Escritora participou de aula aberta na Unicamp, visitou o Arquivo Edgard Leuenroth, almoçou com estudantes e lideranças na ADunicamp e participou de episódio especial do Conexão ADunicamp, entrevistada por duas jovens pesquisadoras de sua obra
A presença de Conceição Evaristo na Unicamp, no dia 6 de agosto, foi marcada por encontros, trocas e muita alegria. Encontros entre gerações, entre universidade e movimentos sociais, entre literatura e memória, entre a produção intelectual de uma das mais importantes escritoras brasileiras contemporâneas e as mulheres que hoje pesquisam, recriam e dão continuidade às lutas por conhecimento, representação e transformação social.
Reconhecida internacionalmente por sua produção literária e acadêmica, Conceição Evaristo esteve na Universidade para receber o título Doutora Honoris Causa, concedido pelo Consu e para realizar uma aula aberta que integrou as comemorações dos 40 anos do Vestibular Unicamp.
Um almoço na casa dos docentes
Conceição Evaristo esteve na ADunicamp, onde almoçou no restaurante da entidade ao lado de estudantes, lideranças e da professora Silvia Gatti, presidenta da associação.
O encontro aproximou ainda mais a escritora de uma comunidade universitária que reconhece a produção do conhecimento como parte de uma disputa mais ampla por direitos, democracia e transformação social.
A literatura de Conceição Evaristo nasce justamente desse trânsito. Sua escrita transforma memória em linguagem, experiência em narrativa e vivência em elaboração política e estética.
Duas mulheres diante de uma matriarca
Foi na ADunicamp também que aconteceu um dos momentos mais marcantes da visita, a gravação de um episódio especial do videocast Conexão ADunicamp, que será lançado no dia 20 de agosto, no canal oficial da ADunicamp no YouTube.
Conceição Evaristo foi entrevistada por duas mulheres que estudam sua obra, Isabella Aparecida e Layne Gabriele, e foi estabelecido um diálogo entre gerações, entre pesquisadoras e uma autora que se tornou referência fundamental para pensar literatura, raça, gênero, memória e produção de conhecimento no Brasil.
Isabella Aparecida, neta de Dona Diva e fruto do Jardim Cocaia, em Guarulhos, é fotógrafa, multiartista, militante e antropóloga formada pela Universidade Estadual de Campinas. Integra a Casa de Cultura Tainã e o Núcleo de Consciência Negra da Unicamp (NCN), além de atuar como pesquisadora na linha de pesquisa Hip Hop em Trânsito e participar dos movimentos Funk e Hip Hop.
Layne Gabriele nasceu e foi criada no bairro Campo Belo, em Campinas. Neta de Marialice e filha de Adriana, é educadora, pesquisadora e mestranda em Linguística Aplicada no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL/Unicamp). Em sua pesquisa de mestrado, investiga anúncios de fuga de pessoas escravizadas publicados em jornais brasileiros dos séculos XVIII e XIX, tratando esses documentos como arquivos linguísticos que preservam vestígios da memória e da oralidade negra.
Duas trajetórias diferentes, atravessadas pela pesquisa, pela memória e pela produção de conhecimento, encontraram-se diante de uma escritora que transformou sua própria experiência e a experiência coletiva de mulheres negras em uma das vozes mais potentes da literatura brasileira contemporânea.
Literatura como forma de conhecer e transformar o mundo
Durante mais de uma hora de conversa, Cida e Layne conduziram Conceição Evaristo por questões que ultrapassaram os limites da literatura como objeto acadêmico.
As perguntas partiram da experiência sensível da escrita e chegaram a temas como imaginação, memória, maternidade, rebeldia, racismo, conhecimento e as possibilidades de reinvenção das mulheres negras.
Uma das questões partiu justamente da relação entre literatura e experiência: se a vida é algo que não apenas compreendemos, mas também tateamos e sentimos fisicamente, que cheiro ou gosto teria a escrita de Conceição Evaristo? Perguntou Layne.
Em outro momento, a conversa percorreu histórias de leves enganos e parecenças e a relação entre realidade, imaginação e fabulação. A pergunta colocava a imaginação não como fuga do mundo, mas como uma forma de conhecê-lo, interrogá-lo e disputar os limites do que é considerado possível.
A conversa também voltou a Olhos d’Água, leitura obrigatória do Vestibular Unicamp 2027, especialmente à personagem Natalina, para discutir a maneira como mulheres negras podem transformar a rebeldia em instrumento de reinvenção das próprias histórias.
Layne e Cida perguntaram ainda se, ao revisitar seus próprios livros anos depois, Conceição já havia encontrado em algum texto algo que parecia saber sobre sua própria vida ou sobre o Brasil antes mesmo que isso estivesse plenamente consciente para ela.
No encerramento, o diálogo assumiu um tom ainda mais geracional. Diante de uma escritora que transformou memórias de infância, maternidade e vida cotidiana em literatura, Cida e Layne perguntaram como Conceição Evaristo continua se recriando e se reconhecendo aos 79 anos.
Escrevivência: memória que se transforma em palavra
Ao longo da entrevista, Conceição Evaristo também falou sobre a construção de um dos conceitos mais importantes de sua trajetória intelectual: a escrevivência.
Segundo a escritora, a escrevivência se constituiu como uma forma de compreender uma escrita marcada pelas experiências, memórias e vozes de mulheres negras. Uma escrita que não se pretende neutra diante das desigualdades e que transforma a experiência vivida em matéria literária, sem reduzir a literatura à denúncia.
A própria inclusão de Olhos d’Água entre as obras do Vestibular Unicamp 2027 expressa essa mudança no campo da formação de novos leitores e leitoras. A Comvest tem destacado a diversidade e a representatividade como critérios presentes na composição de suas listas de leitura.
Um encontro que permanece
A passagem de Conceição Evaristo pela ADunicamp foi um encontro entre a memória e o presente. Entre uma escritora que abriu caminhos e duas jovens pesquisadoras que hoje interrogam sua obra a partir de suas próprias experiências. Entre o arquivo e a palavra viva. Entre universidade, movimento social e produção cultural.
E foi também um encontro marcado pela força das mulheres negras como produtoras de conhecimento, memória e linguagem.
A entrevista para o Conexão ADunicamp foi delicada, poderosa e emocionante. Durante mais de uma hora, Conceição Evaristo falou sobre literatura brasileira, ações afirmativas e a necessidade de ampliar o espaço editorial para escritoras negras. Falou sobre memória, imaginação, maternidade, rebeldia e sobre a capacidade da literatura de produzir conhecimento e revelar aquilo que muitas vezes permanece invisível.
Falou, sobretudo, sobre escrevivência, seu jeito, sua criação de uma escrita que carrega experiências, memórias e vozes de mulheres negras e que transforma a palavra em território de existência, afirmação e resistência.
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