notícias/reforma universitária
Documento do Grupo
Interministerial
Introdução
O
presente documento foi elaborado pelo Grupo de Trabalho Interministerial criado
por Decreto de 20 de outubro de 2003, composto por membros da Casa Civil e da
Secretaria-Geral da Presidência da República e dos Ministérios da Ciência e
Tecnologia, do Planejamento. Orçamento e Gestão, da Fazenda e da Educação. e
buscou sugerir idéias para enfrentar a crise atual das universidades federais e
orientar o processo de reforma da universidade brasileira, para fazer dela um
instrumento decisivo da construção do Brasil ao longo do século
XXI.
Ele
é composto de quatro partes. A primeira apresenta o elenco de ações emergenciais
para o enfrentamento imediato da crítica situação das universidades federais. A
segunda ressalta a necessidade da efetiva implantação de autonomia à
universidade federal. A terceira parte aponta para linhas de ação imediato, que
possam complementar recursos e ao mesmo tempo propiciar um redesenho do quadro
atual. A quarta indica as etapas necessárias para a formulação e implanta da
reforma universitária brasileira.
1. Ações
Emergenciais
1.1 A atual situação de crise da educação
superior
A
última década foi de desarticulação do setor público brasileiro; as
universidades federais não foram poupadas. Como em todo o setor público, o
quadro geral das universidades brasileiras é de crise.
De
um lado, as universidades governamentais sofreram a crise fiscal do Estado que
incidem sobre seus recursos humanos, de manutenção e de investimento. De outro
lado, a prioridade ao setor privado em todas as áreas também chegou ao setor do
ensino superior: as universidades privadas, que viveram uma expansão recorde nos
últimos anos, chegando a responder, em 2002, por 63,5% do total de cursos de
graduação e 70% (das matrículas, encontram-se agora ameaçadas pelo risco de uma
inadimplência generalizada do alunado e de uma crescente desconfiança em relação
a seus diplomas).
Essas duas faces de urna mesma realidade demandam
soluções estruturais, possíveis somente se houver: (i) um programa emergencial
de apoio ao ensino superior, especialmente às universidades federais e (ii) uma
reforma universitária mais profunda.
Durante o período inflacionário, ainda foi possível
adiar os impactos mais destrutivos da crise, com a utilização generalizada de
aplicações de recursos orçamentários na ciranda financeiro”. Com a retomada do
controle inflacionário, os problemas de manutenção e de reposição de pessoal não
puderam mais ser ignorados.
A
situação das universidades federais começou a apresentar nítida estagnação. Dois
elementos conseguiram adiar esse quadro de crise: (i) a Gratificação de Estímulo
à Docência (GED), implantada em 1998, que impunha aos professores uma carga
horária mínima em sala de aula, como condição para o recebimento de um adicional
importante em sua remuneração; e (ii) a chamada Emenda ANDIFES, que estabeleceu
urna compensação orçamentária para as universidades federais pelo fato de não
lhes ter sido repassado, em 1998, o último duodécimo do ano, acréscimo
orçamentário que acabou por se tornar uma prática
recorrente.
A
GED e a Emenda ANDIFES tornaram-se
instrumentos da política governamental para o aumento da oferta de vagas nos
cursos de graduação. Para isso, o governo instrumentalizou a Emenda AND!FES,
modificando a forma de distribuição dos recursos alocados para a manutenção das
universidades federais: aquelas que apresentassem maior expansão da oferta de
vagas na graduação obteriam, segundo a nova matriz de distribuição, mais
recursos de manutenção. No entanto, como tais recursos ‘têm sendo liberados no
final do ano, nem sempre há tempo hábil para viabilizar os gastos necessários, o
que origina um processo de acumulação de dívidas com fornecedores de energia
elétrica, telefone, água, serviços terceirizados como limpeza e
vigilância.
O
quadro e o gráfico a seguir mostram a evolução nos números de alunos e docentes
das universidades federais. Nota-se que, apesar do incremento do número de
alunos, o total de professores reduziu-se
substancialmente.
Quadro 1 – Evolução dos Quadros Docente e Discente das
Universidades Federais
|
Corpo Discente |
1990 |
1994 |
1995 |
1996 |
1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
2001 |
2002 |
|
Alunado |
356.176 |
400.113 |
414.735 |
426.677 |
441.580 |
463.668 |
506.336 |
493.632 |
532.304 |
563.687 |
|
Oferta de Vagas |
68.336 |
92.913 |
91.680 |
97.065 |
102.255 |
105.116 |
131.124 |
134.866 |
112.643 |
115.877 |
|
Docentes Efetivos |
48.416 |
45.243 |
43.115 |
42.411 |
43.150 |
42.766 |
42.985 |
42.619 |
41.716 |
42.363 |
|
Docentes Temporários |
2.010 |
5.183 |
7.311 |
8.015 |
7.276 |
7.660 |
7.441 |
7.807 |
8.710 |
8.063 |
|
Relação...[1]
|
7.06 |
7.93 |
8.22 |
8.46 |
8.76 |
9.2 |
10.04 |
9.79 |
10.56 |
11.18 |
Dados: Censo INEP
2002
Apesar do aumento do número de alunos nas universidades
federais, e também nas instituições públicas municipais e estaduais, o positivo
e alvissareiro crescimento da população com acesso a um curso universitário
provocou uma mudança no perfil da distribuição dos alunos nos setores público e
privado.
Considerando-se o ritmo atual de expansão do sistema,
chegaríamos a 2007 com um total de matrículas de aproximadamente 6 milhões em
todo o setor. Mesmo considerando a proposta da ANDIFES de duplicar o número de
matrículas nas universidades federais, chegaríamos a 2007 com cerca de apenas
26% dos alunos matriculados no ensino público, aumentando ainda mais a distorção
que vem se acentuando nos últimos anos. Para atingir os 40% de universitários
matriculados no setor público determinados pelo Plano Nacional de Educação,
seria preciso chegar a 2,4 milhões de vagas no sistema público, dos quais a
metade no subsistema federal.
A
ampliação do número de vagas e o enfrentamento da crise das universidades
federais requer encaminhamentos tanto emergenciais como estruturais e duradouros. Algumas
ações emergenciais seriam:
a.
Formular e implementar as diretrizes de um plano emergencial para equacionar e
superar o endividamento progressivo junto aos fornecedores, combinado com a
elevação dos recursos para os custos operacionais.
b.
Abrir concursos para preencher as vagas de professores e servidores, originadas
por demissões, aposentadorias e exonerações, não preenchidas ao longo dos
últimos dez anos, e para substituir os professores contratados em caráter
temporário por professores efetivos. Assegurar ainda recursos para cobrir os
déficits em manutenção e investimento.
c.
Outorgar autonomia para garantir às universidades federais o uso mais racional
de recursos, maior eficiência no seu gerenciamento e liberdade para capitar e
aplicar recursos extra-orçamentários, além da autonomia
didático-pedagógica.
d.
Garantir novas vagas: (i) concedendo bolsas de aproveitamento e regionalização
para a contratação de doutores que desejem se dedicar ao magistério,
especialmente nas licenciaturas em física, matemática, biologia, química, nos
locais carentes de pessoal com formação superior, (ii) adotando critérios de
regionalização e interiorização na política de abertura de vagas para concurso.
juntamente com um auxílio para implantação de novas linhas de pesquisa para
esses novos contratados, e (iii) reintegrando aposentados às atividades das
universidades federais, mediante a implementação de um programa especial de
bolsas de excelência.
1 .2 Reposição do
Quadro de Professores
O
quadro 3 indica as metas previstas para a ampliação no quadro de vagas nas
universidades federais até 2007, de maneira a cumprir com a meta de garantir 40%
de participação do setor público no total previsto de alunos do ensino
superior:
QUADRO 3-
COMPROMISSO DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS PARA
AMPLIAÇÃO DE
VAGAS PARA O CORPO DISCENTE ATÉ 2007
|
|
2003 |
2007 |
|
Alunos Matriculados Oferta deVagas no Ano |
600.000
120.000 |
1.200.000
240.000 |
Por
meio de aumento na dedicação à sala de aula, de um maior número de alunos por
turma e sobretudo graças ao esperado uso de técnicas de ensino a distância, será
possível atingir um aumento significativo na relação alunos/docente para os
próximos anos, conforme cenário descrito no quadro 4:
QUADRO 4 -
PREVISÃO DA RELAÇÃO ALUNO/DOCENTE
|
2003 |
2004 |
2005 |
2006 |
2007 |
|
11,9 |
12,5 |
14,5 |
16 |
18 |
Apesar do enorme aumento no número de seus alunos, que
passou, entre 1994 e 2003, de 400 mil para 600 mil matrículas, as universidades
federais dispõem, desde 1994, do mesmo total de postos docentes — 50.426
professores. Porém, esses postos não estão totalmente preenchidos desde 1990.
Para superar tal lacuna, tem sido utilizado o precário instrumento do professor
substituto, na maioria dos casos sem formação adequada e contratados em caráter
provisório, sem vínculo nem estabilidade. As universidades federais contam
atualmente com 8.886 professores substitutos, os quais, juntamente com 41.215
professores do quadro, somam 50.101 professores em exercício. Com base na
previsão da relação aluno/professor, o número ideal de professores para atender
aos 1.200.000 alunos previstos para 2007 seria de 67.000. Portanto, para
corrigir ao mesmo tempo a falta de professores e a substituição dos temporários
por professores permanentes, seria preciso contratar 25.785 professores: 8.886
para substituir os atuais contratados como temporários, 9.211 para completar o
quadro de 50.426 vagas, e 7.688 novos professores, necessários para atender ao
aumento de 600 mil para 1,2 milhão de estudantes.
Segundo dados do MEC, a troca dos 8.886 substitutos por
professores mestres, Assistente 1, com Dedicação Exclusiva e Auxiliares com 40
horas, implicaria em um custo anual de R$ 1 93 milhões. Se os demais 16.899
professores fossem contratados pela média dos salários dos professores Adjuntos
e Assistentes com dedicação exclusiva, o custo anual adicional para tal
contratação seria de cerca de R$ 640 milhões. O custo total estaria, portanto,
ao redor de R$ 833 milhões por ano, mas a substituição ofereceria uma redução de
cerca de R$ 100 milhões, o que significa um custo líquido de R$ 733
milhões.
Esse custo, no entanto, só seria alcançado após um
crescimento paulatino. Considerando o cronograma de elevação progressiva no
número de vagas, para 2004 o custo seria de R$ 183 milhões, que aos poucos
cresceria até o limite estimado para 2007.
1 .3 Incorporação do
Potencial de Aposentados e Doutores
a)
Bolsa de Excelência Docente - a deformação do sistema previdenciário brasileiro
é uma das causas da crise das universidades federais. Ao serem autorizadas, ou
mesmo incentivadas, as aposentadorias precoces de professores no auge do seu
potencial, esvaziam-se as universidades públicas em benefício das particulares,
para onde os professores se transferem em troca de um salário complementar. De
fato, com essas aposentadorias, o sistema público vem financiando o sistema
particular. A reforma previdenciária servirá para proteger a universidade desse
esvaziamento, porém induziu, em um primeiro momento, um processo adicional de
aposentadorias. A perda sofrida pelas universidades nos últimos anos, em função
dessas aposentadorias precoces, tem sido devastadora. Para evitar a perda de
tamanho potencial, a solução seria a criação de um programa de bolsas de
excelência docente, que permitisse manter esses professores em atividade
acadêmica nas universidades federais.
b)
Bolsa de aproveitamento e regionalização de doutores — além da irracionalidade
da aposentadoria precoce de professores no auge de sua carreira, o sistema
universitário brasileiro sofre de irracionalidade na outra ponta, ao deixar
desempregados centenas de jovens doutores. Depois de desfrutarem altos
investimentos em sua formação, os doutores ficam desempregados ou são desviados
das funções para as quais se prepararam. Depois de poucos anos, o conhecimento
adquirido é esquecido e superado, e o gosto pela atividade acadêmica perdido. O
país desperdiça os investimentos realizados e aborta carreiras brilhantes. Para
evitar isso, bastaria um programa de bolsas que mantivesse o jovem doutor em
atividade. Ao mesmo tempo, tais bolsas poderiam servir para corrigir a tragédia
da desigualdade regional no desenvolvimento do ensino superior, se orientadas de
modo a atender carências de professores identificadas em algumas regiões ou
carências em determinadas áreas de conhecimento.
Para manter essas bolsas, cálculos do MEC apontam que
seriam necessários anualmente recursos da ordem de R$ 25,2 milhões para
financiar a bolsa de aproveitamento a 700 doutores, e de R$ 36 milhões para
incorporar 1.000 professores aposentados por ano.
1.4 Recomposição do
Quadro de Funcionários Técnicos-Administrativos
Apesar da autorização de
contratação de servidores durante 2003, o quadro de servidores ainda precisa de
recomposição, sobretudo de reorganização. Mas o caso dos servidores
técnicos-administrativos deve ser tratado com mais tempo, ao longo da reforma
mais ampla da universidade.
1.5 Recursos para
Manutenção
O quadro 5 mostra a evolução
dos gastos das universidades federais com manutenção:
QUADRO 5 -
RECURSOS PARA MANUTENÇÃO DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS
|
|
1996 |
1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
2001 |
2002 |
2003 |
|
Execução Orçamentária (em R$
1.000) |
360.000 |
360.000 |
330.000 |
424.523 |
422.389 |
412.668 |
480.668 |
551.645 |
|
Variação % Anual |
|
0 |
-8,33 |
28,64 |
-0,5 |
-2,3 |
16,48 |
14,77 |
A
partir de 1999, no lugar de previsões orçamentárias, os gastos de manutenção das
universidades federais têm sido financiados com recursos provenientes de Emendas
de Parlamentares da Comissão de Educação do Congresso Nacional. A liberação dos
recursos não é feita regularmente, depende de convênios, e tem sido
sistematicamente realizada nos finais de cada ano, o que traz problemas na
execução para todas as universidades federais.
Para enfrentar a emergência e evitar as crises
desgastantes, periódicas e previsíveis, é fundamental o compromisso do Governo
Federal de liberar os recursos no prazo regular, garantindo um bom cronograma de
funcionamento da universidade. Além da incorporação orçamentária do valor da
Emenda, será necessário também aumentar seu valor.
Além da liberação dos R$ 87 milhões referentes à Emenda
ANDIFES, o fechamento do ano de 2003 sem novas dívidas exigiria, segundo o MEC,
uma suplementação de R$ 68 milhões, perfazendo um total de recursos de OCC de R$
619,6 milhões, quando somados aos atuais R$ 551,6 milhões.
Para 2004., foi solicitado um montante para manutenção
das universidades federais de R$ 759 milhões. Esse valor levou em
conta:
• o
executado em 2002, incluindo o constante na LOA acrescido da Emenda
ANDIFES;
• o
que faltou pagar de despesas básicas do ano; e
•
uma correção de 12% nas dotações de 2003 e 2004 para fazer frente à
desvalorização da moeda no período.
O
quadro projetado para os próximos anos prevê uma variação de 22,7% entre 2003 e
2004, em função dos compromissos passados não honrados por quase todas as
instituições, e uma correção anual de 10% a partir de
2005.
QUADRO 6-
CUSTO DE MANUTENÇÃO DAS UNIVERSIDADES
FEDERAIS (em
R$ 1.000,00)
|
2004 |
2005 |
2006 |
2007 |
|
759.000 |
834.900 |
918.390 |
1.010.229 |
O
montante de recursos previsto no Projeto de Lei encaminhado ao Congresso
Nacional para o ano de 2004 é de R$ 557 milhões, faltando assim, segundo o MEC,
R$ 202 milhões para atender às necessidades das
universidades.
1 .6
Investimentos
Há
muito as universidades federais deixaram de contar com um programa específico
para recuperação predial e aquisição de equipamentos para seus laboratórios e
bibliografia para o ensino de graduação. Essa situação tem provocado o
fechamento de laboratórios, desabamento de prédios e degradação de instalações
que, em alguns casos, deixam as universidades federais em clara aparência de
penúria.
O
MEC estimou-se para 2004 o montante de R$ 241 milhões para possibilitar a
recuperação pretendida de equipamentos, além de um aporte anual de R$ 100
milhões para manutenção predial.
Esses recursos não foram contemplados na proposta
orçamentária, o que pode trazer graves problemas ao funcionamento das
universidades. Há casos de instituições nas quais se pode prever um verdadeiro
colapso de funcionamento.
QUADRO 7 -
INVESTIMENTOS PROJETADOS
PARA
RECUPERAR AS UNIVERSiDADES FEDERAIS
(em R$
1.000,00)
|
|
2004 |
|
Equipamento |
241.000 |
|
Construção |
100.000 |
1.7 A
pós-graduação
O
sistema nacional de pós-graduação coordenado pela CAPES tem demonstrado ser uma
das experiências brasileiras de maior sucesso. Entre 1996 e 2001, o número de
cursos de mestrado e doutorado cresceu 85,8%, a mesma proporção de crescimento
no número de alunos matriculados no período, ao passo que o número de titulados
cresceu 76%. Também expressivos são os resultados em relação à expansão
quantitativa e qualitativa da produção científica do País. Na última década, o
Brasil mais do que duplicou sua participação na produção científica mundial. No
período 1994 - 2001, a produção brasileira cresceu 117%: enquanto a mundial
cresceu 15%. Em 1981, o Brasil ocupava a 26ª posição; em 2001 passamos a ocupar
a 18ª posição mundial.
O
Sistema Nacional de Pós-Graduação - SNPG conta com 2.693 cursos de mestrado e
doutorado, e com 105.953 alunos matriculados. A produção discente anual está em
24.493 dissertações de mestrado e 6.894 teses de doutorado (dados de 2002).
Atualmente, a pós-graduação stricto sensu tem 31 mil titulados por ano. Apenas
30% dos matriculados recebem bolsas de estudo das agências federais - CAPES e
CNPq, cujos valores foram congelados em 1994. No final de 2003 foi concedido o
primeiro aumento, em quase dez anos, para os bolsistas na Europa, e uma
complementação para todos os demais.
Ao
longo dos últimos oito anos, a Capes teve seu orçamento praticamente inalterado,
enquanto o número de alunos do Sistema Nacional de Pós-Graduação cresceu a uma
taxa anual de 11,2%, no que se refere ao número de matrículas, e de 8,6% no que
se refere ao total de cursos.
Essas restrições orçamentárias forçaram o congelamento,
desde 1994, dos valores das bolsas de estudo no País, mestrado e doutorado -
respectivamente R$ 724,52 e R$ 1.072,89, apesar de uma inflação de 102,4% no
período. Tal situação tem causado prejuízos no desempenho dos bolsistas, de quem
é exigida dedicação integral aos estudos e à pesquisa. Na verdade, essa situação
tem-se agravado, estando a Capes submetida à forte pressão das entidades
docentes e discentes de pós-graduação, que buscam, com a correção dos valores
das bolsas, evitar que os alunos sejam forçados a exercer atividades não
relacionadas com seus estudos, para complementação de renda. Teme-se, portanto,
pela queda na qualidade da formação de mestres e doutores e na produtividade do
SNPG como um todo.
A
insuficiência de recursos orçamentários tem impedido a Capes de promover ajuste
nos valores de bolsas e de expandir sua oferta. No início da década de noventa,
atendia-se cerca de 40% do universo de alunos matriculados; hoje, são apenas 20%
desse total, o que torna menos atrativo esse nível de ensino e gera enormes
prejuízos para o desenvolvimento do País. Essa situação é mais grave nas regiões
Norte, Nordeste e Centro-Oeste, exceto Distrito Federal, que necessitam
consolidar seus sistemas estaduais de apoio à Ciência e Tecnologia. Em adição, é
patente a falta de mestres e doutores para áreas estratégicas, como por exemplo
a formação de professores de ensino fundamental e médio nas áreas de português,
matemática e ciências.
Apesar de possuir e mobilizar um conjunto significativo
de instituições executoras de pesquisa e desenvolvimento, há necessidade de se
garantir bases estáveis de planejamento tecnológico, promovendo ajustes na base
técnico-científica existente, principalmente no segmento acadêmico. Só assim
pode-se manter um processo contínuo de formação de mestres e doutores que possam
atender áreas de relevância econômica, social e estratégica, ainda insuficientes
em vista dos novos desafios dos setores de produção industrial, agricultura,
agronegócios e serviços.
Para retomar a dinâmica do sistema de pós-graduação, de
acordo com o MEC, seria necessário tanto um aumento de 20% no número de
bolsistas, quanto uma elevação de 20% no valor das bolsas, congeladas há oito
anos. Essas duas elevações exigirão recursos adicionais de R$ 195 milhões, além
dos R$ 295,8 milhões gastos atualmente.
1 .8 O custo da
emergência
A
continuação do atual quadro de emergência provocará, inevitavelmente, a tragédia
do esvaziamento, degradação e desarticulação do excelente sistema montado nas
universidades federais brasileiras. No futuro, essa tragédia de desenvolvimento
do País se transformará em crime, na visão dos historiadores. Não será difícil
localizar nos anos anteriores a causa inicial desse processo, mas será sobre os
ombros do atual e próximos governos que mais pesará a responsabilidade da
correção do rumo e recuperação das universidades federais.
QUADRO 8 -
CUSTO FINANCEIRO PARA ENFRENTAR A EMERGÊNCIA DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS E DOBRAR
O NÚMERO DEALUNOS
(EM R$
1.000,00)
|
|
2004 |
2007 |
|
Completar
quadro de professores |
183.000 |
733.000 |
|
Incorporar
potencial de aposentados e doutores |
61.000 |
61 .000 |
|
Manutenção |
202.000 |
808.000 |
|
Investimento* |
341.000 |
- - - |
|
Pós-graduação |
195.000 |
195.000 |
*Consideram-se apenas os
recursos necessários para a emergência, sem levar em conta os investimentos
adicionais para dar uma nova dinâmica à universidade.
Parar evitar esse custo trágico, o MEC estima que o
setor público brasileiro precisaria arcar, nos próximos anos, com um custo
financeiro em torno dos R$ 982 milhões por ano, a partir de 2004, chegando a R$
1.797 milhões em 2007. Com esse
custo, teremos recuperado o sistema, dado-lhe outra dinâmica, dobrado o número
de alunos, elevado sua produção
2. A Autonomia das
Universidades Federais
Se,
por um lado, a gravidade da crise emergencial das universidades está na falta de
recursos financeiros do setor público, não se pode negar que, por outro lado, a
crise decorre também das amarras legais que impedem cada universidade de captar
e administrar recursos, definir prioridades e estruturas de gastos e
planejamento. Por isso, a imediata garantia de autonomia às universidades é um
passo necessário para enfrentar a emergência.
A
autonomia deve conferir à universidade, de forma participativa e transparente,
competência para dispor sobre sua organização administrativa, suas questões
financeiras e suas políticas em matéria, sem interferência de outros órgãos do
Governo, nos limites constitucionais. A relação com o Governo e o Estado se
daria no momento de sua avaliação, quanto aos aspectos da boa gerência, feita
pelo TCU, e pelo Sistema Nacional de Avaliação e Progresso do Ensino Superior do
MEC.
2.1 Autonomia
didático-científica
A
autonomia didático-científica confere à universidade, sob a égide do pluralismo
de idéias, o direito à liberdade do ensino e de comunicação do pensamento. No
âmbito da autonomia didática estariam: o direito de organizar ensino, pesquisa e
extensão, de criar e extinguir cursos, de elaborar e estabelecer currículos para
a graduação e pós-graduação, de estabelecer critérios de acesso de alunos em
todos os níveis e de conferir certificados e diplomas.
A
autonomia científica se refletiria na organização da universidade, assegurando
autonomia organizacional referente ao desenvolvimento das disciplinas
científicas. A autonomia científica possibilitaria à universidade, por exemplo,
desenvolver pesquisas que não possuíssem imediata relevância política ou
econômica. Entretanto, pelo Sistema Nacional de Avaliação e Progresso, o MEC
daria o reconhecimento social às universidades comprometidas em realizar
pesquisas voltadas para a solução dos problemas brasileiros e para o
desenvolvimento do sistema produtivo nacional e regional. A relação entre
universidades e Estado se dará pelo Sistema Nacional de Avaliação e Progresso do
Ensino Superior, que classificará as instituições e cursos conforme a qualidade
que elas apresentam em suas funções acadêmicas e conforme o cumprimento de seus
compromissos com a sociedade e o País.
2.2 Autonomia
administrativa
A
autonomia administrativa asseguraria à universidade capacidade decisória para,
de um lado, administrar os seus serviços, agindo e resolvendo interna corporis os assuntos de sua
própria competência e, de outro, disciplinar suas relações com os corpos
docente, discente e administrativo que a integram.
As
prerrogativas inerentes à autonomia administrativa seriam:
a.
estabelecer a política geral da universidade para a consecução de seus
objetivos;
b.
elaborar, aprovar e reformar seus estatutos;
c.
elaborar, aprovar e reformar os regimentos de suas unidades e demais
órgãos;
d.
constituir colegiados superiores, com a presença obrigatória de membros da
comunidade externa
e.
escolher seus dirigentes segundo as normas previstas nos seus estatutos e na sua
legislação interna;
f.
contratar, nomear, demitir, exonerar e transferir, servidores docentes e não
docentes, obedecidas as normas legais pertinentes estabelecidas em seus
regimentos e respeitados os direitos dos trabalhadores;
g.
decidir seu plano de carreira;
h.
fixar acordos, contratos, convênios e convenções;
i.
elaborar, aprovar e alterar regulamento próprio para licitação observando as
normas gerais e os princípios básicos estabelecidos em
lei.
No
âmbito da autonomia administrativa, a universidade estaria dotada da capacidade
de se organizar e regulamentar suas próprias
atividades-fim.
2.3 Autonomia de
gestão financeira e patrimonial
A
autonomia financeira outorgaria à universidade o direito de gerir e aplicar seus
próprios bens e recursos, em função de objetivos didáticos, científicos e
culturais já programados. Obviamente, esse aspecto da autonomia universitária
não deve dispensar a universidade dos sistemas de controle interno e
externo.
Com
respeito à autonomia financeira e patrimonial, as universidades federais teriam
seus recursos previstos no orçamento de 2004, acrescidos de recursos do Programa
Emergencial, e os recursos provenientes do Pacto de Educação pelo
Desenvolvimento Inclusivo, descrito adiante. Além disso, elas poderiam captar
recursos livremente, tanto no setor público quanto no setor privado, podendo
administrar esses recursos de acordo com suas normas próprias e estatutos. As
universidades federais prestariam contas ao TCU, quanto ao uso austero e honesto
dos recursos, e ao MEC, no que se refere ao produto obtido, conforme a avaliação
realizada pelo Sistema Nacional de Avaliação e Progresso do Ensino
Superior.
Ao
mesmo tempo, para exercer uma autonomia não-autista, sem isolar-se do povo que a
manteve, as universidades federais precisariam incorporar representações da
sociedade em seus órgãos colegiados.
2.4 Autonomia
participativa e transparente
A
autonomia das universidades federais no uso de seus recursos não pode ser
exercida sem a participação efetiva de sua comunidade nas decisões relativas a
fontes e uso de recursos. A comunidade universitária, nos seus três segmentos,
deve conhecer a priori e participar da decisão que aceite e legitime a fonte e
defina o destino de seus recursos.
2.5 Regulamentação das
relações entre as universidades e as fundações de apoio
Como forma de contornou a falta de autonomia legal, a
partir dos anos 80, as universidades passaram a utilizar fundações de apoio,
contratadas pelos órgãos de controle e pela comunidade. Na realidade de hoje não
é possível prescindir das fundações, que têm um grande papel a cumprir no
funcionamento autônomo das universidades federais, ao mesmo tempo em que se
definem regras claras para o funcionamento delas, pela lisura e transparência.
Nesse sentido, o MEC e o MCT elaboraram uma proposta de regulamentação das
relações entre universidades e fundações de apoio, já em tramitação no Governo,
na forma de proposta de Decreto.
3. Primeiros Passos
para o Redesenho do Quadro Atual