ADunicamp recebe a exposição de fotos “A Retreta do Músicos Negros”, de Fernando de Tacca

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Para celebrar o Dia da Consciência Negra, a ADunicamp, a AGB Seção Campinas, a ABMGeo e a DeDH/Unicamp realizarão, de 19 a 25 de novembro de 2022, uma semana de atividades na Unicamp. A programação contará com homenagens ao escritor campineiro Fausto Antônio e com as presenças do professor Achille Mbembe e do cineasta Raoul Peck (confira a programação aqui). No auditório da ADunicamp, entre as várias atividades, destaca-se a exposição de fotos “A Retreta do Músicos Negros”, de Fernando de Tacca, professor do Instituto de Artes (IA/Unicamp).

O ensaio retrata a história da Corporação Musical Campineira dos Homens de Cor e baseia-se em “dois marcos em busca da identidade do grupo: negritude/musicalidade e corpo/instrumento. Um retrato da extensão metonímica e íntima entre o corpo e o instrumento; entre cultura e paixão musical”, como destaca Tacca no texto abaixo, que fala sobre a exposição.

O trabalho foi realizado em 1992, como resultado do Prêmio Estímulo da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Campinas. Na ADunicamp, a exposição será aberta ao público a partir do dia 25 de novembro, no auditório da entidade, situado à Avenida Érico Veríssimo, 1749, dentro do campus da Unicamp em Barão Geral/Campinas-SP.

A Retreta do Músicos Negros
Por Fernando de Tacca

Em 1933, na cidade de Campinas existia somente uma banda, a Corporação Musical Ítalo-Brasileira (fundada em 1985) e depois chamada de Banda Carlos Gomes.  Essa banda não aceitava músicos negros em suas fileiras. Nesse mesmo ano, um grupo de músicos negros fundou a Corporação Musical Campineira dos Homens de Cor.

Todas as semanas, na Rua Luzitana, no.127, eles se reúnem cerimoniosamente para conversar sobre suas vidas, suas famílias, suas angústias, suas dificuldades e seu passado. Eles se reúnem para ensaiar músicas que tocarão como banda, mesmo que não haja shows agendados. Todas as semanas eles ensaiam músicas que todos conhecem e tocam desde tempos iniciais da banda.

Considerados por Darcy Ribeiro como povos transplantados, os negros foram trazidos da África para a América a partir do século XVI como escravos para o trabalho braçal. Eles vieram de diferentes regiões e falavam línguas diferentes. Foram jogados e amontoados em navios negreiros e depois levados para as fazendas escravocratas para viver em condições subumanas. Sua própria diversidade e fragmentação cultural os forçaram a aceitar padrões culturais impostos pela classe dominante, os europeus brancos. Eles aprenderam a língua deste último e acabaram, em muitos lugares do Brasil, perdendo sua identidade original. A aculturação cortou seus valores tradicionais, roubando-lhes a memória. No entanto, o imaginário África prevalece até hoje.

Em várias regiões do país, a inteligência marcada pela sobrevivência cultural criou um sincretismo religioso que propiciou a continuidade ao longo dos séculos de escravidão até hoje de uma religião afro-brasileira que preserva as vozes dos orixás, bem como a musicalidade rítmica de seus tambores.

A assimilação dos valores dominantes deveu-se em maior ou menor grau ao ciclo econômico, em que os negros se encontravam. Campinas, antiga vila de São Carlos, cresceu principalmente devido ao ciclo do café, período que coincidiu com a abolição da escravatura. Como se sabe, nos anos anteriores ao fim da escravidão, o fluxo de escravos diminuiu consideravelmente, e, nesse mesmo período, ocorreu a grande onda de imigração italiana. Libertos e abandonados, não eram páreo para competir com a produtividade dos imigrantes europeus, acostumados a vender sua força de trabalho. Os imigrantes assinariam contratos de trabalho e arrendamentos de terras muito mais vantajosos. Os negros, rejeitados no campo, migrariam para as cidades para formar o proletariado urbano.

Nesse contexto, sua identidade, já rompida e reelaborada pela escravidão, tornar-se-ia ainda mais diluída no complexo tecido social da modernidade urbana. É nesse cenário que se deve entender a necessidade de músicos negros incorporarem a musicalidade do grupo dominante para criarem seu próprio espaço alternativo, organizado e autônomo.

Hoje, Campinas é uma metrópole, essencialmente uma cidade industrial, na qual são realizadas muitas pesquisas sobre tecnologia de ponta. Paralelamente à atividade intelectual e artística, Campinas preserva práticas típicas das cidades do interior, como inúmeras companhias de reisados que percorrem bairros da periferia nas folias de reis.

Alguns domingos podemos observar em algum coreto uma banda em toda sua elegância, tocando canções populares, marchas, dobrados e sambas. Os músicos são negros, brancos e agora também com presença feminina. A banda tornou-se uma escola musical aberta a qualquer um que queira participar.

Olhos vidrados e hipnotizados pelas notas sombrias da tuba ou pela majestosa regência do maestro não perceberão que entre essas pessoas notáveis circula uma energia histórica tão forte quanto a própria música: sua identidade construída na intimidade do cotidiano. Todas as semanas na rua Luzitana se encontram para conversar, rir, reclamar, relembrar através da música e fazem isso religiosamente há quase 90 anos.

Este ensaio fotográfico é baseado em torno de dois marcos em busca da identidade do grupo: negritude/musicalidade e corpo/instrumento. Um retrato da extensão metonímica e íntima entre o corpo e o instrumento; entre cultura e paixão musical.

A série foi realizada em 1992, como resultado do Prêmio Estímulo da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Campinas.

As fotos:

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