A crise climática já não é uma ameaça distante. Seus efeitos são conhecidos, estão presentes no cotidiano e atingem de maneira desigual a população. Diante desse cenário, qual deve ser o papel das universidades públicas? Como transformar o conhecimento produzido dentro dessas instituições em ações capazes de responder à velocidade e à dimensão da emergência ambiental?
Essas questões estiveram no centro da terceira roda de conversa do ciclo “Eleições 2026: Universidade, Ciência e Democracia em Debate”, realizada pela ADunicamp. A atividade discutiu o papel da educação, da ciência e da tecnologia na transição ecológica e na crise climática e reuniu Emília Wanda Rutkowski (GTPAUA/ADunicamp), Luiz Marques (IFCH e GTPAUA/ADunicamp), Milena Pavan Serafim (FCA), João Vitor de Andrade Fontenele (DCE) e Elisiene Lobo (STU).
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Da informação à transformação
Milena Pavan Serafim apresentou resultados de pesquisa realizada com a comunidade da Unicamp e destacou que reconhecer a existência da emergência climática não é suficiente. Para a professora, é necessário fazer com que a universidade transforme esse conhecimento em formação, engajamento e ação coletiva.
“A universidade tem que sair de um status de informar para formar”, afirmou. Segundo Milena, isso exige integrar ensino, pesquisa, extensão e governança, “trazendo a questão da justiça climática no centro de tudo”.
Para ela, o desafio central colocado hoje às universidades vai além de ampliar a circulação de informações. “Já não é ampliar o acesso à informação sobre transição climática, mas criar condições educativas capazes de transformar consciência em engajamento crítico, coletivo, socialmente responsável, rumo a transições climáticas justas.”
Universidade precisa responder à velocidade da crise
Luiz Marques chamou a atenção para a aceleração dos indicadores da crise ambiental e argumentou que a universidade ainda não responde na mesma velocidade às transformações em curso. Para ele, a instituição precisa repensar seu próprio papel diante de um cenário que coloca em risco as condições de habitabilidade do planeta.
Segundo o professor, “caberia à universidade hoje elaborar uma resposta a esse agravamento, a essa aceleração”, inclusive por meio da formação de profissionais e pesquisadores preparados para atuar diante dos impactos da interferência humana sobre o sistema terrestre.
Luiz também chamou a atenção para a distância entre os desafios impostos pelo século XXI e estruturas universitárias ainda fortemente vinculadas a modelos construídos no século passado. Para ele, a realidade ambiental exige respostas compatíveis com a velocidade das mudanças em curso.
Apesar da gravidade do cenário, o professor rejeitou a ideia de que seja tarde demais para agir. “Nunca existe uma situação na qual nós possamos dizer que não há nada mais a fazer.” Segundo ele, quanto mais hostil se torna a situação, maior é a necessidade de agir para desacelerar o processo de aquecimento e ampliar a capacidade de adaptação da sociedade.
Entre o discurso e a prática
Emília Wanda Rutkowski chamou a atenção para outra dimensão do problema: a distância entre compromissos institucionais assumidos pela universidade e aquilo que efetivamente se transforma em seu cotidiano.
Segundo Emília, a Unicamp acumula iniciativas, políticas, certificações e participação em compromissos relacionados à sustentabilidade, mas ainda enfrenta dificuldades para fazer com que essas ações provoquem mudanças concretas e articuladas.
“Na teoria, a universidade, a administração central dessa universidade, aparentemente, dá conta disso. Temos uma dificuldade muito grande do cotidiano da universidade demonstrar isso”, afirmou. Para ela, existe um descompasso entre as diferentes iniciativas desenvolvidas na instituição e sua capacidade de produzir mudanças no dia a dia da comunidade universitária.
Emília destacou ainda um aspecto que considera particularmente preocupante. “De 2015 a 2026 […] não mudou absolutamente nada a percepção das pessoas sobre a questão ambiental dentro dessa universidade. Isso, para mim, é alarmante.” Para ela, essa permanência aponta para a necessidade de transformar compromissos institucionais em práticas efetivamente incorporadas pela comunidade.
Formação para além do diploma
A necessidade de aproximar conhecimento e prática também apareceu nas intervenções de Elisiene Lobo e João Vitor de Andrade Fontenele.
Elisiene defendeu que a preocupação ambiental deixe o campo exclusivamente discursivo e se traduza em práticas e mudanças na própria formação universitária. Ao discutir os currículos, questionou por que um tema de tamanha urgência não está mais presente na formação oferecida pelas diferentes áreas.
Para a dirigente do STU, é necessário refletir sobre “a que ponto as universidades estão preocupadas com o tema de realmente cuidar do planeta”. Elisiene também defendeu uma revisão curricular capaz de incorporar a questão ambiental aos diferentes cursos da universidade.
João Vitor destacou, a partir da perspectiva estudantil, a desconexão que muitos alunos sentem em relação às discussões sobre sustentabilidade e defendeu uma formação universitária que vá além da preparação imediata para o mercado de trabalho.
“Os alunos entram na universidade querendo sua finalização e não a formação. A gente entra para pegar diploma e trabalhar”, avaliou. Para o representante do DCE, é necessário trazer novamente os estudantes para a vida universitária, para que vivenciem esse espaço “não só como a entrega de um diploma, mas sim a formação para uma vida”.
Crise climática, universidade e eleições
Ao encerrar a atividade, Emília Wanda Rutkowski retomou o contexto político em que as três rodas de conversa foram realizadas. Ela lembrou que os debates acontecem em pleno período eleitoral e ressaltou a preocupação com os impactos das escolhas políticas sobre as universidades públicas e, consequentemente, sobre sua capacidade de produzir conhecimento e responder aos grandes desafios enfrentados pela sociedade.
“Nós estamos aqui no período de eleições. A gente colocou essa proposta para discutir a eleição porque somos uma universidade pública e o que as universidades públicas têm sofrido ao longo dos últimos anos, principalmente aqui no Estado de São Paulo, é uma coisa que está nos deixando muito preocupados”, afirmou Emília.
A fala reforçou um dos eixos que atravessaram o encontro: enfrentar a emergência climática exige conhecimento científico, formação crítica, políticas públicas e universidades públicas capazes de transformar conhecimento em ação. Por isso, a defesa da universidade, da ciência, da educação e da democracia também passa pelas escolhas políticas feitas pela sociedade.
A terceira roda de conversa encerrou o ciclo “Eleições 2026: Universidade, Ciência e Democracia em Debate”, realizado pela ADunicamp como parte da campanha “Em defesa da universidade pública, da ciência, da educação e da democracia”.
O debate completo está disponível no canal da ADunicamp no YouTube. Assista à íntegra da terceira roda de conversa e acompanhe as reflexões de todos os participantes.









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