Internacionalização para quem? Ciência, soberania e responsabilidade institucional

A recente divulgação, pela Diretoria Executiva de Relações Internacionais (DERI) da Unicamp, de um webinar promovido pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos (U.S. Department of Defense), denominado como Departamento da Guerra pela atual administração estadunidense, destinado à apresentação de oportunidades de financiamento para pesquisadoras(es) das áreas STEM, suscita reflexões que ultrapassam o mérito individual das oportunidades anunciadas.

Não se trata de questionar a importância da cooperação científica internacional, tampouco de negar a relevância dos intercâmbios acadêmicos para o desenvolvimento da ciência brasileira. A internacionalização é parte constitutiva da atividade universitária contemporânea e deve ser estimulada. Contudo, a internacionalização não é um processo neutro. Ela envolve escolhas políticas, institucionais, científicas e éticas que precisam ser permanentemente debatidas pela comunidade universitária.

Causa estranhamento que uma universidade pública brasileira divulgue, de forma acrítica, uma iniciativa promovida diretamente por um órgão de defesa de uma potência global imperialista sem que sejam explicitadas as implicações geopolíticas, estratégicas e científicas envolvidas nesse tipo de cooperação.

A história da ciência contemporânea demonstra que as relações entre pesquisa, tecnologia e poder militar são profundas. Inteligência artificial, computação avançada, sistemas de comunicação, satélites, internet, semicondutores e inúmeras tecnologias que estruturam a economia digital atual foram desenvolvidas em estreita articulação com interesses militares e geopolíticos. Nesse sentido, recursos destinados à pesquisa nunca são inteiramente neutros. Eles expressam prioridades estratégicas dos Estados e dos grupos econômicos que os financiam.

Para países periféricos como o Brasil, a questão assume contornos ainda mais relevantes. Em um contexto de crescente disputa tecnológica global, torna-se legítimo perguntar: quem define as agendas de pesquisa? Quem controla os dados produzidos? Quem se apropria dos resultados científicos? Em que medida a cooperação internacional fortalece a autonomia científica nacional ou aprofunda relações de dependência tecnológica?

Essas perguntas não constituem uma recusa à cooperação internacional. Pelo contrário. Elas são condições necessárias para que essa cooperação ocorra de forma soberana, transparente e orientada pelo interesse público.

Nesse sentido, é preocupante a aparente assimetria observada nas prioridades institucionais da internacionalização universitária.

Em abril de 2026, o Comitê Palestina Livre da Unicamp encaminhou ao Gabinete do Reitor, à Diretoria de Relações Internacionais e à Diretoria de Direitos Humanos uma proposta de cooperação acadêmica com instituições e integrantes da comunidade universitária palestina. O documento sugeria ações concretas, entre elas programas de acolhimento para estudantes, pesquisadoras(es) e docentes palestinos em situação de refúgio ou deslocamento forçado; criação de editais específicos; fortalecimento da cooperação científica com universidades palestinas; articulação com a Cátedra Sérgio Vieira de Mello; e construção de uma política institucional de solidariedade acadêmica.

A proposta partia do reconhecimento de que a destruição sistemática de universidades, escolas, centros de pesquisa e infraestruturas educacionais nos territórios palestinos constitui um dos mais graves ataques contemporâneos ao direito à educação e à produção do conhecimento.

Até o momento, entretanto, não houve resposta institucional pública a essas proposições.

Diante desse contraste, torna-se inevitável perguntar: quais critérios orientam a política de internacionalização da Universidade? Quais iniciativas recebem divulgação institucional ativa? Quais permanecem sem resposta? Que concepção de cooperação internacional está sendo construída?

A internacionalização universitária não pode ser reduzida à circulação de recursos, editais e financiamentos. Ela deve estar comprometida também com os direitos humanos, a justiça global, a solidariedade entre os povos, a soberania científica e a autonomia universitária.

Mais do que discutir um webinar específico, o episódio nos convida a um debate mais amplo e urgente: qual projeto de internacionalização queremos para a Unicamp? Uma internacionalização orientada prioritariamente pelos interesses estratégicos das grandes potências e dos mercados globais ou uma internacionalização comprometida com a cooperação solidária, a produção autônoma do conhecimento e a construção de um mundo mais justo?

Essa é uma discussão que diz respeito a toda a comunidade universitária e que não pode ser conduzida sob a falsa premissa da neutralidade.

Questões para se perguntar:

  • Quem define as agendas?
  • Quem controla os dados produzidos?
  • Quem se apropria dos resultados?
  • Quais interesses estratégicos orientam os editais?
  • Qual o grau de autonomia dos grupos brasileiros?
  • Quais são os interesses da nossa universidade em manter parceria com o Departamento de Defesa/Guerra dos EUA?

São perguntas ainda mais relevantes em áreas STEM, justamente aquelas explicitamente mencionadas no convite.

Hoje estamos diante de uma nova corrida tecnológica internacional envolvendo:

  • inteligência artificial;
  • computação avançada;
  • semicondutores;
  • materiais críticos;
  • mineração de terras raras;
  • tecnologias quânticas;
  • biotecnologia;
  • sistemas de defesa.

São exatamente os campos considerados estratégicos na disputa contemporânea entre Estados Unidos e China.

Por isso, um convite dessa natureza não pode ser analisado apenas como uma oportunidade de financiamento, mas também como parte de uma disputa geopolítica mais ampla pela produção e controle do conhecimento.

Há ainda um segundo elemento que merece reflexão institucional.

A DERI afirma que realiza “apenas a divulgação da informação conforme solicitação da instituição parceira”.

Entretanto, as universidades não são correios neutros.

Toda política de internacionalização implica escolhas políticas, acadêmicas e éticas.

Qual é o critério político e acadêmico utilizado pela universidade para promover determinadas oportunidades internacionais e silenciar diante de outras demandas de cooperação internacional fundamentadas em direitos humanos, solidariedade acadêmica e reconstrução educacional?

Nesse contexto, é legítimo que sejam feitos questionamento em torno de alguns eixos:

1. Ciência não é neutra

Reconhecer que a produção científica está inserida em disputas econômicas, militares e geopolíticas.

2. Defesa da autonomia científica

Reafirmar que a cooperação internacional deve preservar a autonomia das agendas de pesquisa brasileiras e o interesse público.

3. Transparência institucional

Solicitar que a DERI explicite critérios para divulgação e promoção de oportunidades internacionais envolvendo instituições militares ou diretamente vinculadas a estratégias nacionais de defesa.

4. Internacionalização crítica e solidária

Questionar a ausência de resposta às propostas encaminhadas pelo Comitê Palestina Livre da Unicamp e defender que a internacionalização da universidade inclua em suas prioridades iniciativas voltadas à solidariedade acadêmica, aos direitos humanos e à reconstrução de sistemas educacionais afetados por guerras e ocupações.

5. Soberania científica e tecnológica

Defender que a cooperação internacional seja acompanhada de uma reflexão sobre:

  • soberania digital;
  • ciência aberta;
  • proteção de dados científicos;
  • propriedade intelectual;
  • apropriação dos resultados da pesquisa.

Que política de internacionalização, cooperação científica e soberania acadêmica a Unicamp pretende construir diante das transformações geopolíticas contemporâneas?

Alguns pontos importantes para se debater:

  • defesa das agendas de pesquisa brasileiras e o compromisso com o interesse público;
  • a necessidade de maior transparência institucional sobre os critérios adotados pela universidade para divulgação e promoção de oportunidades vinculadas a instituições militares ou diretamente relacionadas a estratégias nacionais de defesa;
  • a construção de uma política de internacionalização crítica e solidária, com a justa reflexão sobre a ausência de propostas para a promoção dos direitos humanos e de cooperação acadêmica em contextos de guerra e ocupação;

E finalmente cumpre salientar o papel belicista, imperialista e intervencionista que os EUA, via departamento de defesa e guerra, vêm cumprindo no mundo inteiro. Não é admissível nem desejável que a Unicamp colabore com a produção de conhecimento que sirva para subsidiar  guerras.

DIRETORIA DA ADUNICAMP

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