|
Caio Navarro de Toledo*
Dias atrás, o Brasil conheceu um novo herói nacional. Seu nome:
Roberto Marinho.
A quase totalidade da mídia falada e escrita - através de depoimentos
de políticos, empresários, sindicalistas, religiosos, jornalistas,
artistas e intelectuais - praticamente beatificou o proprietário
e presidente das Organizações Globo de comunicação, falecido no
dia 6 de agosto.
Antes de se dirigir ao velório, no Rio de Janeiro, com alguns de
seus mais eminentes Ministros de Estado, o presidente da República
decretou luto oficial por três dias; na ocasião, Lula da Silva,
compungido, afirmou que "Roberto Marinho foi um homem que
veio ao mundo a serviço - quase um século de vida de serviços prestados
à comunicação, à educação e ao futuro do Brasil''.
O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, foi mais longe: depois de
ressaltar as excelsas qualidade do empresário, declarou que Marinho "foi importante na consolidação das instituições democráticas
no País (...)"
Tempos atrás, os movimentos sociais e os setores progressistas,
nas campanhas pela redemocratização do País, cunharam, nas ruas
e nas praças, uma palavra de ordem: "O povo não é bobo. Abaixo
a Rede Globo". Através desta consigna contestava-se abertamente
a Rede Globo em virtude de sua atuação como autêntico aparelho ideológico
da ditadura militar.
Pelas atuais declarações dos dirigentes do PT e de setores da esquerda
domesticada, parece que uma nova hermenêutica político-ideológica
está sendo constituída. Segundo ela, Roberto Marinho e sua maior
criatura, a Rede Globo, apenas devem ser louvados e exaltados pela
contribuição que têm dado ao desenvolvimento artístico e cultural
do Brasil. Já não mais faria sentido, hoje, a antiga palavra de
ordem. Ao invés disso, o mais certo seria agora afirmar: "O
povo se engana. Viva a Rede Globo".
A eleição de Lula da Silva criou as maiores expectativas de mudanças
profundas na economia, particularmente na direção de um rompimento
com as diretrizes da política neoliberal que há mais de 10 anos
vem causando apenas miséria e infortúnio à maioria da população
brasileira. Mas, a vitória de um candidato do campo progressista
também criou uma enorme expectativa no sentido de que fossem dados
os primeiros passos para a criação de uma cultura democrática sólida
e consistente no Brasil. No plano dos simbolismos, o governo Lua
da Silva tem - como no caso deste episódio - provocado fortes decepções.
Roberto Marinho e a Rede Globo, ao contrário dos discursos dos novos
governantes e daquilo que proclamam os porta-vozes deste quase monopólio
da comunicação no Brasil, nunca estiveram comprometidos com o "futuro
do Brasil" nem com a consolidação das instituições democráticas.
Afirmar isso é contribuir para o embuste e a falsificação da história.
PS. A versão completa deste artigo se encontra na edição de 20/08/2003
de Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.org.br)
*Caio Navarro de Toledo é professor do IFCH/UNICAMP.
|