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OUTUBRO

26

2009

EaD em debate

Postura da universidade pública frente às pressões do mercado foi uma das polêmicas centrais no primeiro debate sobre EaD em Bauru


Foto por: Bahiji Haje/Arquivo Fórum das Seis
Da esq. para dir.: Armando Valente, Cleide Souza, Klaus Schlünzen Jr., Maria Segatto e César Minto

Por: Bahiji Haje jornalista do Fórum das Seis


No dia 21 de outubro, teve início em Bauru, no campus da Unesp, o “I Fórum de Debates sobre EaD”. A atividade é fruto do acordo firmado entre o Fórum das Seis e o Cruesp, em junho, durante as negociações da data-base 2009, de estimular na comunidade universitária a reflexão sobre o ensino à distância e o projeto Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), consórcio criado pelo governo paulista em 2008 e que envolve a Unesp, a Unicamp e a USP, o Centro Paula Souza e demais instituições públicas, como a Fapesp, a Fundação Padre Anchieta, a Imprensa Oficial do Estado etc.

Este primeiro encontro teve como tema central “EaD: Por que e para quem? Limites e possibilidades”. Pelo Fórum, debateram os professores César Augusto Minto (USP) e Maria Aparecida Segatto Muranaka (Unesp); pelo Cruesp, os professores José Armando Valente (Unicamp) e Cleide Mara Ribeiro Souza (Núcleo de Tecnologia Educacional de Morrinhos/GO).

Cerca de 120 pessoas compareceram ao debate, oriundas da USP, Unicamp, Unimep/Piracicaba e dos campi da Unesp de Assis, Bauru, Marília e Rio Claro. O evento teve transmissão ao vivo pela Internet, inclusive com o recebimento de perguntas.

O professor Valente iniciou sua exposição conceituando EaD como uma modalidade de educação na qual a mediação didático-pedagógica ocorre por meio de tecnologias de informação e comunicação (TIC). Ele destacou a existência de três tipos de abordagem: a que se baseia no autodidatismo (com material de apoio e sem interação, no estilo “Telecurso 2000”); a que promove a virtualização da sala de aula tradicional (o professor dissemina a informação e utiliza material instrucional, mas a interação é pequena); a que se ancora na mediação de educadores preparados (que estimulam o “estar junto virtual”).

O professor da Unicamp defendeu o terceiro tipo de abordagem e detalhou o que seria “estar junto virtual”: a combinação de atividades presenciais com plataformas on-line, nas quais o aprendiz tem a oportunidade de descrever suas indagações ao professor e compartilhá-las com uma rede de pessoas. Para ele, isso significa que o professor tem “voz” e pode “ouvir” o estudante. “É óbvio que não dá para fazer um sistema como esse em massa e sim, no máximo, com 20 ou 25 alunos por instância de aprendizes”, frisou.

Em sua exposição inicial, o professor César Minto procurou destacar as principais características que têm marcado o uso de EaD no país:
         - A formatação de cursos modulares;
        - A oferta de cursos aligeirados;
       - A distância é utilizada em parte ou no todo. Os períodos qualificados como presenciais resumem-se, geralmente, ao encontro de estudantes com monitores e/ou tutores;
        - A precarização do trabalho docente, com a substituição deste profissional por monitores e/ou tutores temporários;
        - A fragmentação dos processos de ensino e de aprendizagem: quem planeja e monta o curso não é a mesma pessoa que o aplica e nem a que o avalia.

César Minto também procurou desfazer a relação automática entre ensino à distância e tecnologias de informação e comunicação (TIC). “Todo aquele que critica essa relação, procurando delimitar seu alcance, é tachado de obsoleto, um ´dinossauro´, como se tais tecnologias só pudessem ser usadas desta forma”.

A professora Cleide centrou a exposição na descrição de suas experiências com a formação continuada de professores da rede pública de Goiás. Para ela, o EaD estabelece um novo conceito de espaço e tempo. “Em muitos casos, o tempo necessário é até maior do que o despendido na educação presencial, dependendo do ritmo do aluno”. A docente contou que o maior problema enfrentado em sua experiência com EaD é cultural: “As pessoas têm a ideia de que um curso à distância é necessariamente fácil, mas essa confusão se desfaz após o início da atividade”.

A professora Segatto citou o notório crescimento do EaD nas instituições privadas de ensino superior. Em 2000, havia sete instituições credenciadas junto ao MEC; em 2007, já eram 97 instituições (ofertando 408 cursos), o que significa um crescimento de 1.385%.

Ela também destacou o boom do ensino superior privado. Na lista das 15 maiores instituições em número de estudantes, a USP aparece em sexto lugar e a Unesp em nono. “Se crescemos tanto em oferta de ensino superior, por que o EaD?”, questionou. Para Segatto, a resposta é simples: parte considerável dos estudantes não pode mais pagar as mensalidades dos cursos presenciais. “Para essa ´clientela´ pobre, o EaD surge como uma alternativa mais barata e, de quebra, com maior facilidade de tempo”.

A docente da Unesp dedicou boa parte de sua explanação para criticar o uso de EaD na formação inicial, sobretudo de professores. Ela enfatizou que, neste caso, não se trata somente de exigir qualidade nas graduações à distância. “Com qualidade ou não, não podemos aceitar uma formação inicial que não seja presencial. Vida e ser humano são históricos e sua construção se dá na relação com o outro. E é na educação presencial que a troca é possível”, pontuou.

“Achar que um professor possa ser formado à distância é uma irresponsabilidade do ponto de vista de política pública sobre formação de professores e pode comprometer a educação de várias gerações”, completou Minto. Ele lançou um desafio aos defensores do EaD na formação inicial: “Será que deixariam seus filhos serem educados por um professor formado à distância?”
   
As pressões do mercado
Uma afirmação do professor Valente em sua exposição inicial gerou várias intervenções durante o debate, entre os colegas da mesa e os participantes da plenária. Alertando para o fato de que as instituições privadas estão promovendo ensino à distância em larga escala e sem maiores preocupações com a qualidade, ele lançou a pergunta: “Deixaremos o mercado decidir por nós?” Para ele, as universidades públicas devem tomar a frente e reverter esse processo. “Podemos fazer com qualidade, não de forma aligeirada e mercantilista”, concluiu.

“Tem momentos que é preferível perder o bonde da história, ou será que vamos compactuar com essa política de educação escolar diferenciada para diferentes classes sociais?”, respondeu a professora Segatto.

“De fato, não devemos deixar que o mercado decida por nós”, interveio o professor Minto. Ele considera que embarcar no EaD da forma que as universidades públicas estão fazendo é que significa se submeter aos interesses do mercado. O docente frisou que, do ponto de vista de política pública, não devemos compactuar com afirmações do tipo: “Se a universidade pública pode fazer EaD melhor do que as privadas, deve fazer” ou, ainda, “melhor EaD do que nada...”

Minto também ressaltou que a expansão de vagas públicas por meio de ensino à distância é uma política discriminatória. “A intenção do governo é preservar os chamados centros de excelência para a formação dos quadros dirigentes e o EaD e outras formas aligeiradas de ensino para a maioria dos que conseguem ter acesso a esse nível de ensino.”

EaD e pesquisa
A segunda parte do debate foi destinada às perguntas. Algumas delas acabaram gerando polêmica entre os debatedores.
“O EaD não secundariza a pesquisa?”, quis saber um participante da plenária.

Para o professor Valente, não. Ele considera que todos os cursos à distância que estão sendo organizados pelas universidades estaduais têm caráter de pesquisa, pois geram dissertações, artigos, iniciação científica etc.

O professor Minto disse ver o problema de outro modo. Ele destacou a diferença entre transmissão e produção do conhecimento, que precisam sempre ser trabalhadas conjuntamente. “O que vejo no EaD é o privilégio do primeiro aspecto”, enfatizou.

Quanto custa
Algumas perguntas da plenária relacionaram-se ao custo do EaD. O professor Valente afirmou que, no modelo por ele defendido, o custo é praticamente igual ao do ensino presencial. “Receber o questionamento e dar respostas a cada aluno toma tempo. Também temos que investir numa plataforma tecnológica que permita que toda a rede de aprendizes veja o que está sendo perguntado e respondido”.

Sobre este aspecto, o professor Minto citou um documento do período de criação da Univesp, que previa um custo total de R$ 3.000 por aluno nas graduações à distância. “Se descontarmos os gastos com hospitais, aposentadorias e outros, veremos que um estudante da USP custa em média o equivalente a R$ 10 mil por ano”, comparou.

Centro Paula Souza
Um dos participantes quis saber do professor Valente sobre os cursos que estão sendo ministrados a professores do Centro Paula Souza (Ceeteps). No final de agosto, cerca de 200 professores e diretores da instituição finalizaram o Curso de Capacitação Docente para o Ensino Semipresencial, oferecido pela Secretaria de Ensino Superior do Estado e ministrado na Unicamp. Em 2010, o Ceeteps pretende oferecer a graduação Tecnologia em Processos Gerenciais à distância.

Valente confirmou a informação de que a Unicamp está “assessorando” o Ceeteps na “transformação” de cursos presenciais em EaD. “Espero que a maneira com que isto está sendo feito mantenha a qualidade dos cursos e as atividades técnicas. Não é possível dar formação técnica ao aluno sem laboratórios”, disse.

O professor Minto questionou a viabilidade prática da proposta. “Estes laboratórios seriam criados em alguns pólos, apenas para demonstração?”

A professora Cleide interveio neste aspecto, dizendo que não vê impossibilidade de atividades práticas à distância. “Estas atividades podem ser monitoradas no ambiente à distância”, sugeriu.
   
Respostas
Em sua última intervenção, o professor Minto procurou dar respostas aos questionamentos levantados pelo título do primeiro debate sobre EaD.

Por que? “Para atender a uma demanda artificial”.
Para quem? “Para a população pobre e subalterna, que tem sido negligenciada no seu direito ao ensino presencial de qualidade”.
Limites: “EaD não substitui o ensino presencial”.
Possibilidades: “As tecnologias de informação e comunicação podem e devem ser usadas como ferramentas complementares no ensino presencial”.
(Veja aqui as fotos do 1º debate)



 

Os próximos debates

11/11 - "Faltam professores? Ensino a distância é a solução?".
Local: auditório do Centro de Computação (CCUEC), UNICAMP (90 lugares), 
das 14:00 às 18:00 horas;
Debatedores: Otaviano Helene
                          Ivany Rodrigues Pino
                          Maria Elisabeth B. de Almeida
                          Bernardete Gatti

02/12 - "Como formar bons profissionais para o país".
Local: Auditório da FAU, USP - São Paulo, das 14:00 às 18:00 horas.
Debatedores: Edmundo Fernandes Dias
                          Sueli Guadelupe de Mendonça
                          Klaus Schlünzen Junior
                          Manoel Oriosvaldo de Moura

Ambos serão transmitidos pela Internet (mais informações nos sites das
instituições, respectivamente http://www.unicamp.br e http://www.usp.br/prg).