O presente manifesto, elaborado pelos(as) Docentes do Departamento de Artes Cênicas do Instituto de Artes da Unicamp, é aberto à adesão de integrantes da comunidade acadêmica — docentes, estudantes e servidores/as técnico-administrativos/as. Os/as interessados/as em assinar o documento devem enviar e-mail para greve@adunicamp.org.br, informando seu nome completo e solicitando a inclusão de sua assinatura no manifesto.
Leia o manifesto:
Defender a universidade pública hoje exige coragem. Coragem para dizer o óbvio: não existe universidade forte sem valorização real do trabalho docente. Não existe formação crítica, humanizada e socialmente comprometida construída sobre a exaustão, o adoecimento e a precarização daqueles que sustentam cotidianamente a vida universitária.
O reajuste de 3,47% é imoral. É indecente. É inaceitável.
E não se trata apenas de um número. Trata-se do que esse número simboliza: a naturalização da desvalorização de uma profissão que exige formação continuada permanente, dedicação integral, produção científica, orientação acadêmica, participação em congressos, publicações, pareceres, relatórios, projetos de extensão, gestão universitária e, acima de tudo, presença humana na sala de aula.
Porque é na sala de aula que tudo começa.
É ali, no encontro pessoa a pessoa, que se constrói uma formação ética, crítica e sensível. É ali que se aprende a pensar. É ali que se aprende a escutar, argumentar, discordar, imaginar, elaborar pensamento complexo. A universidade não é apenas uma fábrica de diplomas ou de índices de produtividade. Ela deveria ser, antes de tudo, um espaço de formação humana.
E essa formação exige tempo, energia, estudo, cuidado e disponibilidade subjetiva. Não existe ensino de qualidade feito sob lógica de esgotamento.
Hoje, vivemos uma realidade devastadora: redução do número de docentes, não reposição de aposentadorias, aumento constante do número de estudantes, sobrecarga burocrática e pressão crescente por produtividade. Trabalhamos numa escala permanente de 7×0, ou pior — invisibilizada porque parte enorme do nosso trabalho acontece fora da sala de aula: preparação de aulas, correção de trabalhos, orientação de iniciação científica, mestrado e doutorado, escrita de artigos, avaliações, bancas, relatórios, pareceres, prestações de contas, organização de eventos, extensão universitária, construção de vínculos externos.
Estamos adoecendo.
Ansiedade, depressão, estresse, burnout e exaustão deixaram de ser exceções para se tornarem regra dentro das universidades públicas brasileiras. E isso não é um problema individual. É um projeto político de precarização.
Tentam transformar uma questão política em um debate meramente técnico. Mostram planilhas, gráficos e percentuais para nos fazer sentir culpados, inadequados, “caros demais”. Mas precisamos dizer com clareza: os números não são neutros. O orçamento é uma questão política. As prioridades são políticas. A escolha de desvalorizar o trabalho docente é política.
E o mais grave: essa precarização atinge justamente a graduação, que é a base da universidade.
A Unicamp possui cerca de 20 mil estudantes de graduação. Mais da metade de seu corpo discente está na graduação. É ali que a universidade toca diretamente a sociedade. É ali que se forma a maioria dos profissionais, pesquisadores, professores e cidadãos. Quando a graduação enfraquece, toda a universidade começa a ruir.
Não haverá pesquisa forte sem uma graduação forte.
Não haverá produção científica humanizada sem docentes valorizados.
Não haverá pensamento crítico sem tempo real de formação.
E talvez seja preciso dizer algo ainda mais duro: se hoje nos espantamos com pessoas acreditando que a Terra é plana, bebendo detergente indicado por redes sociais ou incapazes de elaborar pensamento crítico sobre a própria realidade, então há algo profundamente errado também em nossa formação social. Há algo de podre no reino da Universidade. E a universidade pública não pode fingir que isso não lhe diz respeito.
A universidade precisa voltar a assumir radicalmente sua função formadora.
Mas isso não será possível enquanto seus trabalhadores estiverem exaustos, desmoralizados e tratados como números descartáveis em gráficos administrativos.
A sala de aula não é detalhe.
A graduação não é um setor secundário.
A relação entre professor e estudante não é um resíduo romântico do passado universitário.
Ela é o chão da formação. O chão da democracia. O chão da construção de pensamento crítico em uma sociedade atravessada pela violência, pelo negacionismo e pela brutalização da vida pública.
Por isso, defender melhores condições salariais não é corporativismo. É defender a própria possibilidade de existência de uma universidade pública de qualidade, democrática e socialmente comprometida.
Valorizar o trabalho docente é defender a inteligência pública do país.
É defender o direito da sociedade a uma formação crítica, ética e humanizada.
E é também defender a dignidade de quem dedicou décadas de sua vida a ensinar, pesquisar, orientar e construir conhecimento com rigor, amor e responsabilidade.
Chega de naturalizar o adoecimento.
Chega de naturalizar a precarização.
Chega de pedir heroísmo permanente aos docentes enquanto se desmonta silenciosamente a universidade pública.
A universidade não sobreviverá apenas de prédios, rankings e estatísticas.
Ela sobrevive do trabalho humano que acontece todos os dias dentro da sala de aula.
DEPARTAMENTO DE ARTES CÊNICAS DO IA/UNICAMP









Antonio Correa Neto
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