A professora Regina Célia da Silva, diretora da ADunicamp, representou a entidade na 1ª Conferência Internacional Antifascista, realizada entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre. O encontro reuniu mais de 4,5 mil ativistas, lideranças e organizações de diversos países, marcando os 25 anos do Fórum Social Mundial e reafirmando a articulação internacional contra o avanço da extrema direita, do neofascismo e do imperialismo.
Em seu relato, Regina destaca a importância política e simbólica do evento, que combinou debates estratégicos, mobilização nas ruas, com uma grande marcha no centro histórico da capital gaúcha, e a construção de uma frente ampla de resistência internacional. O encontro também reforçou o lema histórico de que “um outro mundo é possível”, atualizando os desafios diante do cenário global.
A participação da ADunicamp também se concretizou na organização de uma caravana com o movimento estudantil, articulada pelo Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU), com apoio da entidade, garantindo a presença de estudantes, trabalhadores e trabalhadoras no evento. Segundo Regina, “o financiamento do transporte garantiu que estudantes, trabalhadores e trabalhadoras pudessem estar presentes e isso foi reconhecido”, evidenciando o papel do sindicato como instrumento de democratização do acesso aos espaços políticos.
Ao longo da Conferência, Regina também aponta tensões e perspectivas dentro do campo progressista, contrapondo a centralidade da política institucional a “uma política construída ‘por baixo’, que não se ancora em acordos institucionais, mas na experiência vivida da luta”. A Conferência reafirmou a necessidade de unidade internacional e de fortalecimento das lutas sociais, temas aprofundados no artigo completo da professora, que você pode ler na sequência:
1ª Conferência Antifascista – 25 anos do Fórum Social Mundial
Porto Alegre, 26 a 29 de março de 2026
Por Regina Célia da Silva – ADunicamp / Regional ANDES-SN
A participação da ADunicamp na 1ª Conferência Antifascista se deu, antes de tudo, por uma dimensão coletiva muito concreta: a viabilização da presença estudantil por meio da ação sindical. O financiamento do transporte garantiu que estudantes, trabalhadores e trabalhadoras pudessem estar presentes — e isso foi reconhecido. Na plenária das entidades realizada em 31/03, companheiras e companheiros do movimento sindical transmitiram os agradecimentos dos participantes do STU. Durante a própria Conferência, estudantes da Unicamp e da USP também destacaram o papel das entidades para viabilizar a mobilização. Esse reconhecimento reafirma algo essencial: o sindicato é instrumento real de democratização do acesso aos espaços políticos.
Do ponto de vista político mais amplo, me chamou atenção a presença — inevitável e, por vezes, contraditória — de duas linhas de força em tensão.
De um lado, a centralidade da questão eleitoral. Em diversas intervenções, apareceu com força a defesa do voto em Lula já no primeiro turno em 2026, muitas vezes acompanhada da aposta em alianças amplas, inclusive com setores da direita. Confesso que isso me causou certo estupor: soou como um remake — um “vale a pena ver de novo” de 2022. A reedição da lógica da “frente ampla” que, ao tentar conter a barbárie, corre o risco de preservar as estruturas que a produzem.
De outro lado — e, com muito mais potência — emergiu uma política enraizada no ativismo e na militância concreta. Movimentos sociais, povos originários, periferias, sujeitos que enfrentam cotidianamente a violência estrutural do Estado. Uma política construída “por baixo”, que não se ancora em acordos institucionais, mas na experiência vivida da luta.
Essa tensão me parece central. Enquanto a política institucional tende à conciliação e à contenção, o ativismo aponta para o conflito, o tensionamento, a transformação e a ruptura. Para quem vive nas margens, a diferença entre democracia e autoritarismo nunca foi plenamente nítida — porque a violência sempre esteve presente.
A cidade e o encontro – 25 anos depois…
As ruas do centro de Porto Alegre foram ocupadas com bandeiras, palavras de ordem e múltiplos idiomas, uma cena que remeteu à memória do Fórum Social Mundial, que completa neste ano 25 anos. Um reencontro com uma tradição internacionalista que felizmente resiste.
Através da diversidade de delegações — Palestina, Marrocos, Uruguai, França, Canadá, Costa do Marfim, México, Dinamarca, Suíça, EUA, Paraguai, Filipinas, Argentina, Chile, Colômbia, Espanha, Alemanha, Portugal, Cuba, Venezuela, Haiti, Porto Rico, entre outros, parte do mundo, esteve representada com suas contradições e sua múltiplas formas de resistência.
Entre os debates, destaco a contribuição de Manon Aubry, deputada europarlamentar da França Insubmissa, que apresentou experiências de organização de trabalhadores frente às big techs e plataformas digitais — um campo estratégico que articula direitos, soberania e enfrentamento ao poder corporativo global.
Também destaco a possibilidade de ampliação da campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), que evidencia caminhos concretos de solidariedade internacional, assim como o lançamento do manifesto ecossocialista, organizado por Michael Löwy, que reuniu gerações em torno de um horizonte comum de esperança e transformação.
A Palestina como régua moral
A mesa sobre a Palestina foi um dos momentos mais intensos. Auditório lotado, forte presença cultural e política. Uma frase, proferida por Breno Altman, sintetiza bem o que se afirmou durante o encontro.
“A questão palestina é a régua moral e geopolítica do mundo.”
A Palestina expõe, de forma incontornável, quem está disposto a enfrentar o horror e quem opta por relativizá-lo.
A intervenção potente de Auricélia Arapiun, liderança indígena, advogada e ativista ambiental do povo Arapiun, na região do Baixo Tapajós, Pará, deu uma direção da luta concreta e urgente.
Ao denunciar as ameaças aos territórios amazônicos — pelo agronegócio, pela mineração, pela lógica predatória — Auricélia não falou apenas de destruição, mas de resistência. Sua fala reafirma algo central: não há soberania sem compromisso com os povos que defendem a terra.
E esses povos não são aliados secundários — são protagonistas, inclusive na forma de organização da luta.
A tríade que expressam — ocupar, resistir e enfrentar — não é apenas estratégia, mas uma ética política, algo que nos interpela diretamente sobre o papel dos sindicatos: somar-se a essas lutas de forma consequente.
Nesse sentido, vejo o ANDES-SN como uma entidade que tem buscado assumir esse desafio, articulando a luta sindical a um projeto mais amplo de justiça social, defesa da vida e construção de um horizonte ecossocialista.
A dimensão linguística: política e prática
Outro aspecto entre os mais marcantes foi o caráter plurilíngue da Conferência. Não se tratou de um detalhe organizativo, mas de uma escolha política.
Em um cenário acadêmico cada vez mais dominado pelo monolinguismo, em geral, anglófono, o evento afirmou a diversidade linguística como condição de participação. O monolinguismo, sabemos, não é neutro — é historicamente instrumento de dominação, associado à imposição de projetos coloniais e à homogeneização cultural.
Na 1a. Conferência Antifascista, vivenciamos uma ecologia das línguas. Espanhol em suas múltiplas variantes, português em diferentes inflexões, e várias outras línguas circulando. Mais do que coexistência, houve esforço ativo de comunicação — reformular, repetir, buscar palavras comuns. Uma prática de escuta e generosidade.
Foi fundamental o trabalho de tradutores e intérpretes — profissionais e voluntários — que garantiram a inclusão linguística e tornaram possível o diálogo.
Diante do avanço articulado de uma extrema direita violenta, fascista e abertamente belicista, não há espaço para respostas tímidas ou fragmentadas. A única possibilidade real de enfrentamento está na construção de uma luta antifascista que seja, ao mesmo tempo, internacionalista, ecossocialista, anticapitalista e plurilíngue. Isso implica reconhecer que o fascismo contemporâneo não é um desvio, mas uma expressão radical das crises do próprio capitalismo — alimentado pela devastação ambiental, pela guerra permanente e pela superexploração do trabalho. Enfrentá-lo exige, portanto, mais do que contenção institucional: exige organização popular, articulação entre povos e movimentos em escala global e a construção de um projeto de sociedade que rompa com as bases materiais que sustentam a barbárie. Sem essa perspectiva estratégica, qualquer resposta será insuficiente diante da magnitude do que está em curso.
Não há espaço para omissão.
A assinatura da Carta de Porto Alegre: Unidade Contra o Fascismo e pela Soberania dos Povos é parte desse processo:
https://antifas2026.org/carta-de-porto-alegre-unidade-contra-o-fascismo-e-pela-soberania-dos-povos/
Mas, mais do que assinar, é preciso agir. A luta que importa segue sendo construída, todos os dias, por aqueles que não têm a opção de recuar.








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