CRUESP PROMETE DIÁLOGO FUTURO, MAS HISTÓRICO MOSTRA AUSÊNCIA DE NEGOCIAÇÃO APÓS A DATA-BASE


A nota divulgada pelo Cruesp em 29 de maio (leia aqui) não responde ao principal problema da campanha salarial de 2026: a falta de disposição dos reitores para negociar. Depois de apresentar uma proposta insuficiente e rejeitar qualquer debate sério sobre recomposição das perdas salariais, o Conselho de Reitores agora tenta transformar uma promessa vaga de discussão futura em prova de diálogo. Para docentes e servidoras(es) técnico-administrativas(os), porém, a realidade é clara: a data-base segue sem acordo e a greve é resultado direto da intransigência do Cruesp.

Historicamente, a promessa de retomar discussões salariais ao longo do ano, após a data-base, nunca se concretizou. Em diversos exercícios anteriores, mesmo diante da evolução positiva da arrecadação do ICMS, o Conselho de Reitores não voltou à mesa com o Fórum das Seis para discutir reajustes complementares ou medidas de recuperação salarial. Na prática, os índices definidos na data-base acabaram sendo os únicos aplicados ao longo do ano.

Por isso, a mobilização e a greve em curso não têm como objetivo antecipar uma negociação futura. O que está em pauta é a reabertura imediata de negociações efetivas dentro de uma data-base que não foi encerrada em comum acordo entre as partes. O Fórum das Seis não concordou com a proposta apresentada pelo Cruesp e continua reivindicando avanços concretos.

Enquanto o Cruesp mantém a proposta de reajuste de 3,47%, considerada insuficiente pelas entidades representativas, o Fórum das Seis reivindica 7,52%, índice composto pela reposição da inflação medida pelo IPCA (4,39%) e mais 3% de recomposição das perdas salariais acumuladas nos últimos anos. A proposta foi inicialmente defendida e aprovada pela assembleia de docentes da ADunicamp, realizada em 6 de maio de 2026, e posteriormente apresentada ao Fórum das Seis, que deliberou por incorporá-la à pauta e levá-la à mesa de negociação com o Cruesp.

A greve também expressa a convergência das reivindicações das diferentes categorias das universidades. Enquanto docentes e servidoras(es) técnico-administrativas(os) lutam pela recuperação salarial e pela valorização do trabalho, estudantes das três universidades estaduais paulistas também estão em greve, reivindicando o fortalecimento das políticas de permanência estudantil. A mobilização conjunta evidencia que a crise enfrentada pelas universidades não se limita aos salários, mas atinge as condições de trabalho, estudo e permanência, diante da falta de respostas efetivas por parte das administrações universitárias e do Cruesp.

DISCURSO DE CRISE PARA JUSTIFICAR ARROCHO SALARIAL

Desde o início das negociações, a postura adotada pelo Conselho de Reitores foi marcada por um discurso excessivamente pessimista sobre as perspectivas financeiras das universidades. Já na primeira reunião de negociação da data-base, ocorrida em 4 de maio de 2026, os representantes técnicos das três universidades apresentaram projeções conservadoras para a arrecadação da quota-parte estadual do ICMS em 2026. O técnico da USP chegou a afirmar que a arrecadação deve apenas alcançar o valor previsto na Lei Orçamentária (R$ 187 bilhões), enquanto os representantes da Unesp e da Unicamp avaliaram que nem mesmo esse patamar seria atingido.

A partir dessas projeções, a presidente do Cruesp, professora Maysa Furlan, reitora da Unesp, defendeu uma postura “conservadora”, argumentando que os orçamentos da Unesp e da Unicamp já apresentam déficits previstos para 2026. Na sequência, apresentou uma proposta inicial de apenas 2% de reajuste salarial.

A reação das entidades foi imediata. Representantes do Fórum das Seis questionaram o significado dessa suposta postura conservadora. Afinal, conservar o quê? O arrocho salarial? A perda do poder de compra? A precarização das condições de trabalho? Para as entidades, uma política verdadeiramente responsável deveria combinar a defesa do financiamento das universidades públicas com a valorização de suas(seus) trabalhadoras(es).

As entidades também destacaram que o debate não pode ficar restrito a projeções financeiras elaboradas pelos técnicos das administrações. A realidade vivida por docentes e servidoras(es) técnico-administrativas(os) é marcada pelo endividamento crescente, pelo adoecimento decorrente da sobrecarga de trabalho e pela corrosão salarial acumulada ao longo de anos sem uma política consistente de recuperação das perdas.

Após a pressão exercida pelo Fórum das Seis, os reitores elevaram a proposta para um percentual próximo da inflação estimada pelo IPC-Fipe (3,47%). Ainda assim, mantiveram a recusa em discutir qualquer medida concreta de recomposição salarial.

O centro da divergência permanece exatamente aí. O Fórum das Seis reivindica que o Cruesp assuma um compromisso efetivo com a recuperação das perdas acumuladas ao longo dos últimos anos. Estudos apresentados pelas entidades apontam que os salários ainda estão distantes do poder de compra registrado em maio de 2012. A defasagem estimada alcança 15,97%, sem considerar a inflação de maio.

Diante desse quadro, a nota do Cruesp não esclarece o principal ponto da campanha salarial: quando, afinal, ocorrerá a negociação que os reitores dizem querer manter aberta? A experiência demonstra que promessas de discutir salários “mais adiante”, quando houver melhores condições econômicas, nunca se transformaram em reajustes complementares ou políticas efetivas de recuperação salarial.

Por isso, a greve não é uma reivindicação por uma negociação futura. Ela é uma exigência de negociação agora. A data-base de 2026 não foi encerrada em comum acordo entre as partes. O Fórum das Seis segue disposto a negociar, mas o Cruesp continua se recusando a apresentar uma proposta capaz de enfrentar as perdas acumuladas e valorizar quem garante diariamente o funcionamento, a produção científica e a excelência das universidades estaduais paulistas.

Quem abandonou a negociação não foi o Fórum das Seis, que manteve sua disposição de dialogar e apresentou propostas concretas para enfrentar as perdas salariais acumuladas. Foi o Cruesp que escolheu encerrar a discussão sem acordo e sem assumir qualquer compromisso formal de retomada das negociações.

A continuidade da mobilização demonstra que docentes e servidoras(es) técnico-administrativas(os) não aceitam transformar uma promessa vaga de diálogo em substituto da negociação efetiva. Sem avanços concretos, a responsabilidade pela manutenção do conflito recai sobre a postura intransigente adotada pelo Cruesp.


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