Participantes da Assembleia de Fundação da Associação de Moradores da Cohousing Sênior Vila Conviver, formada com base nos conceitos de moradia para a terceira idade pesquisados pelo
GT-Moradia/ ADunicamp

A Vila ConViver é um projeto elaborado a partir de estudos e pesquisas do GT (Grupo de Trabalho) Moradia/ADunicamp, criado a partir de demandas de professores sindicalizados aposentados. O coordenador do GT-Moradia, professor Bento da Costa Carvalho Junior (FEA), lembra que a diretoria da ADunicamp, eleita para o biênio 2012-2014, desde agosto de 2013 já vinha apoiando uma linha de ações voltada para os professores aposentados da entidade.

Bento lembra que nas diversas reuniões, realizadas em 2013, com o objetivo de identificar e atender as demandas e propostas dos professores aposentados, “a questão da moradia foi a mais recorrente”. Por isso, no início de 2014, foi criado o GT-Moradia, que por mais de dois anos se aprofundou no estudo de cohousing sênior, um tipo de comunidade residencial intencional para pessoas com mais de 50 anos, que está na base da criação da proposta da Vila ConViver.

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Em abril de 2016, a ADunicamp divulgou a todos os seus associados, por meio de Boletins e e-mails, cinco palestras do GT-Moradia sobre a proposta de implantação da cohousing sênior Vila ConViver. Com o trabalho dedicado dos integrantes da futura Vila ConViver e a continuidade do apoio da Diretoria da ADunicamp eleita nas eleições de 2016, a proposta de cohousing sênior teve condições de ser aprofundada e avançar com a participação, agora, de quase duas centenas de pessoas, culminando com a fundação da Associação que, a partir de agora, passa a ter uma identidade legal.

DO GTMORADIA À COHOUSING SÊNIOR

O GT-Moradia se dedicou integralmente ao estudo do conceito de cohousing (collaborative housing) e cohousing sênior, que daria origem ao projeto da Vila ConViver. O conceito de cohousing é, até hoje, pouquíssimo conhecido no Brasil e ainda não se tem notícia de nenhum empreendimento de moradia para idosos onde ele tenha sido aplicado.

Antes da formação do GT-Moradia, um grupo de associados aposentados da ADunicamp se ocupou em visitar, conhecer e estudar os modelos convencionais de habitação para idosos, entre eles algumas das mais conceituadas instituições de acolhimento e atendimento de idosos da região e do país. Mas nada do que viram correspondia às expectativas desses professores. “Todos os condomínios voltados para moradores da terceira idade que conhecemos nessa época não satisfaziam às principais preocupações dos nossos associados”, lembra Bento. Foi a partir dessas constatações que os integrantes do GT-Moradia passaram a estudar modelos de moradia existentes em outros países, com foco nas “comunidades intencionais”, especialmente as construídas para abrigar idosos. Embora as primeiras experiências que deram origem ao conceito de cohousing multigeracional já tenham mais de quatro décadas, apenas nas últimas duas décadas elas começaram a se multiplicar e ser alvo de estudos, em países da Europa mediterrânea, nos Estados Unidos e no Canadá. Mais recentemente, cohousing  chegou a Austrália, Nova Zelândia, Coreia e Japão.

As cohousing multigeracionais, com o correr do tempo, passaram a abrigar moradores de diferentes faixas etárias, perfis sociais, culturais e econômicos. Mas o foco do GT-Moradia sempre esteve nas chamadas cohousing sênior, voltadas para moradores da terceira idade.

“As cohousing sênior existentes hoje em diversos países abrigam moradores de diferentes faixas sociais e econômicas. Muitas delas têm sido acompanhadas e estudadas por especialistas em gerontologia, antropologia, sociologia, psicologia e arquitetura. Vários estudos mostram que esse modelo de moradia contribui, de forma decisiva, para uma vida mais longeva, com uma melhor saúde física e mental e, portanto, uma melhor qualidade de vida dos idosos, reduzindo ou eliminando doenças comuns na velhice, aí incluídos a depressão, a demência senil e o Alzheimer”, aponta Bento.

UMA SOLUÇÃO PARA GRANDES PROBLEMAS

As chamadas “comunidades intencionais” têm uma longa história em diversos países – desde os kibutzim em Israel, até as comunidades originadas do movimento hippie na década de 1960, mas só se consolidaram como modelo e ganharam força junto a setores mais amplos da sociedade a partir do desenvolvimento do conceito de cohousing, que surgiu na Dinamarca, há pouco mais de 40 anos.

Uma das primeiras experiências de cohousing na Dinamarca revela a abrangência e as profundas implicações desse modelo no caso de casais em que marido e mulher trabalhavam, muitas vezes, em turnos. “Aí eles precisavam de uma alternativa de moradia que também resolvesse de maneira cooperativa questões que preocupam os pais com crianças, como o apoio de seus vizinhos na supervisão dos filhos enquanto estivessem trabalhando, a questão da alimentação, os espaços comuns para estudo, socialização e recreação etc. Então, esses pais descobriram que poderiam montar uma comunidade residencial projetada por eles mesmos, onde cada um teria sua residência, mas também espaços comuns, como refeitório, áreas de lazer e lavanderia”, relata Bento.

Socialmente, cohousing tem sido frequentemente organizada com o objetivo de criar um senso de comunidade (envolvendo a tomada de decisões democráticas) e a igualdade de gênero, diminuindo o peso do trabalho doméstico.

Os primeiros moradores de cohousing multigeracional confirmaram rapidamente suas expectativas de que essa opção de moradia reduzia de modo significativo a carga das tarefas do dia-a-dia, desde a questão de fazer compras frequentes de alimentos, cozinhar diariamente, além do cuidado com os filhos.

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A experiência bem sucedida de cohousing multigeracional acabou induzindo a criação de cohousing só para idosos – cohousing sênior.

As cohousing dinamarquesas se multiplicaram rapidamente ao longo dos anos porque passaram a receber incentivo direto do Estado, depois que as primeiras experiências começaram a ser estudadas e revelaram inúmeros benefícios do modelo. No caso das cohousing sênior, as instituições públicas de saúde constataram que os moradores precisavam menos de cuidados médicos e de medicamentos. Essas pessoas viviam em média 8 anos a mais que a média da população, com mais qualidade de vida e davam muito menos despesas para os sistemas de saúde do que aquelas que moravam sozinhas.

A partir da Dinamarca, a experiência logo conquistou outros países nórdicos. Começando pela Holanda, o modelo de cohousing sênior ganhou outros países da Europa e chegou depois de 2005 aos Estados Unidos, país que, em 2017, tinha 13 comunidades sênior implantadas, 2 em construção e 13 em formação. Atualmente, cerca de 50.000 pessoas vivem em cohousing na Dinamarca, onde esse tipo de moradia cresceu 20% nos últimos 6 anos. Em 2015, havia nesse país mais de 250 comunidades cohousing sênior.

Max Pedersen, antropólogo dinamarquês, conduziu uma grande pesquisa em comunidades cohousing  sênior na Dinamarca, constatando que 98% dos moradores sentem-se seguros em sua comunidade, 95% satisfeitos com essa opção de moradia e 70% declararam que têm pelo menos 4 amigos entre seus vizinhos, o número de amigos necessário e suficiente para lhes garantir apoio sempre que precisarem.

MODELO PARA O MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO

Atualmente, em diversos países, em especial na Europa, programas e projetos governamentais de moradia social apontam que cohousing é um modelo que “não pode mais ser ignorado”. E isso se aplica em especial no caso das cohousing sênior por causa da profunda mudança do perfil das populações dos países desenvolvidos a partir da década de 70.

Nos países em desenvolvimento, as populações estão envelhecendo rapidamente, e de forma especial no Brasil, onde se espera que as pessoas passem a viver muito mais e de maneira mais ativa. Com o aumento da mobilidade populacional, já é cada vez maior o número de idosos ou de casais de idosos que vivem longe dos filhos. Ao contrário do que ocorria em décadas passadas, estatísticas atuais apontam que, em vários países, 70% das mulheres com idade mais avançada já vivem sozinhas, porque ficaram viúvas, ou porque se separaram ou por não terem se casado.

Essa mudança no perfil populacional demanda novas formas de organização da economia e da convivência, incluindo aí os modelos de moradia, especialmente para os mais velhos. De acordo com modernos estudos de gerontologia, três grandes problemas da população idosa estão diretamente ligados ao modelo de moradia: a solidão, o sentimento de desamparo e o tédio. Cohousing é, comprovadamente, uma grande solução para esses problemas.

GT-MORADIA TEM AMPLA DIMENSÃO

Diante de todos esses fatos, o trabalho desenvolvido pelo GT-Moradia ganha uma dimensão que vai além da recém formalizada Vila ConViver.

Como explica Bento, acabamos nos envolvendo numa perspectiva mais ampla, que engloba não só moradia, mas também as diversas questões ligadas ao envelhecimento e ao urbanismo, entre outras”. Hoje, a ADunicamp tem sido procurada por instituições e estudiosos ligados à questão de moradia e de moradia para idosos. “Nossos estudos e a metodologia de preparação e formação do grupo que deu origem à Vila ConViver estão disponíveis para novos grupos da própria Unicamp, ou de fora, que queiram criar novas comunidades cohousing, tanto para terceira idade como multigeracionais, aí incluídas as com públicos específicos ou com necessidades especiais”, relata Bento.

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O trabalho em grupo dos integrantes da Vila Conviver permitiu, também, a criação de um conjunto de normas jurídicas – o  Estatuto da Associação de Moradores da Vila ConViver – que atendesse as especificidades de sua cohousing sênior. Por exemplo, a unidade habitacional não pode ser transmitida para outra pessoa que não tenha o perfil desejado pela comunidade de moradores. Além disso, numa cohousing sênior as idades mínima e máxima para os eventuais novos moradores também são definidas pelo grupo.

Apesar dessas especificidades, a Vila ConViver já tem uma fila de espera de interessados em se juntar ao projeto confirmando levantamentos feitos pelo GT-Moradia/ADunicamp que mostram que na maior parte das cohousing  pesquisadas na Europa e Estados Unidos existem filas de espera de moradores interessados.

Como as normas de convívio e de utilização das áreas comuns de uma cohousing  são totalmente diferentes das estabelecidas em condomínios convencionais, a exemplo das comunidades internacionais, a Vila ConViver terá uma Comissão encarregada de transmitir a todo novo morador todas as informações adquiridas pelos moradores que passaram pelas diversas etapas de formação da comunidade.

“Como aqui no Brasil ainda não existe nada semelhante, a Vila ConViver buscou soluções particulares, e teve o privilégio de poder contar com assessoria jurídica competente na elaboração do seu Estatuto”, diz Bento.

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