamente pela ADunicamp, pelo STU e pelo DCE, o ato teve como eixo central a crítica à proposta de reajuste salarial apresentada pelo Cruesp. Enquanto os reitores propõem reajuste de 3,47% (IPC-Fipe), o Fórum das Seis, que reúne entidades representativas de docentes e servidores das universidades estaduais paulistas, reivindica 7,52% (IPCA de 4,39% mais 3%), índice apontado pelas entidades como necessário para a recomposição das perdas salariais acumuladas e para enfrentar o arrocho imposto às categorias.

A diretora da ADunicamp, Regina Célia da Silva (CEL), em sua fala, criticou a forma como a administração universitária tem conduzido a discussão sobre orçamento e reajuste. Para ela, o debate apresentado como “técnico” busca despolitizar escolhas que afetam diretamente as condições de vida e trabalho da comunidade universitária. “Eles tentam fazer um debate técnico, mostrando os números para fazer a gente se sentir culpado, inadequado. Mas o debate é político. A gente tem que politizar esses dados”, afirmou.

Regina também associou o arrocho salarial ao que classificou como um projeto de desmonte da universidade pública. Em tom emocionado, convocou docentes a relatarem publicamente situações de precarização e adoecimento no ambiente acadêmico. Segundo ela, a greve não pode ser reduzida a uma disputa contábil. “Não é sobre números”, resumiu, ao defender que professores, estudantes e servidores enfrentam um processo comum de desgaste institucional e precarização das condições de trabalho.

Na sequência, a professora Veronica Fabrini, do Instituto de Artes (IA) da Unicamp, direcionou sua fala à desvalorização do trabalho docente e às dificuldades enfrentadas também pelos estudantes. Em uma intervenção marcada por perguntas retóricas, a docente questionou quanto vale o trabalho acumulado na formação universitária, nas orientações acadêmicas, na produção científica e nas tarefas burocráticas exigidas pela carreira. “Quanto acha que vale o que custou para ser professor? Quanto vale o seu trabalho?”, questionou.

Fabrini criticou diretamente o índice de 3,47% proposto pelas reitorias, classificando o reajuste como incompatível com a realidade da categoria e insuficiente diante do aumento do custo de vida. Ao ampliar a discussão para a permanência estudantil, também apontou as dificuldades de moradia e de condições básicas de estudo enfrentadas pelos alunos da universidade.

O professor Ricardo Antunes, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, inseriu a greve em um contexto político mais amplo de enfrentamento às políticas educacionais do governo paulista e de defesa da universidade pública.

Antunes iniciou sua fala manifestando solidariedade ao movimento estudantil da USP e criticando a atuação da Polícia Militar na desocupação da reitoria da universidade paulista. Para o professor, a repressão aos estudantes se conecta a um projeto de transformação estrutural da educação pública.

Segundo ele, o governo estadual articula “neoliberalismo extremado” e práticas autoritárias que impactam diretamente professores, estudantes e servidores. O docente também destacou a manifestação realizada na capital paulista na semana anterior, que reuniu milhares de pessoas em defesa da educação pública.

Ao abordar diretamente a situação da Unicamp, Antunes afirmou não se lembrar de uma proposta salarial “tão provocativa” quanto a apresentada pelas reitorias neste ano. Para ele, a diferença entre os 3,47% oferecidos pelo Cruesp e os 7,52% reivindicados pelo Fórum das Seis evidencia a distância entre a administração universitária e a realidade vivida pela comunidade acadêmica.

O professor ainda relacionou o debate salarial ao processo de autarquização do Hospital de Clínicas da Unicamp, apontado pelo movimento grevista como uma forma indireta de privatização da universidade pública. “A expansão da universidade não pode servir para precarizar. A autarquização do hospital é o início de uma privatização branda”, afirmou.

Ao final, Antunes defendeu a manutenção da greve e da mobilização conjunta entre estudantes, docentes e servidores, cobrando a retomada imediata das negociações com o Fórum das Seis.

O ato ocorreu enquanto o Consu discutia temas ligados ao orçamento universitário e às políticas institucionais da universidade. As entidades grevistas reafirmaram que a mobilização seguirá fortalecida enquanto não houver avanço nas negociações salariais e nas pautas relacionadas à permanência estudantil, às condições de trabalho e à defesa da universidade pública paulista.

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