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Educação não é tão caro assim

Erika Klingl
Do Correio Braziliense
02/04/2004

Os universitários da rede pública custam menos do que o governo imagina. Um estudo do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais da Universidade de Brasília (UnB) concluiu que o gasto médio anual com o ensino dos alunos dessa instituição é de R$ 5.737. A diferença dos índices da pesquisa para os cálculos do Tribunal de Contas da União (TCU) é de 40%. Em três anos de auditorias na UnB e em outras federais, o tribunal concluiu que um estudante de faculdade pública custa, em média, R$ 9.488.

   Quando comparada com os números do Ministério da Educação (MEC), a conta da UnB é ainda menor. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas e Estatísticas do MEC, o gasto federal por alunos em 2000 era de R$ 9.756. O coordenador da pesquisa da UnB, César Tibúrcio, explica que a diferença nos valores está relacionada às metodologias aplicadas pelas instituições. ‘‘O estudo levou em conta os gastos diretamente relacionados ao ensino dos universitários’’, explica.

  Na prática, isso quer dizer que os custos da instituição de educação superior com pesquisa, extensão e os gastos do hospital universitário com atendimento a pacientes não entram na conta. Apesar de referir-se especificamente à UnB, a metodologia aplicada para calcular o custo do ensino serve para qualquer outra universidade, desde que respeitadas as peculiaridades de cada uma.

  Além de fazer a média dos gastos com a educação universitária, a pesquisa também levantou o custo por estudante de cada instituto ou faculdade da UnB. Um aluno da graduação ou da pós-graduação de Direito custa anualmente R$ 3.348 à UnB, ou R$ 279 mensais. Se esse aluno estudasse em uma instituição particular, teria que pagar todo mês R$ 750, ou R$ 9 mil por ano.

  ‘‘A conta não fecha’’, reclama o vice-presidente do Sindicato Nacional de Docentes do Ensino Superior (Andes), José Domingues, em referência aos argumentos do MEC de que é mais caro abrir vagas nas universidades públicas do que nas particulares. ‘‘Com esse estudo, o governo perde os argumentos para sustentar o Universidade para Todos.’’ O programa citado usará vagas das faculdades privadas para inserir na educação superior estudantes carentes, negros, índios e ex-presos. Em troca, as empresas terão isenção fiscal.

  De acordo com o chefe de gabinete da Secretaria de Ensino Superior (Sesu) do MEC, José Gregory, a lógica do dirigente do sindicato está distorcida. Atualmente, no Brasil, 75% das instituições de ensino superior são particulares e têm cerca de 30% de vagas ociosas. ‘‘Não vamos trabalhar na abertura de vagas nas particulares’’, disse. ‘‘A luta pela ampliação do acesso nas federais é legítima, mas, com a nossa situação econômica, não existe aumento que cumpra o papel social do Universidade para Todos.’’

  O argumento do MEC não convenceu a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), que considera o programa uma simples ‘‘compra de vagas’’. Ao comentar o estudo da UnB, a direção da Andifes disse, por meio de sua assessoria, que o alto custo dos alunos no ensino público é um dos principais mitos da educação.

      Caixa-preta

  O reitor da UnB, Lauro Morhy, explicou que os gastos de uma universidade são como segredos de grandes empresas. ‘‘Temos poucas informações comparativas. Ninguém quer abrir a caixa-preta do orçamento’’, afirmou. A opção de divulgar o estudo, garante o reitor, se justifica com a intensificação das discussões sobre a reforma universitária. ‘‘Até pouco tempo, ninguém cobrava as coisas das federais. Agora, com a reforma do ensino superior, as grandes universidades podem sair prejudicadas’’, disse, referindo-se à disputa por recursos públicos.

  A próxima etapa da pesquisa é chegar ao custo específico do aluno por curso e separar cada área. Ao todo, são 60 cadeiras de graduação, 50 de mestrado e 39 de doutorado.


     Na ponta do lápis

  Mensalidades pagas por estudantes em faculdades particulares e custo dos alunos na UnB.

Metodologia diferente

     TCU

Valores globais do orçamento

  O orçamento é dividido pelo número total de alunos da instituição de ensino.

     Tratamento diferenciado

  Alunos de diferentes cursos tem pesos diferentes. Um estudante de Medicina equivale a quatro alunos da administração.

     Gasto do hospital universitário

  Considera que 35% dos gastos do hospital universitário estão relacionados ao ensino.

     Atividades de ensino, pesquisa e extensão

  Conta todas as atividades da instituição como sendo ligadas ao ensino.


     UnB

Depuração dos valores

  O cálculo conta com o que se relaciona especificamente com o ensino dos alunos. Não conta os recursos arrecadados com convênios ou com concursos do Cespe, por exemplo.


     Tratamento igual

  Não diferencia os alunos pelos cursos estudados. A média é geral.

     Gasto do hospital universitário

  Ano passado, apenas 13% do custo de manutenção da instituição estava ligada ao ensino.

     Somente ensino

  Trabalha com custo do ensino, excluindo outras atividades, como o atendimento do médico no hospital universitário.

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