1° Encontro Regional SP do ANDES-SN debate desafios da educação pública e das Universidades Paulistas


Seções sindicais de diferentes regiões do Estado participaram, na manhã desta sexta-feira, 8 de maio, da abertura do 1º Encontro Regional São Paulo do ANDES-SN, realizado no Auditório da ADunicamp, em Campinas. O encontro reúne docentes para debater os desafios atuais da educação pública, as campanhas salariais e a organização sindical diante das mudanças políticas e econômicas que impactam as universidades públicas paulistas.

Na abertura do evento, a professora Regina Celia da Silva (CEL), diretora da ADunicamp e da Regional São Paulo do ANDES-SN, destacou que o encontro ocorre “simbolicamente no encerramento da semana de lutas do setor das estaduais, municipais e distrital”, mas ressaltou que “a nossa luta não termina aqui”. Segundo ela, a mobilização das categorias docentes é resultado de uma trajetória histórica construída ao longo de décadas. “As três seções sindicais das estaduais paulistas e a da Unifesp completam, inclusive, 50 anos de trajetória de resistência e organização coletiva”, afirmou.

O encontro, lembrou a professora, ocorre justamente no momento de mobilizações da atual Data-base 2026 das universidades estaduais paulistas, dentro de um debate que ultrapassa as reivindicações salariais imediatas. “O que está em jogo aqui, para nós, das estaduais paulistas, não é apenas mais uma campanha salarial. O que está em jogo é o futuro das universidades estaduais”, declarou.

Ela alertou para os riscos à autonomia universitária e ao financiamento público das instituições estaduais, especialmente diante da reforma tributária e das políticas em curso de desoneração fiscal. “Existe um risco real e concreto sobre a autonomia financeira das universidades estaduais”, disse. Regina também criticou processos que, segundo ela, ampliam a precarização das universidades públicas, citando “a sobrecarga e o adoecimento docente”, além de “processos de privatização por dentro das universidades, por meio das fundações, OS, e, no caso da Unicamp, a autarquização da saúde”.

A professora defendeu a necessidade cada vez mais urgente de fortalecimento da mobilização sindical e dos espaços coletivos de debate político. “Nenhuma instância substitui a força da mobilização organizada. Sem base ativa, não há correlação de forças capaz de impedir a retirada de direitos ou garantir avanços concretos”, afirmou. Segundo ela, é necessário transformar momentos como a Data-base e os encontros sindicais “em espaços efetivos de organização e politização”.

A presidenta da ADunicamp, professora Silvia Gatti (IB), deu as boas-vindas aos participantes do 1º Encontro e destacou a importância da realização de atividades do sindicato nacional junto às bases docentes. Segundo ela, “encontros regionais como esse fortalecem o diálogo entre as seções sindicais” e permitem maior integração entre docentes das diferentes universidades.

“A ADunicamp já pediu algumas vezes para o ANDES-SN vir para as bases. Eu acho importante que as reuniões aconteçam nos lugares onde nós estamos. Afinal, somos nós que fazemos a base do ANDES-SN”, afirmou. Para Silvia, o formato regional possibilita discussões mais próximas da realidade cotidiana das entidades sindicais e amplia a troca de experiências entre as categorias docentes.

A professora também comentou o atual cenário das negociações salariais nas universidades estaduais paulistas, classificando o momento da Data-base 2026 como “muito difícil”. Ela mencionou a expectativa em torno da reunião marcada para a próxima segunda-feira, dia 11 de maio com o Cruesp e afirmou que as entidades seguirão mobilizadas na defesa dos direitos da categoria. “Mesmo sabendo das dificuldades, vamos estar lá, brigando pelos nossos direitos.”

A professora Silvia avaliou que ações como esta, do 1° Encontro, contribuem para fortalecer a organização docente. “Espero que nós saiamos daqui mais fortalecidos amanhã, mas sabendo mais ainda o que temos que fazer para toda a classe docente”, afirmou.

Memória sindical e formação política. Um arquivo para unir gerações

Ainda pela manhã, durante o encontro, o professor Aldair Rodrigues (IFCH) fez uma exposição detalhada da construção e dos acessos já liberados do Arquivo da ADunicamp, um trabalho pioneiro na história da memória sindical das universidades brasileiras e que é coordenado por ele.

Aldair, também ex-diretor do Arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp, lembrou que o trabalho desenvolvido na ADunicamp está articulado a uma política nacional de memória construída pelo ANDES-SN. “Nosso sindicato nacional é que destacou e nos provocou para a importância da elaboração de políticas de memória que possibilitem às futuras gerações compreender o papel histórico das nossas lutas em defesa da educação e por uma sociedade justa e igualitária.” A iniciativa da ADunicamp surgiu a partir de debates promovidos pelo ANDES-SN sobre a importância da preservação da memória das lutas docentes. Segundo Aldair, a proposta ganhou força especialmente no contexto político dos últimos anos, marcado “por retrocessos e por ameaças à democracia”.

O professor ressaltou que o projeto da ADunicamp não se limita à preservação documental, mas busca transformar o arquivo em instrumento de formação sindical e política. Para ele, esse aspecto se torna ainda mais importante diante da renovação geracional vivida pela Universidade nas últimas décadas, com a entrada de centenas de novos docentes, inclusive ele, que já encontraram a instituição consolidada em estruturas democráticas construídas ao longo de anos de mobilização.

“A minha geração chegou a uma universidade já consolidada. Mas precisamos lembrar que esta Universidade foi fundada durante a ditadura militar e que suas instâncias decisórias não nasceram em marcos democráticos”, destacou. Os milhares de documentos já catalogados mostram, relatou Aldair, que “as mudanças ocorreram na Universidade graças às lutas sindicais”. Antes, tudo era decidido de forma vertical e autoritária e foram as mobilizações e ações que acabaram modificando certos modelos e estruturas. “Os documentos mostram claramente que a ADunicamp tem um papel fundamental na formação institucional da Unicamp. E temos que chegar nos docentes jovens para contar essa história.”

Para o professor, essa aproximação geracional e o fortalecimento das ações sindicais adquirem um significado especial neste momento. “Vivemos tempos de mudanças, como o fim do ICMS e dúvidas sobre como se dará o financiamento das universidades. Vivemos também os impactos das políticas neoliberais sobre a vida universitária e sobre a organização coletiva de docentes.”

A lógica de produtividade acadêmica e individualização das carreiras tem contribuído para o enfraquecimento dos espaços coletivos de mobilização sindical, apontou Aldair, e nesse cenário, o arquivo assume um papel estratégico de mediação entre diferentes gerações da universidade. “Conhecer a história, as lutas e embates é fundamental. O arquivo vai fazer a mediação entre a geração que construiu a Universidade e a minha geração, que nem havia nascido quando a Unicamp foi criada”, afirmou.

Todo o processo técnico de organização do acervo está sendo desenvolvido de forma aberta e poderá servir de referência para outras seções sindicais do ANDES-SN interessadas em construir políticas semelhantes de preservação de suas memórias. A divulgação ampla do projeto prevê exposições, atividades de difusão e o lançamento de um livro durante as comemorações, no ano oque vem, dos 50 anos da ADunicamp. Os milhares de documentos já catalogados e digitalizados estão disponíveis no site da ADunicamp (veja aqui).


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