Exibição do documentário de Dandara Ferreira reuniu docentes, estudantes e integrantes da comunidade na ADunicamp para uma reflexão sobre a pandemia, o negacionismo científico e os riscos da volta do bolsonarismo à Presidência da República
Em um momento decisivo para o futuro da democracia brasileira, marcado pela disputa do segundo turno das eleições presidenciais e pelo risco de retorno do bolsonarismo ao comando do país, a ADunicamp reafirmou a importância da memória, da ciência, da cultura e do debate público como instrumentos fundamentais de reflexão e resistência democrática. Na noite de terça-feira, 13 de outubro, a entidade promoveu a exibição do documentário “Anatomia do Caos”, dirigido por Dandara Ferreira, seguida de uma roda de conversa com a cineasta, que reuniu docentes, estudantes e integrantes da comunidade no Auditório da ADunicamp.
A atividade integrou a programação do CineADu Especial – Trilogia da Memória, iniciativa que reúne três produções brasileiras distribuídas pela Descoloniza Filmes. Mais do que oferecer acesso gratuito ao cinema nacional, a proposta da ADunicamp é estimular a reflexão crítica sobre acontecimentos que marcaram a história recente do Brasil, especialmente em um contexto no qual o negacionismo científico, a desinformação e o avanço da extrema direita voltam a ocupar o centro do debate político.
A escolha de “Anatomia do Caos” para abrir a programação ganhou significado ainda maior diante do atual cenário eleitoral. O documentário recupera os bastidores da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 e expõe aspectos da atuação do governo de Jair Bolsonaro durante a pandemia, período marcado por centenas de milhares de mortes, ataques à ciência e à vacinação e pela disseminação de informações falsas sobre a doença. A presença de Flávio Bolsonaro, então senador e integrante da base de apoio ao governo, também ganha destaque na narrativa, estabelecendo uma relação direta entre os acontecimentos retratados e a atual disputa pela Presidência da República.
A roda de conversa foi aberta pela professora Silvia Gatti, presidenta da ADunicamp, que enalteceu o trabalho desenvolvido por Dandara Ferreira e destacou a relevância histórica, científica e social do documentário. Ao reconhecer a coragem e a dedicação da cineasta, Silvia ressaltou a importância de preservar os registros daquele período e de valorizar produções culturais que contribuem para a compreensão da realidade brasileira.
A mediação do encontro foi conduzida pelo professor Luiz Carlos Dias, do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, que contextualizou os acontecimentos retratados no filme, apresentou reflexões sobre os impactos da pandemia e conduziu o diálogo entre a diretora e o público.
“Cinema também é fazer política”, afirma Dandara Ferreira
Durante a conversa, Dandara Ferreira destacou a importância de apresentar o documentário em uma universidade pública, espaço de produção do conhecimento científico e de defesa da educação. Para a diretora, a realização da sessão na ADunicamp, especialmente às vésperas do segundo turno das eleições, reforçou o papel do cinema como instrumento de intervenção no debate público.
“Que alegria estar aqui hoje, justamente de estar na Unicamp, numa universidade pública, nesse espaço justamente da ciência”, afirmou. Ao comentar a gravidade dos acontecimentos apresentados no documentário, acrescentou que a produção poderia até ser classificada como um filme de terror, tamanha a dimensão das situações registradas.
Dandara explicou que a ideia de produzir “Anatomia do Caos” surgiu durante a pandemia, motivada pela indignação diante das imagens de sofrimento da população, especialmente durante a crise sanitária em Manaus. A instalação da CPI da Covid-19, no Senado Federal, despertou na cineasta a necessidade de documentar os acontecimentos enquanto ainda estavam em curso.
Sem uma grande equipe de filmagem, a diretora passou a acompanhar presencialmente as sessões da comissão, registrando depoimentos, movimentações políticas e, principalmente, situações que aconteciam fora do alcance das câmeras oficiais. Sua estratégia foi concentrar o trabalho nos bastidores, utilizando uma câmera pequena e discreta, que lhe permitiu acompanhar momentos de interação entre parlamentares e outros personagens envolvidos nas investigações.
A diretora relatou que o processo de construção do documentário foi longo e complexo. Foram aproximadamente quatro anos de montagem, pesquisa e seleção de imagens, em um trabalho que exigiu revisitar repetidamente os acontecimentos da pandemia. Segundo ela, o primeiro corte chegou a ter cinco horas de duração, antes de sucessivas edições que resultaram na versão apresentada ao público.
O filme, inicialmente pensado para chegar às telas nas eleições de 2022, acabou sendo concluído em um momento que, na avaliação da cineasta, tornou sua mensagem ainda mais necessária.
“Cada filme sabe o seu momento de nascer. Eu acho que esse filme veio no melhor momento possível. Eu acho que tinha que ser agora mesmo para essas eleições”, declarou.
Ao relacionar o documentário ao cenário político atual, Dandara chamou a atenção para a atuação de Flávio Bolsonaro durante a CPI e para a permanência do bolsonarismo como força política no país.
“Acho que é importante porque também um dos personagens daqui é o Flávio Bolsonaro, que ali é uma continuação do pai. E ali, justamente, ele representava o bolsonarismo, a continuação do bolsonarismo”, afirmou.
Para a cineasta, as imagens registradas ajudam a compreender a postura de integrantes do governo e de seus aliados diante da tragédia sanitária. Ela destacou, particularmente, as manifestações de deboche e a banalização das mortes observadas durante as investigações.
“Para mim, aquela risada dele de deboche, aquela risada é muito chocante. Que foi praticamente o que eles fizeram nesse período todo. A questão da banalização da morte, desrespeito com as pessoas que estavam com falta de ar”, afirmou.
Dandara também ressaltou que o documentário não pretende atribuir a uma única pessoa a responsabilidade por todas as mortes provocadas pela pandemia, mas evidenciar as consequências das decisões políticas adotadas naquele período.
“Se a gente tivesse um governo comprometido, boa parte dessas mortes teriam sido evitadas”, declarou, ao defender a necessidade de responsabilização política e de preservação da memória sobre o que aconteceu no Brasil.
Participação do público amplia debate sobre memória, negacionismo e democracia
A roda de conversa contou com participação do público, que apresentou perguntas, compartilhou experiências e manifestou preocupação com o avanço da extrema direita e os riscos de repetição dos acontecimentos vividos durante a pandemia. Entre os temas abordados estiveram o negacionismo científico, a importância da memória histórica e a necessidade de ampliar a circulação do documentário.
Docentes da Unicamp destacaram o impacto emocional da produção e defenderam novas exibições, especialmente para estudantes e profissionais da saúde. Também foram apresentadas sugestões para divulgar trechos do filme nas redes sociais, buscando alcançar públicos que ainda desconhecem os acontecimentos retratados.
Ao comentar a importância do documentário para as futuras gerações, Dandara ressaltou: “Eu sempre falei muito que esse é um filme de memória e justiça. Mas a memória não é só questão de a gente relembrar o passado. Acho que a gente está falando de memória sobre futuro também.”
A diretora também compartilhou experiências de exibições em outras cidades, nas quais espectadores relataram mudanças na percepção sobre a condução da pandemia. Para Dandara, esses relatos demonstram o potencial do cinema de ultrapassar barreiras políticas, provocar reflexões e contribuir para a compreensão crítica da história recente do país.
Documentário será disponibilizado gratuitamente na internet
Durante o encontro, Dandara anunciou que “Anatomia do Caos” será disponibilizado gratuitamente no YouTube a partir de sexta-feira, 16 de outubro (veja aqui), às 19h, permanecendo acessível até o encerramento das eleições presidenciais. A decisão foi tomada mesmo diante de negociações avançadas com uma grande plataforma de streaming, priorizando o acesso público ao filme no atual contexto político.
“Não vai fazer sentido se esse filme não for visto agora”, afirmou a cineasta, reforçando a urgência de ampliar a circulação da produção e estimular o debate sobre a pandemia, a responsabilidade política e a preservação da memória.
Dandara também destacou as dificuldades enfrentadas para financiar e concluir o documentário, que exigiu quatro anos de trabalho e investimento de recursos próprios. Apesar dos obstáculos, afirmou que a necessidade de registrar aquele período histórico foi fundamental para levar o projeto adiante.
ADunicamp reafirma compromisso com a ciência, a cultura e a memória
No encerramento da atividade, a professora Silvia Gatti voltou a destacar a relevância do trabalho realizado por Dandara Ferreira e a importância de valorizar artistas e cineastas que assumem o compromisso de documentar acontecimentos fundamentais para a sociedade.
Silvia também compartilhou reflexões sobre a pandemia, a defesa do conhecimento científico e a necessidade de impedir que o país volte a enfrentar uma tragédia sanitária agravada pelo negacionismo e pela ausência de políticas públicas comprometidas com a vida.
Ao agradecer a presença da diretora, reafirmou a disposição da ADunicamp de contribuir para a divulgação do documentário e para a ampliação dos espaços de debate sobre o tema.
A sessão de “Anatomia do Caos” reafirmou o papel da ADunicamp como espaço de encontro entre universidade e sociedade, de valorização da produção cultural brasileira e de defesa permanente da ciência, da educação pública e da democracia. Em um período de decisões políticas fundamentais para o país, a atividade demonstrou que preservar a memória é também uma forma de enfrentar a desinformação, combater o negacionismo e contribuir para a construção de um futuro democrático.
CineADu Especial continua com mais duas exibições gratuitas
A programação do CineADu Especial – Trilogia da Memória prossegue com mais duas produções brasileiras, ambas com entrada gratuita e sessões às 19h, no Auditório da ADunicamp.
Nesta quarta-feira, 14 de outubro, será exibido “A Fabulosa Máquina do Tempo”, dirigido por Eliza Capai.
Encerrando a programação, no dia 23 de outubro (sexta-feira), será a vez de “Não Existe Almoço Grátis”, dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel.
As três produções integram a “Trilogia da Memória”, distribuída pela Descoloniza Filmes, que propõe reflexões sobre a importância de preservar a história, enfrentar os apagamentos e compreender como as experiências do passado continuam presentes nas disputas e nos desafios da sociedade brasileira.
A ADunicamp convida toda a comunidade universitária e a população de Campinas e região a participar das próximas sessões. A programação é gratuita e aberta ao público, reforçando o compromisso da entidade com a democratização do acesso à cultura, a valorização do cinema brasileiro e a promoção de debates fundamentais para a sociedade.









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