Centrais sindicais ressignificam o 9 de Julho como Dia da Luta Operária e celebram a memória da classe trabalhadora


A memória das lutas históricas da classe trabalhadora foi o eixo central da 9ª edição do Dia da Luta Operária, realizada em São Paulo. Promovido pelas principais centrais sindicais brasileiras e entidades parceiras, o evento ressignifica o 9 de Julho como um marco da resistência operária, resgatando a memória da Greve Geral de 1917 e do operário anarquista José Martínez, assassinado pela repressão policial em 9 de julho daquele ano. Sua morte desencadeou uma das maiores mobilizações operárias da história do Brasil. A data foi instituída a partir da Lei Municipal nº 16.634, de 2017, de autoria do então vereador Antonio Donato (PT).

Ao ressignificar a data, tradicionalmente associada à Revolução Constitucionalista de 1932, a iniciativa busca valorizar a história das lutas populares e reafirmar o protagonismo da classe trabalhadora na conquista de direitos sociais, trabalhistas e democráticos.

Realizado na sede do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados (SindPD), no centro da capital paulista, o encontro reuniu dirigentes sindicais, representantes de movimentos sociais, pesquisadores e entidades comprometidas com a preservação da memória do movimento sindical. A atividade foi organizada conjuntamente pelas centrais CUT, CTB, Força Sindical, UGT, CSB, NCST, Pública, CSP-Conlutas, Intersindical Central da Classe Trabalhadora e Intersindical Instrumento de Luta, com apoio do Centro de Memória Sindical, da Oboré, do IIEP (Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisa) e do gabinete do deputado estadual Antonio Donato. Um dos momentos mais marcantes da cerimônia foi a entrega do Troféu José Martínez, concedido a personalidades que dedicaram suas trajetórias à organização da classe trabalhadora, à defesa da democracia e dos direitos sociais.

Entre os homenageados em vida estiveram o ex-deputado e dirigente sindical Aurélio Peres, referência na resistência à ditadura militar, e a cartunista Laerte Coutinho, reconhecida por sua contribuição à comunicação sindical e à luta pela democratização do país.

A filha e outros familiares receberam por Aurélio, com saúde debilitada, o troféu e homenagens

A cerimônia também prestou homenagens in memoriam a importantes lideranças do movimento sindical e popular brasileiro.

Foi lembrada Nair Goulart (1951–2016), primeira mulher a integrar a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e a ocupar a Secretaria de Mulheres da Força Sindical. Seu filho, Thiago, recebeu a homenagem das mãos de Ricardo Patah (UGT).

Também foi homenageado Rubens Romano (1930–2022), histórico presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo e um dos fundadores da Força Sindical, lembrado por sua atuação em defesa da unidade do movimento sindical. A homenagem foi conduzida por Renato Zulato (CUT).

Outro momento de grande emoção foi a homenagem a Waldemar Rossi (1933–2016) e Célia Rossi (1941–2022), referências da oposição sindical metalúrgica, da educação popular e das Comunidades Eclesiais de Base. Familiares recordaram a trajetória do casal, destacando o episódio em que Waldemar denunciou ao papa João Paulo II, durante sua visita ao Brasil, em 1980, a prática sistemática da tortura pela ditadura militar.

A cerimônia também reverenciou a memória de Paulo Frateschi (1950–2025), sindicalista, fundador do Partido dos Trabalhadores e defensor histórico da democracia. O ex-deputado Adriano Diogo relembrou o período em que ambos estiveram presos no DOPS durante a ditadura militar.

Encerrando as homenagens, foi lembrado Idibal Piveta (1931–2023), advogado de dezenas de presos políticos e militante da cultura popular que, sob o pseudônimo de César Vieira, fundou e dirigiu o Teatro União e Olho Vivo, levando teatro e formação política às periferias brasileiras.

Mais do que reverenciar trajetórias individuais, o encontro reafirmou que a memória constitui um patrimônio político da classe trabalhadora. Os debates destacaram a atualidade de pautas históricas como a redução da jornada de trabalho, o enfrentamento à precarização das relações laborais, a defesa das liberdades democráticas e da organização sindical, estabelecendo uma ponte entre a luta pelas oito horas de trabalho, iniciada em Chicago em 1886, a Greve Geral de 1917 e as mobilizações contemporâneas pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada para 40 horas semanais.

A ADunicamp também esteve presente na atividade, representada pela professora Regina Célia da Silva, diretora da entidade. A participação reforça o compromisso da associação com a valorização da memória das lutas da classe trabalhadora, a defesa da democracia, dos direitos sociais e do fortalecimento da organização sindical, princípios que dialogam com a trajetória histórica do movimento docente.

Ao completar sua nona edição, o Dia da Luta Operária consolida-se como um importante espaço de preservação da memória, formação política e construção da unidade entre as centrais sindicais. Em um contexto de constantes ataques aos direitos sociais, reafirmar a história das lutas operárias significa fortalecer a identidade coletiva da classe trabalhadora e renovar o compromisso com as conquistas do presente e os desafios do futuro. Afinal, preservar a memória é também disputar os sentidos da história e afirmar que os direitos conquistados pela organização coletiva permanecem vivos como referência para as lutas das novas gerações.


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