Segunda roda de conversa debate papel da universidade diante do avanço da direita e da extrema direita


O papel da universidade pública diante do avanço da direita e da extrema direita e os desafios para que ela se mantenha como espaço de pensamento crítico, pluralidade e transformação social estiveram no centro da segunda roda de conversa da campanha “Eleições 2026: Universidade, Ciência e Democracia em Debate”, realizada nesta quarta-feira (23), no Auditório da ADunicamp.

Com o tema “A responsabilidade da universidade frente à conjuntura atual: o poder da direita e da extrema direita”, a atividade reuniu a professora Josianne Cerasoli (IFCH/Unicamp) e Toninho Alves, da direção do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU), com mediação de Paulo Noije (ADunicamp).

Na abertura, Paulo destacou a importância de compreender o crescimento da extrema direita e seus mecanismos de atuação para evitar que experiências autoritárias se repitam. “Um debate como hoje é muito importante nesse sentido de a gente não repetir o que aconteceu lá atrás. É muito importante a gente entender melhor esse fenômeno.”

A naturalização de valores

Professora de História do IFCH, Josianne analisou a organização e as estratégias de grupos e instituições conservadoras e de direita nas últimas décadas. Para ela, é necessário observar não apenas as manifestações mais explícitas da extrema direita, mas também valores e práticas que vão sendo naturalizados socialmente e abrem caminho para seu fortalecimento.

“O poder da direita nunca é só explícito, ele pode ser explícito, mas ele é sempre muito insidioso”, afirmou. Segundo a professora, esse poder está presente “em várias coisas que a gente vai naturalizando” e, dessa forma, cria condições para o avanço da extrema direita.

Josianne também questionou a centralidade assumida por valores associados à lógica liberal e defendeu que a universidade coloque outros princípios no centro de sua atuação. “A liberdade está lá, mas junto com ela, igualdade, justiça, a gente tem outras pautas, e elas são mais complexas.” Para ela, é preciso refletir criticamente sobre o conhecimento produzido e sobre os valores que orientam a própria instituição universitária.

Durante o debate, a professora apontou a solidariedade como um desses valores e defendeu o convencimento e a sensibilização como instrumentos de enfrentamento. “A gente tem que trabalhar com convencimento, a gente tem que trabalhar com sensibilidade, para sensibilizar as pessoas. Isso é que é a vacina contra a direita.”

Universidade como espaço de resistência

Toninho Alves abordou o avanço internacional da extrema direita e relacionou esse processo às crises e transformações do capitalismo. Em sua avaliação, estratégias baseadas no medo, no negacionismo e na disseminação de desinformação ajudam a construir apoio a projetos autoritários.

Ao discutir especificamente o papel das universidades públicas, Toninho lembrou sua importância histórica como espaços de resistência, produção de conhecimento e debate político. Para ele, é necessário recuperar essa capacidade de intervenção e aproximar novamente a universidade da população.

“Nós estamos lutando contra o pensamento único a ser estabelecido no país, através de governos de extrema direita”, afirmou. Para Toninho, o desafio passa por “colocar a universidade pública como centro do debate” e, sobretudo, estabelecer esse diálogo com a população.

O dirigente do STU defendeu ainda que a produção universitária esteja voltada às necessidades sociais. “Precisamos retomar esse papel da universidade a discutir, em primeiro lugar, a produção da universidade para responder os anseios da população e não os anseios dos empresários.”

O debate avançou também sobre questões internas à universidade, como a lógica produtivista, o empreendedorismo, a terceirização, a relação entre produção científica e interesses econômicos e a necessidade de construir coletivamente outros projetos para a universidade pública.

Nesse sentido, Josianne ressaltou que enfrentar o avanço conservador exige também olhar criticamente para a própria instituição. “Não existe, nunca existiu neutralidade científica”, afirmou. Segundo ela, a universidade passou por importantes transformações em seu acesso, mas suas estruturas ainda precisam acompanhar essas mudanças.

A segunda roda de conversa integra a programação da campanha “Em defesa da universidade pública, da ciência, da educação e da democracia”, que busca ampliar o debate sobre a importância dessas instituições e valores para a sociedade brasileira e chamar a atenção, neste período eleitoral, para o impacto das escolhas políticas sobre o futuro da educação pública, da pesquisa, da ciência e da democracia.

A íntegra da roda de conversa está disponível no canal da ADunicamp no YouTube. Clique aqui e assista ao vídeo e acompanhe o debate completo.

Se preferir, assista pelo player abaixo:


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