Na manhã desta quarta-feira, 20 de maio, docentes, estudantes e servidoras(es) técnico-administrativas(os) da Unicamp realizaram um ato público unificado em defesa da retomada das negociações entre o Fórum das Seis e o Cruesp. Convocada pela ADunicamp, pelo STU e pelo DCE, a mobilização integrou o calendário da greve geral da universidade e reuniu as três categorias em torno de pautas comuns: valorização das categorias, recomposição salarial e defesa da universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada.
O ato foi marcado por críticas à proposta de reajuste de 3,47% (Fipe) apresentada pelas reitorias das universidades estaduais paulistas e por alertas sobre o avanço do subfinanciamento e da precarização das condições de trabalho e estudo nas universidades. Ao longo da atividade, as falas destacaram a importância da unidade entre docentes, estudantes e servidoras(es) técnico-administrativas(os) para fortalecer a mobilização.
Representando a ADunicamp e o ANDES-SN, a professora Regina Célia da Silva (CEL) destacou que a greve ultrapassa a reivindicação salarial e se conecta à defesa do próprio projeto de universidade pública. “Não é só uma pauta salarial, que é importante, com certeza, mas é muito mais do que isso que está em debate e em risco hoje”, afirmou. Em seguida, apontou preocupações com “o subfinanciamento da universidade, a questão da entrega da área da saúde com a autarquização”.
A docente também ressaltou a importância da unidade construída entre as categorias durante a greve. Segundo Regina, o ato demonstrou que docentes, estudantes e servidoras(es) técnico-administrativas(os) estão articulados em defesa da universidade pública e na cobrança de um posicionamento mais firme da reitoria diante da crise instalada nas negociações salariais.
Em nome do ANDES-SN, Regina reafirmou ainda o apoio nacional à greve da categoria docente da Unicamp. “Quando uma seção sindical está em greve, todo o ANDES-SN está em greve”, declarou, associando a mobilização local a uma luta nacional em defesa das universidades públicas e das condições de trabalho no ensino superior.
“É um absurdo”
O professor André Kaysel (IFCH), membro do CONSU e integrante do comando de greve da ADunicamp, criticou a proposta de reajuste de 3,47% apresentada pelo Cruesp, classificando-a como insuficiente até mesmo para recompor a inflação acumulada. “É um absurdo”, afirmou, ao lembrar que o índice “sequer repõe a inflação anualizada de 2025 e 2026”.
Kaysel também questionou a forma como as negociações vêm sendo conduzidas pelas reitorias. Segundo ele, houve um esvaziamento do processo histórico de negociação entre o Fórum das Seis e o Cruesp. “É um absurdo que desde 2019 o Conselho Universitário referende a negociação e se sobreponha à negociação entre o Cruesp e o Fórum das Seis”, declarou.
Outro ponto criticado pelo docente foi a decisão da reitoria de já lançar o reajuste nos contracheques antes do encerramento das negociações e em pleno contexto de greve. Para ele, a medida representa um desrespeito ao movimento sindical. “Fazer isso num momento em que há conflito e há uma greve é um desrespeito ao movimento sindical”, afirmou.
O professor também rejeitou a possibilidade de que perdas salariais sejam utilizadas para compensar dificuldades financeiras da universidade. “Não vamos aceitar que nosso salário seja usado como caixa para resolver o déficit da universidade”, declarou. Ao mesmo tempo, defendeu que eventuais problemas orçamentários sejam debatidos “às claras com a comunidade universitária”.
Ao convocar a mobilização para a próxima reunião do Conselho Universitário, marcada para o dia 26 maio, Kaysel reforçou a pressão pela retomada das negociações. “O Cruesp precisa sentar à mesa para negociar”, disse.
“Esse reajuste é acintoso”
Uma das falas mais contundentes do ato foi a do professor Ricardo Antunes (IFCH) e integrante do comando de greve da ADunicamp. Relacionando a atual campanha salarial a um processo mais amplo de precarização do trabalho público, Antunes afirmou que a proposta de reajuste representa uma forma de arrocho salarial incompatível com a defesa da universidade pública.
“esse reajuste é acintoso, é uma provocação”, declarou o professor, ao comparar o índice oferecido pelas universidades estaduais com o reajuste concedido no âmbito federal. Para ele, o arrocho salarial não pode ser dissociado de um processo maior de desestruturação das universidades públicas.
Segundo Antunes, “está em curso um aumento muito profundo de desorganização, desestruturação do trabalho público em geral”. Em sua análise, esse processo se expressa na terceirização, na intensificação da digitalização do trabalho e na redução dos quadros de funcionárias(os) e docentes.
“O objetivo primeiro é enxugar o conjunto de trabalhadoras, trabalhadores, funcionários administrativos, professores e professoras”, afirmou. O docente alertou ainda para o avanço de formas precarizadas de trabalho dentro e fora das universidades, relacionando esse cenário à chamada plataformização do trabalho.
Ao longo da fala, Antunes estabeleceu paralelos entre o momento atual e as históricas greves operárias do final dos anos 1970. “O tema crucial das greves metalúrgicas de 78, 79 e 80 era contra o arrocho salarial”, lembrou. Segundo ele, aceitar perdas salariais sucessivas significa abrir caminho para o desmonte gradual da universidade pública.
“A primeira forma de arrebentar com a universidade pública é aceitar o arrocho salarial”, afirmou. Para o professor, o processo de precarização ocorre “sistematicamente” e se aprofunda quando há fragmentação das categorias e enfraquecimento das formas coletivas de organização.
Antunes também criticou políticas implementadas em outras universidades estaduais, especialmente mecanismos de bonificação vinculados à produtividade acadêmica. Segundo ele, essas medidas aprofundam a lógica empresarial dentro da universidade pública e ampliam a competição individualizada entre docentes.
Ao final da intervenção, o professor defendeu a reconstrução de um novo movimento “SOS Universidade” em 2026, retomando a memória das mobilizações históricas em defesa das universidades públicas paulistas. “Nós vamos lutar pela universidade pública, vamos refazer o SOS Universidade em 2026. É por isso que estamos em luta”, afirmou.
O ato desta quarta-feira reforçou a unidade entre docentes, estudantes e servidoras(es) técnico-administrativas(os) da Unicamp e consolidou a defesa da retomada imediata das negociações entre o Fórum das Seis e o Cruesp. As entidades organizadoras indicaram que a mobilização deve continuar nas próximas semanas, com novos atos, assembleias e pressão política sobre as reitorias das universidades estaduais paulistas.

















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