Por: Bahiji Haje jornalista do Fórum das Seis
No dia 11 de novembro, aconteceu em Campinas, na Unicamp, o segundo evento do “I Fórum de Debates sobre EàD”. A atividade é fruto do acordo firmado entre o Fórum das Seis e o Cruesp, em junho, durante as negociações da data-base 2009, de estimular na comunidade universitária a reflexão sobre o ensino à distância e o projeto Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), consórcio criado pelo governo paulista em 2008 e que envolve a Unesp, a Unicamp e a USP, o Centro Paula Souza e demais instituições públicas, como a Fapesp, a Fundação Padre Anchieta, a Imprensa Oficial do Estado etc.
Este segundo encontro teve como tema central “Faltam professores para a Educação Básica? EaD é a solução?”. Pelo Fórum, debateram os professores Otaviano Augusto Helene, do Instituto de Física da USP, e Ivany Rodrigues Pino, da Faculdade de Educação da Unicamp. Pelo Cruesp, as professoras Maria Elizabeth B. de Almeida, do Programa de Pós-Graduação em Educação-Currículo da PUC/SP, e Bernadete Gatti, da Fundação Carlos Chagas e consultora da Unesco.
O evento teve transmissão ao vivo pela Internet, inclusive com o recebimento de perguntas e a tradução para Libras, feita pela professora Sônia Maia. Estavam presentes professores, funcionários e estudantes da Unicamp, USP, Centro Paula Souza e campi da Unesp de Rio Claro, Assis, São José do Rio Preto e Bauru.
A professora Elizabeth iniciou sua exposição conceituando EàD como um “modelo de educação necessariamente mediatizada por tecnologias e intencionalmente pedagógica”. Ela considera errônea a comparação entre ensino presencial e à distância. “Não há sentido em comparar o melhor da educação presencial com o pior de EàD e nem o contrário”, ponderou. “Nós partimos do pressuposto de que não é a modalidade que garante a qualidade.”
Outra crítica feita aos cursos à distância que merece ser desmistificada, segundo a docente da PUC, é sobre o papel do professor no processo de EàD. Enfatizando que distância não significa, necessariamente, ausência, Elizabeth disse que essa modalidade de ensino exige professores bem formados. “Por isso, não gosto do termo tutor.”
Para Elizabeth, EàD não é a solução para todos os problemas educacionais, mas sim uma das soluções possíveis. “As tecnologias são estruturantes do currículo e não apenas instrumentos de transmissão de informações”, disse. Ela comentou com os presentes a experiência da PUC com cursos de formação continuada para gestores de escolas, inclusive voltados às ETEs e FATECs do Centro Paula Souza.
2,6 milhões de professores
A professora Bernadete focou sua fala inicial na situação da categoria de professores no país. Ela baseou-se em dados do recém-lançado “Professores do Brasil. Impactos e desafios”, livro da Unesco editado por ela e pela professora Elba Siqueira de Sá Barreto.
De acordo com levantamentos do Inep/MEC, o país conta com cerca de 2,6 milhões de professores, o que corresponde à terceira massa empregatícia. Deste total, aproximadamente 735 mil não dispõem de formação superior. “Isso sinaliza um déficit grande de formação entre os professores em exercício”, pontuou. Bernadete destacou, também, o baixo índice de professores com formação superior específica na área em que lecionam. Como exemplo, citou a área de Física, na qual apenas 9% dos docentes têm formação específica. “A realidade é que a formação de professores nunca foi preocupação central das grandes universidades, embora o filho de todo mundo precise deste profissional”, criticou.
Bernadete disse não ser favorável ao uso indiscriminado da educação à distância, mas destacou que suas análises apontam necessidades que a educação presencial não dá conta de solucionar. Ela revelou preocupação com os números de EàD no país: de 24.389 alunos matriculados em cursos à distância, no ano de 2002, saltamos para cerca de 1,5 milhão em 2007, segundo dados do MEC. A taxa de concluintes não ultrapassa 27%.
“A educação à distância está sendo feita de forma atabalhoada tanto no setor público quanto no privado e isso exige reflexão”, reforçou. Para ela, é importante que se faça estudos sobre a gestão destes sistemas, estruturas de funcionamento e impactos no ensino superior.
Argumentos contraditórios
Em sua exposição, o professor Otaviano procurou demonstrar a incongruência dos argumentos mais utilizados para justificar a proliferação do ensino à distância no país. O primeiro aspecto a destacar, segundo o docente, é que não faltam professores no país. Considerando o número dos que se aposentam anualmente, seriam necessários, em média, 50 mil novos profissionais a cada ano. Ocorre que o país forma cerca de 170 mil professores todos os anos. Sem evasão, o número de formados seria de 480 mil.
“A questão é que parte considerável destes professores não vai para a sala de aula, por problemas que vão desde os baixos salários até as condições precárias de trabalho”, explicou. “Assim, apresentar EàD como solução só fará crescer o número de professores fora da sala de aula.”
Outra contradição, segundo o expositor, é o grande número de vagas à distância oferecidas na área de Pedagogia. A Unesp, por exemplo, abriu 1.350 vagas por meio da Univesp, com início previsto para março de 2010. “O curioso é que a Pedagogia oferece 170 mil vagas presenciais e forma cerca de 70 mil pessoas por ano, o que seria mais do que suficiente para cobrir a demanda”, exemplificou.
Para Otaviano, o crescimento acelerado de EàD no Brasil nos últimos anos pode ter explicações bem concretas. Uma delas seria a exigência prevista no Plano Nacional de Educação (PNE), de que 30% dos jovens entre 18 e 24 anos estejam matriculados no ensino superior até 2011. Outra seria a pressão das grandes empresas de informática.
A professora Ivani corroborou as ponderações do colega da USP. Ela considera que uma das razões para a rápida expansão das vagas à distância tem relação com a crise enfrentada pelas instituições privadas de ensino superior, que procuram meios de manter suas taxas de lucratividade. Lembrando que o Brasil é parte dos acordos impulsionados pela Organização Mundial do Comércio, que situam a educação como uma prestação mercantil de serviços, Ivani ironizou: “Estamos vendo várias universidades serem vendidas para grupos estrangeiros, que chegam aqui para implantar seus modelos de educação. É a globalização da educação.”
Papel da universidade pública
Diante do questionamento levantado pela professora Bernadete, de que as universidades públicas não atendem à demanda real da população, o professor Otaviano lembrou que o governo investe muito aquém do que deveria em educação. No estado de São Paulo, por exemplo, considerando recursos estaduais e federais, apenas 0,3% do PIB é investido em ensino superior público.
“Há espaço enorme para expandir o ensino presencial com qualidade”, afirmou o docente da USP. Ele citou, também, que o Brasil tem 100 mil doutores e cerca de 200 mil mestres atualmente. “É irônico que, no momento em que temos tantos profissionais qualificados para assumir a educação presencial, eles passem a ser substituídos por tutores em EàD”, encerrou.
(Veja aqui as fotos do 2º debate)

O próximo debate
“É possível formar bons profissionais para o país via EàD?”
02/12/2009, das 14 às 18h, em São Paulo (USP).
Debatedores: Edmundo Fernandes Dias, Klaus Schlünzen Junior, Manoel Oriosvaldo de Moura e Sueli Guadelupe de L. Mendonça.
O evento será transmitido pela Internet (mais informações no site da instituição, www.usp.br/prg).