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DEZEMBRO

11

2009

“É possível formar bons profissionais para o país via EàD”?

Debate na USP encerra série promovida pelo Fórum das Seis e Cruesp


Foto por: Bahiji Haje/Arquivo Fórum das Seis
Edmundo F. Dias, Maurício Matos, Sueli Guadelupe, Klaus Schlünzen Jr e Manoel Oriosvaldo de Moura

Por: Bahiji Haje jornalista do Fórum das Seis


O terceiro evento do “I Fórum de Debates sobre EàD” aconteceu em São Paulo, no auditório da FAU/USP, no dia 2 de dezembro de 2009, com o tema “É possível formar bons profissionais para o país via EàD?”. Pelo Fórum, debateram os professores Edmundo Fernandes Dias (Unicamp) e Sueli Guadelupe de Lima Mendonça (Unesp/Marília). Pelo Cruesp, Klaus Schlünzen Junior (Unesp/Presidente Prudente) e Manoel Oriosvaldo de Moura (USP).

A atividade é fruto do acordo firmado entre o Fórum das Seis e o Cruesp, em junho deste ano, durante as negociações da data-base 2009, de estimular na comunidade universitária a reflexão sobre o ensino à distância e o projeto Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), consórcio criado pelo governo paulista em 2008 e que envolve a Unesp, a Unicamp e a USP, o Centro Paula Souza e demais instituições públicas, como a Fapesp, a Fundação Padre Anchieta, a Imprensa Oficial do Estado etc.

A exemplo dos anteriores, o evento teve transmissão ao vivo pela Internet. Estavam presentes professores, funcionários e estudantes da Unicamp, USP, Centro Paula Souza e campi da Unesp de Marília, Presidente Prudente, Rio Claro e Bauru. Após a saudação aos presentes, feita pela pró-reitora de Graduação da USP, Selma Garrido Pimenta, a mediação coube ao professor Maurício dos Santos Matos, também da USP. A intérprete de Libras Sarah Leite Lisbão fez a versão para a linguagem de sinais.

Novos modelos de expansão
A professora Sueli iniciou a exposição situando o tema no contexto histórico da educação brasileira. “O projeto educacional no país sempre foi marcado por desigualdades, na contraposição entre a escola de qualidade para poucos e outra de péssimo nível para muitos”, disse. Como consequência, ela destacou que, embora o Brasil esteja entre as dez maiores economias do mundo, seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) fica na 75ª posição. “Como poderia ser diferente, se apenas 3,6% do PIB são investidos em educação?”

A partir da década de 90, ressaltou a docente, com a reestruturação do processo produtivo, organismos internacionais  – como o Banco Mundial, FMI e OMC ¬–  trouxeram uma nova agenda de reformas estruturais, que se caracterizam, principalmente, pela diminuição do Estado na vida pública. “Na educação superior, essa política contempla novas modalidades mais baratas e rápidas, como os cursos sequenciais, universidade virtual e educação à distância”, exemplificou.

Sueli ressaltou que os debates entre Fórum e Cruesp acontecem exatamente no momento em que as universidades estaduais paulistas vêm implantando o EàD sem uma discussão mais profunda e democrática sobre o tema. No caso da Unesp, ela citou que as experiências tiveram início bem antes da criação da Univesp, com a implementação do PEC - Formação Universitária e da Pedagogia Cidadã.

“Apesar de tardio, no entanto, o debate que estamos realizando contribui para a apresentação de argumentos das diferentes posições, que devem ser considerados na política universitária, para que não se torne apenas um verniz democrático para programas institucionais impositivos por parte das reitorias”, frisou.

Concepção errada
O professor Oriosvaldo ancorou sua exposição num conjunto de questionamentos: “Que tipo de profissional queremos formar”, “Como é que cada um de nós se organiza para buscar o profissional bem formado?”, “Como aproveitar as novas tecnologias, inclusive no ensino presencial?”.

Ele acredita que estas respostas só podem ser obtidas a partir da definição de um projeto político. “Tanto no presencial quanto em EàD, temos que pensar quais são os instrumentos que permitem ao sujeito aprender e refletir sobre sua formação”, disse.
Citando a USP como exemplo, o docente afirmou que há unidades nas quais a tecnologia é avançada, ao passo que em outras está apenas engatinhando. “Falta à universidade um projeto que una ensino, pesquisa e extensão na perspectiva de EàD”, destacou.

Circunstâncias específicas
Da mesma forma que a colega Sueli, o professor Edmundo lembrou que o ensino à distância é parte da imposição de organismos externos sobre os rumos da educação brasileira. Para ele, quando a interação entre alunos e professores é viabilizada por meio das tecnologias e não mais pela relação presencial, perde-se a riqueza do processo ensino-aprendizagem. “O ensino à distância não permite a convivência de múltiplos sujeitos, da forma que temos no presencial”, disse. “É absolutamente antipedagógico pensar, mesmo em uma simples transmissão de conhecimentos, colocarmo-nos diante dos estudantes como seres abstratos. Tudo se move no espaço. Abstração pura, abstratos os estudantes, abstratos os professores.”

Embora concorde que a educação presencial também tenha problemas, ele considera que sua grande vantagem seja a possibilidade de produzir e explicitar a curiosidade, primeiro passo para a produção do conhecimento. “Cabe ao professor, conhecendo a vida de seus estudantes, compartilhar projetos, evidenciar contradições, estimular a curiosidade, enfim, escutar as dúvidas que brotam das relações sociais.”

Edmundo lembrou que o Fórum das Seis defende o uso das tecnologias em apoio à educação presencial e não para substituí-la.

O que é possível
“O ensino à distância não é concorrencial ao presencial e sim uma forma de oportunizar a educação a pessoas que não têm acesso a ela”, disse o professor Klaus, lembrando que o Brasil é um país imenso e que nem todos podem ir à universidade pública.

Para ele, o ensino à distância pode ser usado para a formação de professores, mas não seria adequado em áreas como a medicina e a engenharia. Nestas, o EàD poderia servir para aperfeiçoamentos, trocas de experiências etc.

“A disseminação de EàD implica na superação de um conjunto de desafios, entre eles a normatização nas universidades e a definição de um conjunto de critérios claros de qualidade”, elencou. Ponderando que EàD não pode ser uma mera transposição do presencial, Klaus frisou que é preciso passar da lógica da distribuição (informação) para a lógica da comunicação (interação) nos cursos à distância.

“Temos poucas pesquisas sobre EàD e as contribuições que poderia ter no processo educacional”, disse.

Ensino, pesquisa e extensão
Uma das perguntas feitas aos debatedores questionou a possibilidade de se fazer pesquisa e extensão na modalidade à distância.
O professor Klaus considera que sim. “Embora o objetivo central de EàD seja o ensino, nada impede que se faça pesquisa e extensão”, disse.

“Ensino, pesquisa e extensão exigem uma ação centralizada da Universidade, que congregue os diferentes potenciais humanos”, contrapôs o professor Oriosvaldo.

Sueli resgatou um documento apresentado pelo Cruesp à Assembleia Legislativa de São Paulo, em agosto de 2001, no qual os reitores deixam claro o caráter que deve ter a expansão de vagas nas universidades estaduais, aí incluído o EàD. No documento, eles afirmam que “é absolutamente impossível criar maciçamente vagas em universidades como a Unesp, a Unicamp e a USP, em cujos cursos de graduação o ensino é sempre aliado à pesquisa e à extensão e, consequentemente, caro por natureza”.

A docente lembrou que esse modelo se efetivou na expansão ocorrida na Unesp, com a criação de sete novos campi, e mais recentemente com as experiências em EàD. Para ela, “salta aos olhos” a defesa de dois modelos diferenciados de ensino superior: um de qualidade, ancorado na indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, e outro mais rápido, mais barato, mais simples para atender a crescente demanda social.


Conclusões
Em suas falas finais, os quatro debatedores procuraram responder à pergunta lançada no tema do debate. O professor Klaus julga que, superados os desafios por ele apontados, é possível formar bons profissionais através de EàD.

Para os professores Edmundo e Sueli, a resposta é não. Eles avaliam que é possível usar EàD em determinadas circunstâncias, para completar a formação e dentro de um projeto político.

O professor Oriosvaldo julga que “formar bons profissionais só à distância não dá.” Defendendo a necessidade de aprofundamento do debate, ele propôs que as universidades estudem as potencialidades, limites e impactos pedagógicos do uso das tecnologias tanto no ensino presencial quando à distância. 

Os representantes do Fórum das Seis conclamaram o Cruesp a ampliar o debate sobre EàD no meio acadêmico e, também, na rede pública. “Este não é um debate simples, pois diz respeito ao futuro das próximas gerações”, encerrou Edmundo.
 

(Veja aqui as fotos do 3º debate)