Prof. Marcio L. de Souza-Santos (FEM) | Sobre Greves

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[box type=”info”]Divulgado por solicitação do Prof. Marcio L. de Souza-Santos (FEM), na condição de sindicalizado. O conteúdo do texto não reflete necessariamente a posição da ADunicamp, de sua Diretoria ou de qualquer outra instância da entidade. Toda e qualquer responsabilidade por afirmações e juízos emitidos cabe unicamente ao autor do texto.[/box]
Tenho visto várias mensagens, incluindo pedidos de abaixo-assinados declarando a recente greve de docente como “política”.
 
Vamos nos debruçar um pouco sobre o assunto.
 
O que se quer dizer com “greve política”? Obviamente, dependendo do ponto-de-vista ideológico, as repostas serão muito diferentes.
 
Quando trabalhadores reivindicam melhores salários, ou ao menos reposições devido a perdas causadas por inflações, estão lutando contra a Política Salarial da empresa ou instituição em que são empregados. Assim, mesmo greves por salários ou contra corrosões dos mesmos, são políticas!
 
É o que ocorre no momento na greve dos docentes. Lutam para não ver seus salários delapidados e nesse sentido também lutam para a preservação do quadro docente e de pesquisadores na universidade.
 
Tenho relatado a vários minha experiência como professor na Politécnica da USP durante os anos 70 e 80, onde a inflação forçou que muitos aceitassem ofertas de empresas privadas e mesmo de instituições no exterior e assim, deixassem seus cargos naquela universidade. A USP perdeu centenas de talentos devido ao simples processo de não reposição das perdas por inflação e isso deixou marcar que até hoje não foram eliminadas. Eu mesmo, aceitei uma posição no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), pois não estava mais conseguindo sequer pagar contas básicas. Depois o mesmo processo continuou naquele instituto. Eu dirigia um grupo de 50 pesquisadores e no prazo de dois anos, o mesmo grupo ficou reduzido a dez. Acabei, por fim, aceitando o convite de um instituto de pesquisas em Chicago.
 
Durante os governos federais e até início dos 2000, as universidades federais sofreram terríveis drenagens de talentos, também pelo simples mecanismo de não reposição de perdas inflacionárias.
 
Temos continuado a ver o mesmo processo de desmantelamento nas universidades estaduais de São Paulo. Todo ano se repete o mesmo dramático quadro. Docentes e funcionários tendo que decretar paralisações para defender seus salários e nesse processo, defender também a universidade pública e gratuita.
 
Ao perguntar a um colega porque classifica que se opõe ao atual movimento dos docentes por declará-lo “político”, esse respondeu que viu um ou alguns cartazes com dizeres “abaixo o Golpe” entre os grevistas. Entretanto, a greve declarada pela ADUNICAMP não teve como motivação o Golpe ou Impeachment, como querem alguns. A motivação foi e é evitar a corrosão dos salários, e essa é plenamente justificável. Se alguns aproveitam o momento para colocar suas desaprovações sobre outras matérias, é apenas uma opção, não a motivação fundamental do movimento.
 
Lembro que ao tempo da famigerada Ditadura Militar, toda greve por salários era rapidamente qualificada como “política”, pois isso mostrava as trincas do poder. Certamente, se opunham às políticas salariais, e nesse sentido Políticas. Novamente, toda greve é política. Opõem-se às políticas de desprezo do trabalho, são contrárias às políticas de corrosões dos salários, rebelam-se contra a política de deterioração do quadro de capacidades nas universidades e outras instituições. São, sim, greves políticas!
 
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