Na manhã de 24 de abril, o auditório da ADunicamp deixou de ser apenas um espaço de reuniões e debates para se transformar em ponto de encontro de histórias, urgências, esperanças e resistência. Ali, movimentos sociais, lideranças comunitárias, entidades populares e representantes do poder público se reuniram no encontro “A voz dos movimentos sociais e populares de Campinas e Região”, promovido pelo Núcleo Campinas da Associação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (NC-ABEFC) e pela Cozinha Solidária São Marcos, com total apoio da ADunicamp.
Mais do que um evento, a atividade foi um retrato vivo de movimentos sociais que trabalham, cuidam, organizam, acolhem e insistem em construir caminhos coletivos para a cidade de Campinas, mesmo em tempos difíceis.
Ao abrir a programação, a presidenta da ADunicamp, professora Silvia Gatti, deu o tom do que seria a manhã: uma celebração do encontro e, ao mesmo tempo, a reafirmação de compromissos históricos. “Eventos como esse têm fundamentalmente duas características na forma como nós sentimos. A primeira é a alegria de ter vocês aqui e nossa ADunicamp. E a segunda é o orgulho de poder caminhar junto aos movimentos sociais, contribuindo com iniciativas que transformam a realidade e fortalecem a solidariedade.”
A fala ecoou como síntese da trajetória recente da entidade, que nos últimos anos aprofundou laços com iniciativas populares e redes solidárias da cidade. Silvia lembrou que esse movimento ganhou força durante a pandemia, quando a fome, a desigualdade e o abandono exigiram respostas concretas da sociedade. “A ADunicamp, a partir da pandemia, passou a olhar para os movimentos sociais. Nós somos um dos iniciadores da cozinha, e isso nos enche de orgulho.”
Em seguida, deixou abertas as portas da casa e do futuro. “São vários movimentos sociais que nós apoiamos, e vamos continuar apoiando, buscando outros movimentos para que a gente possa apoiar também. Sejam sempre todos e todas muito bem-vindos na ADunicamp. Contem conosco como parceiros.”
A mesa onde cabem muitos
Se houve uma imagem simbólica naquela manhã, ela foi lembrada por padre Antônio Rodrigues Alves, da Paróquia São Marcos e presidente da Associação Cozinha Solidária São Marcos. Ao falar da trajetória construída coletivamente, ele recordou o que parecia improvável nos dias duros da pandemia. “Quem diria que, da pandemia, nós teríamos um momento em que todos, ou pelo menos grande parte dos movimentos populares, movimentos sociais, estaríamos sentados à mesa.”
A mesa a que se referia não era apenas a do alimento. Era a mesa do diálogo, da escuta, da dignidade partilhada.
A Cozinha Solidária São Marcos, importante parceira da ADunicamp, tornou-se referência regional no combate à fome e no acolhimento de famílias vulnerabilizadas. Padre Antônio resumiu sua essência em uma frase que atravessou o auditório. “Na nossa cozinha, nós temos esse lema: a gente não só alimenta o corpo, mas a gente alimenta o espírito e alimenta a resistência.”
Poucas definições traduzem tão bem o papel das iniciativas populares em tempos de crise.
Escutar quem sustenta a cidade
Representando a Diretoria de Parcerias com a Sociedade Civil da Secretaria-Geral da Presidência da República, Eduardo Brasileiro explicou que sua presença em Campinas fazia parte de uma agenda nacional de escuta das organizações sociais. “Estamos fazendo visita para escutar as organizações e também continuar a construção do marco regulatório das organizações da sociedade civil.”
E lembrou algo frequentemente ignorado pelas estruturas formais do Estado. “As organizações, os territórios, as comunidades e os movimentos são parceiros do Estado na construção da sociedade.”
A frase encontrou eco entre os presentes. Porque no Auditório da ADunicamp estavam justamente pessoas que conhecem de perto o que muitas estatísticas não mostram: a fome que bate cedo, a fila do posto de saúde, a ausência de políticas públicas, o racismo cotidiano, a precarização do trabalho, a solidão de quem cuida sozinho.
A cidade que também pede ar
Entre tantas pautas, a questão ambiental também ocupou lugar central. O presidente do Comdema (Conselho Municipal de Meio Ambiente de Campinas), Thiago Lira, destacou os desafios socioambientais do município e a urgência de políticas públicas voltadas à preservação das áreas verdes, ao enfrentamento das mudanças climáticas e à construção de uma cidade mais justa e sustentável.
A presença do tema não foi casual. Em tempos de calor extremo, enchentes, expansão urbana desordenada e perda de áreas naturais, falar de meio ambiente é também falar de saúde, moradia, transporte e desigualdade.
A participação da ADunicamp no Comdema reforça esse compromisso histórico da entidade com a qualidade de vida urbana e com o debate público sobre o futuro de Campinas.
Muitas vozes, uma mesma insistência
Ao longo da manhã, representantes de movimentos de saúde, cultura, agroecologia, assistência social, movimento negro, luta antimanicomial, direitos humanos e segurança alimentar se revezaram ao microfone. Cada fala trazia uma pauta específica, mas todas pareciam convergir para a mesma convicção: nenhuma transformação virá sem participação popular.
Houve denúncias, propostas, memórias e afetos. Houve também o lançamento do livro “O caminho se faz ao caminhar – vol. 2”, publicação ligada ao processo formativo do Núcleo Campinas da Associação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (NC-ABEFC).
Quando uma entidade escolhe seu lugar no mundo
Ao sediar o encontro, a ADunicamp reafirmou algo que atravessa sua história: ser mais do que uma entidade representativa dos docentes da universidade. Ser espaço público, ponte com a sociedade, abrigo para debates urgentes e parceira de quem luta por direitos.
Em tempos de individualismo e desalento, ver tantas pessoas reunidas para pensar coletivamente a cidade e o país é, por si só, uma notícia alentadora.
O evento completo pode ser assistido abaixo ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=0eZdTrkMDlk











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