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UNICAMP NO TOPO DOS RANKINGS

Por Álvaro Penteado Crósta

A recente divulgação do ranking internacional QS 2017 das universidades latino-americanas coloca a Unicamp na primeira posição dentre as universidades brasileiras, e na segunda posição desse ranking, tendo à frente apenas a PUC do Chile. Em julho passado, a Unicamp já havia sido apontada pelo ranking THE como a melhor universidade da América Latina.

O papel desses rankings não é livre de críticas por parte da comunidade acadêmica. Contudo, há um aspecto positivo sobre o qual há relativa concordância: o fato de se tratarem de avaliações independentes e razoavelmente objetivas da performance das instituições universitárias. Assim, é sempre recomendável dar atenção aos resultados dos rankings acadêmicos.

Utilizando um conjunto relativamente distinto de critérios e indicadores, com diferentes pesos a eles atribuídos, esses rankings destacam a Unicamp em primeiro ou em segundo lugar, à frente das outras duas universidades públicas paulistas, USP e Unesp. Portanto, independentemente dos critérios, a posição de liderança da Unicamp tem se consolidado a cada nova edição. No momento em que colhe esses importantes frutos no cenário acadêmico mundial, é importante registrar um esclarecimento e uma reflexão.

O esclarecimento busca responder a uma pergunta que frequentemente nos é colocada: Como a Unicamp, em uma fase em que se registra a pior crise financeira de sua história, consegue conquistar resultados tão positivos?

A resposta tem relação com a forma como a universidade foi planejada e conduzida ao longo de sua história, priorizando e valorizando, acima de tudo, as pessoas responsáveis por produzir os excelentes indicadores: seus docentes, pesquisadores, funcionários e estudantes. Os extraordinários resultados que vêm sendo colhidos, e que se refletem nos rankings, têm relação direta com a qualificação, dedicação e motivação dessas pessoas. Esse é o capital mais importante que a Unicamp tem e, portanto, é ele que deve ser protegido a todo e qualquer custo, principalmente em épocas de crise financeira.

Um exemplo disso é o investimento feito recentemente na recomposição do quadro docente. No período de 2013 a 2016 a Unicamp, apesar de já estar adentrando a crise financeira que perdura até hoje, investiu de maneira significativa e responsável nessa recomposição. Essa decisão decorreu da constatação de que, apesar do expressivo aumento das atividades desde a década de 1990 – com expansões significativas no número de cursos e de vagas, além da criação de um novo campus na cidade de Limeira – o número de docentes vinha se reduzindo. Os cerca de 2.000 docentes com os quais a Unicamp contava no final da década de 1980, haviam se reduzido a cerca de 1.750 em 2012. Com isso, a Unicamp contava com cerca de 21 alunos para cada docente em 2012, uma relação inadequada à manutenção dos padrões históricos de qualidade adotados pela Universidade em suas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Com essa política, adotada entre 2013 e 2016, a universidade recuperou a dimensão do seu quadro docente aos níveis da década de 1980, passando a contar com uma relação média de 16,4 alunos para cada docente ao final de 2016.

Tais ações representam um investimento não só no presente, mas sobretudo no futuro da Unicamp, assegurando a continuidade da qualidade e excelência de suas atividades. Disso certamente decorre o excelente desempenho que vem sendo obtido nas avaliações pelos rankings.

Quanto à reflexão, ela é motivada por decisões recentes tomadas pela Universidade e que reduzem em 30% as remunerações que docentes e funcionários recebem por sua atuação em diversos cargos de gestão, e que exigem dedicação e níveis de responsabilidade ainda maiores. Essa significativa redução, medida inédita na história da Unicamp, afetará de maneira desigual essas pessoas já que, por força legal, alguns já as incorporaram, de maneira integral ou parcial, aos seus vencimentos. Outros, no entanto, sofrerão forte impacto: os docentes e funcionários que estão por menos tempo na universidade, ou seja, os mais jovens.

Tais medidas nos parecem ir no sentido oposto às ações de valorização adotadas pela Unicamp em toda sua história, e que certamente a impulsionaram, em seus curtos 51 anos de existência, ao topo dos rankings acadêmicos.

Há rumores de que outras medidas dessa natureza vêm sendo estudadas para supostamente enfrentar a crise financeira. Contudo, o total a ser economizado alcança um valor muito reduzido frente às reais necessidades da universidade, ao mesmo tempo em que representam um enorme desestímulo aos docentes, funcionários e alunos.

A persistirem tais medidas cabe perguntar: até quando conseguirá a Unicamp sustentar-se no topo dos rankings?

Publicado também no jornal Correio Popular – Edição de 03/11/2017, Caderno Opinião, página A2