Nesta terça (20) se celebra em todo o Brasil o Dia da Consciência Negra. A data, uma homenagem a Zumbi dos Palmares, lembra os séculos de lutas e resistências do povo negro contra a escravidão e o racismo no país. Zumbi dos Palmares e Dandara foram dois dos principais representantes da resistência negra à escravidão na época do Brasil Colonial e lideraram o Quilombo dos Palmares, comunidade livre formada por escravos fugitivos dos engenhos, indígenas e brancos pobres expulsos das fazendas.

A educação é palco de diversas lutas contra o racismo. Nas últimas décadas um dos temas mais debatidos pelo movimento negro foi a importância de criação de políticas afirmativas para combater o racismo estrutural. Uma dessas políticas foi a criação de cotas raciais para garantir a entrada de negros e negras na educação superior. A primeira universidade do Brasil a instituir o sistema de cotas foi a UERJ, as cotas viraram lei federal em 2013.

Nesse período, o percentual de pretos e pardos que concluíram a graduação cresceu de 2,2%, em 2000, para 9,3% em 2017, segundo o IBGE. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) também evidenciam o aumento do número de matrículas de estudantes negros em cursos de graduação. Em 2011, do total de 8 milhões de matrículas, 11% foram feitas por alunos pretos ou pardos. Em 2016 o percentual de negros matriculados subiu para 30%.

Cláudio Mendonça, 2º tesoureiro do ANDES-SN, afirma que a política de cotas é necessária, mas que ajustes são necessários. Para o docente, é necessário aumentar a garantia de acesso às instituições de ensino e melhorar as condições de permanência.

“O processo de constituição da universidade brasileira apartou e excluiu a população negra. A política de cotas conseguiu avançar no sentido de garantir o ingresso de negros e negras nas universidades. Entendemos que essas políticas precisam ser aperfeiçoadas de maneira a garantir também a permanência desses estudantes. Não adianta apenas entrar, é necessário permanecer. E isso passa pela defesa intransigente da educação pública e gratuita, com orçamento garantido pelo Estado. Queremos que a população negra entre nas instituições, se qualifique, e possa vivenciar as práticas de ensino, pesquisa e extensão”, diz.

Enegrecer também a produção de conhecimento

O 2º tesoureiro do ANDES-SN também lembra que há uma grave lacuna nas instituições de ensino no estudo de autores negros e na valorização do conhecimento produzido por cientistas de fora do eixo Europa-Estados Unidos.

“É importante destacar que o conhecimento que é produzido hoje na academia tem importância gigantesca, e não queremos substituí-lo ou eliminá-lo. Mas é importante que a academia entenda que existe produção de conhecimento fora da Europa e dos Estados Unidos. A África, a América Latina e a Ásia produzem conhecimento. E esse conhecimento tem que ser acessado, conhecido. É comum que as grades curriculares desprezem totalmente autores e autoras negros e negras. A política de cotas tem que estar casada com o aspecto curricular. Queremos que negros e negras sejam conhecidos e estudados na academia”, defende Cláudio Mendonça.

Importantes cientistas negros

Artigos publicados pela Geledés, Instituto da Mulher Negra, divulgam a importância histórica de negros e negras para a ciência. Um texto de Nelson Pascarelli Filho, por exemplo, lista uma série invenções, fundamentais para a vida contemporânea, desenvolvidas por cientistas negros e negras: o elevador, criado por Alexander Miles; a fornalha de aquecimento, criada por Alice Parker; o primeiro banco de sangue do mundo, estabelecido por Charles Drew; o bonde elétrico, criado por Elbert R. Robinson; o ar condicionado, inventado por Frederick Jones; a geladeira, inventada por John Standard; o dispositivo laser para cirurgia de cataratas, desenvolvido pela Dra. Patricia E. Bath.

Carlos Machado, autor do livro Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente, cita outros cientistas importantes. André Rebouças é considerado o pai da engenharia brasileira e inventou o torpedo. Joana D´Arc Félix de Souza é pós doutora em química orgânica de Harvard, trabalha na ETEC de Franca, e desenvolveu pele humana artificial a partir da pele de porco a preço acessível.

Violência contra a população negra

As citações acima contrastam com a violência contra a juventude negra no Brasil. Dados divulgados no início do mês pela Organização das Nações Unidas (ONU Brasil), durante o lançamento da campanha “Vidas Negras”, revelaram que a cada 23 minutos um jovem negro é morto no país. Os números são do Mapa da Violência 2016, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).

Os números apresentados pela campanha “Vidas Negras” são reveladores do racismo no Brasil: sete em cada dez pessoas assassinadas são negras. A cada duas horas, um negro com idade entre 15 e 29 anos é morto em ações violentas. De 2005 a 2015, enquanto a taxa de homicídios por 100 mil habitantes teve queda de 12% para os não-negros, entre os negros houve aumento de 18,2%. “A letalidade das pessoas negras vem aumentando e isto exige políticas com foco na superação das desigualdades raciais.”, afirma a campanha.

Dia de Luta contra o Racismo nas IES

O ANDES-SN deliberou durante o 63º Conad, realizado em julho na cidade de Fortaleza (CE), a construção de um Dia de Luta contra o Racismo nas Instituições de Ensino (IES). A data escolhida foi 22 de novembro, dia que marcou o início da Revolta da Chibata, liderado por João Cândido no Rio de Janeiro (RJ) em 1910.

“Nosso sindicato entende que a luta que realizamos deve discutir o que há relação direta com a nossa condição de docentes. O racismo não é algo secundário na sociedade brasileira. É algo que ataca, fere, diminui o sujeito. A população negra brasileira vivencia isso cotidianamente. O papel do ANDES-SN é mostrar à nossa base que a luta pelas condições de trabalho deve estar casada com a luta contra o racismo, o machismo, a homofobia. Toda relação que explora, domina e oprime os trabalhadores e trabalhadoras deve ser combatida pelo ANDES-SN”, diz Cláudio Mendonça.

Saiba mais

Assista ao documentário Narrativas Docentes – Memória e Resistência Negra:

Acesse aqui a Leia aqui a Cartilha do GTPCEGDS.

Acesse aqui a revista Universidade e Sociedade – Edição especial 62 – “130 anos da abolição da escravidão no Brasil: a resistência do povo negro e a luta por reparações”.

Abaixo, materiais para subsidiar os debates nas atividades do dia 22/11 – Dia Nacional de Luta contra o racismo nas IFES e IEES/IMES:

Panfleto da Campanha Contra o Racismo;

Cartaz da Campanha Contra o Racismo;

WHATSAPP da Campanha Contra o Racismo;

Cartaz da Campanha Contra o Racismo;

Card da Campanha Contra o Racismo;

Capa para Facebook da Campanha Contra o Racismo.

 

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