Apagão de dados de interesse público é prática sistemática na política de informações do governo federal

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O apagão de dados que ocorreu por mais de um mês e ainda mantém instável o sistema de informações do Ministério da Saúde, atribuído a um “ataque hacker” que teria ocorrido em dezembro, foi apenas um ápice no desmonte sistemático de informações oficiais de interesse público que vem ocorrendo desde o início do governo Jair Bolsonaro.

Esse desmonte tem sido denunciado sistematicamente por especialistas e, no caso da saúde, revelou-se como uma estratégia colocada em curso abertamente pelo governo federal desde o início da pandemia da Covid-19.

“Dentro do Ministério da Saúde já havia o precedente de Estados, universidades, instituições de pesquisa, pesquisadores e alguns órgãos de imprensa terem que fazer uma apuração paralela da Covid-19 para lidar justamente com a desconfiança e a tentativa do governo de, no primeiro momento da pandemia, sabotar as informações, não divulgar. Então esse apagão escondido atrás de um “ataque hacker” não tem nenhuma surpresa, porque permite ao governo fazer justamente o que ele vinha fazendo, só que agora com a possibilidade de se isentar da responsabilidade”, avalia Gustavo Tenório Cunha, diretor da ADunicamp, professor do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, com larga experiência em Apoio à Gestão e ênfase em Atenção Básica.

Ele lembra que informações precisas são essenciais para a condução de políticas públicas em todas as áreas da sociedade e se tornam literalmente vitais na área da saúde, de forma especial para o manejo de uma pandemia com a gravidade da Covid-19. “Não sabemos o que realmente está acontecendo no Brasil, ainda mais com essa nova cepa, a Ômicron que tem uma capacidade de transmissão bem mais alta”, afirma o professor.

Os especialistas alertam que, neste exato momento com a explosão de casos sem precedentes da pandemia, as informações são mais preciosas do que nunca, pois o quadro exige a tomada de decisões rápidas.

“O enfrentamento de uma pandemia sem os dados básicos e fundamentais pode ser comparado a dirigir um carro em um nevoeiro, com pouca visibilidade e sem saber o que se pode encontrar adiante. Além disso, vai na contramão de outros países, que passaram a produzir e disponibilizar dados de modo público e transparente para melhor compreender e enfrentar a dinâmica da Covid-19”, avalia o Boletim Extraordinário do Observatório Covid-19, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), lançado em 7 de janeiro, quando já era clara a explosão de novos casos e internações causados pela explosão da variante Ômicron no país.

Sem dados precisos é praticamente impossível a implantação, em tempo adequado, de decisões essenciais para conter o avanço da pandemia, como a abertura de novos leitos, serviços hospitalares e centros de testagem. Bem como identificar o avanço da doença nas diferentes regiões para a tomada de medidas protetivas ou emergenciais e entender os impactos nas diferentes populações.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) avalia que o apagão de dados no Brasil ameaça não só colocar o país em uma nova crise sanitária sem precedentes, mas também impactar países vizinhos, num momento em que as Américas vivem um novo e explosivo ciclo de expansão da Covid-19.

DESMONTE TOTAL

O professor Gustavo aponta que um “apagão de dados essenciais” vem sendo colocado em curso sistematicamente desde o início do governo do presidente Jair Bolsonaro. “Esse apagão atual no Ministério da Saúde não vem isolado de uma política persistente do governo com relação à desinformação. Não podemos esquecer que o governo tentou de todas as formas, e segue efetivando, uma política de destruição do IBGE, de desfinanciamento do IBGE. É um governo que tem afirmado com todos os gestos que não quer que as pessoas tenham acesso às informações”, avalia.

Para Gustavo, há uma tentativa deliberada e permanente de ocultar principalmente as informações que dizem respeito ao coletivo, como os indicadores sociais, econômicos e de saúde. “Então esse apagão não um fato isolado, é um fato conectado com uma política persistente do governo de ataque às universidades, de ataque à pesquisa, à Capes, enfim tudo que possa trazer uma compreensão maior da sociedade em relação à situação do país, à situação social, aos problemas que o país atravessa. Então, sob o ponto de vista da informação, nada de novo, nada diferente da catástrofe planejada que o governo Bolsonaro tem construído”, conclui ele.

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