O mito e o fake: o marechal e o ex-capitão

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Por Fernando de Tacca

Para os militares brasileiros, até não muito tempo atrás, a idolatria de um
panteão mitológico era uma questão identitária, formativa. Entre os ditos mitos
militares encontra-se, com muita relevância, Cândido Mariano da Silva Rondon, um
dos poucos marechais de nosso exército.

Rondon, assim como muitos engenheiros militares formados na tradicional
Escola Militar da Praia Vermelha, foi influenciado pela ideologia positivista do filósofo
francês Auguste Comte. No Brasil, no final do século XIX, Benjamin Constant, foi o
seu principal ideólogo, e como militar reconhecido terá muita influência na formação
entre o jovem oficialato dentro da Engenharia Militar. O humanismo positivista irá
perdurar nas altas patentes militares e por muito tempo, já marcada então na própria
bandeira nacional e na Proclamação da República, quando Rondon, como ainda um
recém oficial, e teve uma discreta participação. Entre outros, também da Praia
Vermelha, saíu o escritor militar mais importante da literatura brasileira, Euclides da
Cunha, com aguçada dedicação observacional de campo pautada na ideia positivista de
uma ciência social.

Em 1910, depois de muitos contatos com os povos indígenas na chefia das
comissões telegráficas em expansão para o Oeste, Rondon criou o Serviço de Proteção
ao Índio e Localização do Trabalhador Nacional (SPILTN), renomeado em 1918
somente como SPI. E junto a ele trouxe seus colaboradores militares também
positivistas, como o jovem então tenente Luiz Thomaz Reis. Como o nome mesmo
indica, a ideia de integração das populações indígenas teria na ação do Estado uma
onda civilizatória a percorrer o Brasil profundo e desconhecido. A incorporação de
valores nacionais tinha nas ações de Rondon uma objetividade em manter as
manifestações tradicionais dos povos nativos. Assim, a perspectiva de ocupação
territorial entrou diretamente em choque com os processos de cristianização efetivadas
pelas missões religiosas, principalmente pela ordem dos salesianos.

Meu interesse foi investigar a ampla produção imagética da chamada Comissão
Rondon, e a criação da Seção de Fotografia e Cinematografia, em 1912, pelo Major
Reis, como ficará conhecido. Aqui, somente lembrarei uma larga documentação quando
no comando da Inspetoria de Fronteiras, Rondon organizou uma longa expedição rumo
ao monte Roraima, acompanhado por 180 índios macuxis, com suas mulheres, até a
tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana que resultou no filme “Viagem ao
Monte Roraima” (1927) realizado pelo Major Reis. Rondon sabia da importância
imaginária desse complexo geográfico na tríplice fronteira. No alto do enigmático
monte plantou tríplices bandeiras desses países – a fronteira nacional como lugar de
indígenas brasileiros, uma ocupação simbólica. Essa foto finaliza o referencial livro em
três volumes de Rondon, “Índios do Brasil” (1946; 1953; 1956), com 1555 imagens;
uma publicação épica e historicamente marcante para a construção imagética do índio
como lugar de encontro de três condições: da preservação das tradições e
ancestralidade, ao mesmo tempo um processo de pacificação e de integração à nação. A
frase máxima de Rondon “Morrer se preciso for, matar jamais”, quase o levou a morte
quando cercado por um grupo hostil, uma flecha parou em sua bandolheira e ele teve de
atirar para o alto. Em na farta documentação sobre Rondon, nunca se encontrou
nenhuma situação agressiva de contato com os povos indígenas, ao contrário, era muito
comum Rondon ofertar seu próprio uniforme militar para lideranças guerreiras,
reconhecendo-as e colocando-as no mesmo patamar. As múltiplas acões de Rondon
levaram ao eminente físico Albert Eistein a indicá-lo ao Prêmio Nobel da Paz em 1925.

Enquanto isso, a “ Campaña del Desierto” na Argentina, no final do século
XIX, será o próprio exército, sob comando do General Julio Roca ( futuro presidente da
República Argentina) que irá massacrar e expulsar os povos nativos dos pampas
úmidos, terras férteis, depois distribuída entre as elites oligárquicas e entre os próprios
militares. Não existem registros de ações violentas nos inúmeros contatos que Rondon
teve com os povos indígenas, entretanto, ocorreram em outras situações, quando fora da
ação do SPI, os índios Xocleng foram dizimados por bugreiros – como o significado
indica o índio como parte da natureza e não da cultura; contratados pelas oligarquia
agrária no Oeste catarinense.

Rondon irá divergir da evangelização dos povos indígenas pelas missões
religiosas, com abordagem cultural de destribalização, mudança de hábitos de modo de
produção e perda irreparável de identidades, e contrapor com a presença do Estado e
reforçá-la com seus símbolos. A ação civilizatória do Estado seria lugar do encontro
com o nacional, preservando identidades étnicas e construindo um paradigma de
fronteira a ser guardada pelos índios brasileiros. Não é preciso elencar muitas ações da
importância dos militares na proteção e na ajuda aos povos indígenas, mas lembrar
fatos como a criação do SUSA – Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas (1956-1973),
na figura do médico sanitarista Noel Nutels, que sempre teve como apoio a logística
operacional da Aeronáutica.

Assim, e desde aí, quando hoje, pastores propondo evangelização de povos
isolados, militares, policiais federais e PMs, e ex-policiais, desqualificados, assumem o
mando na FUNAI indigenistas de larga experiência são rebaixados, desprestigiados,
atacados e mortos, o princípio rondoniano, como lugar de mito histórico, perde lugar no
panteão idolátrico dos militares. O desmonte da FUNAI começou após o impeachment
de Dilma Roussef, com Michel Temer no poder, e foi acentuado vertiginosamente com
o atual presidente e seus interesses particulares.

Hoje, quando esses militares bolsonaristas envolvidos no atual desgoverno,
olharem-se no espelho ( “espelho espelho meu….) e procurarem sua identidade no
mitológico marechal encontrarão somente um fake mito, um ex-capitão, expulso do
exército, inepto e solapador das instituições democráticas. E caso o marechal ainda
assim resolva aparecer, especularmente, poderá se ouvir uma voz longínqua clamando:
“dignifiquem-se, senhores”!

Ou melhor, talvez já seja tarde, e o que ouvirão, e desde uma voz muito alta e clara
será: “envergonhem-se, senhores”!

Fernando de Tacca é fotógrafo, antropólogo, professor livre docente da Unicamp e entre
outros livros é autor de “A Imagética da Comissão Rondon” (Papirus; 1999)

As opiniões expressas nos textos assinados são de total responsabilidade do(a)s autore(a)s
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