ADunicamp: A voz de quem?

Neste final de ano, reverberam ainda as tensões e polaridades que emergiram na longa greve do primeiro semestre de 2016 nas universidades estaduais paulistas, acirradas pela gravíssima crise política, institucional e econômica pela qual passa o país. É nesse cenário que a ADunicamp divulgou, nesta semana e na passada, dois manifestos que apontam em direções distintas para como lidar com os eventuais excessos cometidos pelas diferentes partes no período da greve (cf. material publicado em notícias na página da entidade: 13 e 22/12/2016). É política (de longa data) da ADunicamp divulgar informações e manifestações a pedido dos membros de seu quadro de associad*s, desde que não veiculem conteúdos manifestadamente racistas, discriminatórios, ou qualquer outra forma de intolerância que atente contra os princípios da entidade – sem que isso configure posição oficial da ADunicamp ou de qualquer de suas instâncias. Mesmo assim, tal cuidado não garante que os conteúdos veiculados não sejam interpretados como ofensa por parte do público leitor. É por esse motivo que nessas divulgações consta sempre um aviso como: “Toda e qualquer responsabilidade por afirmações e juízos emitidos cabe unicamente aos autores e signatários do texto”.

No tópico em pauta, no entanto, há uma posição oficial da ADunicamp, resultante de deliberação de Assembleia Docente (instância máxima da entidade) e registrada em ata de 30/06/2016, nos seguintes termos: “Os professores e professoras da Unicamp, reunidos em Assembleia Geral nesta quinta-feira, 30, manifestam seu repúdio às agressões sofridas por docentes, estudantes e funcionários no exercício de suas atividades ou por adesão às greves de suas categorias, devidas a enfrentamentos violentos em mobilizações. Apelamos à civilidade e ao entendimento entre os membros das diferentes categorias que integram a comunidade acadêmica”. Nessa mesma Assembleia Docente, ficou definida a manutenção da Comissão de Mobilização Docente (CMD) que, dentre outros, “deveria também contribuir para por em prática os princípios gerais, expressos pela assembleia, concernentes à civilidade e ao entendimento ‘entre os membros das diferentes categorias que integram a comunidade acadêmica’”. Ratificou-se também um termo de compromisso proposto pela CMD, expresso da seguinte forma: “No caso de apuração de eventuais atos de excesso por parte dos docentes, estudantes ou funcionários durante o movimento grevista, garante-se o processo democrático, transparente e público, sob acompanhamento da ADunicamp e da Comissão de Mobilização Docente, focalizando a ética da greve” (cf. comunicado da CMD). Esta posição oficial da ADunicamp foi ratificada em nova Assembleia Docente, realizada aos 20/07/2016, quando foi rejeitada, por 220 a 130 votos, uma “Moção que solicita à Reitoria a apuração de fatos envolvendo agressões a docentes”. Ou seja: a posição oficial da entidade continua a ser a de que devem ser apuradas todas e qualquer agressões sofridas [ou cometidas] por “docentes, estudantes e funcionários” – sem qualquer seletividade quanto a quem cometeu ou sofreu a agressão.

O termo de compromisso proposto pela CMD e aceito pelas diferentes partes vem sendo cumprido à risca, no que tange a apuração dos fatos ocorridos, através da apresentação de evidências materiais e depoimentos dos envolvidos e de testemunhas. Nesse processo, o papel da CMD e da ADunicamp é o de observador imparcial, a quem cabe acompanhar o processo e avalizar (ou não) sua legitimidade. Finda a etapa de apuração dos fatos, caberá a esses observadores eventualmente manifestar-se a respeito da proporcionalidade entre o que foi apurado e as consequências daí retiradas, à luz do conhecimento dos fatos e dos argumentos usados para fundamentar as decisões tomadas – agora na condição de testemunha.

 É natural que os diferentes agentes no processo tenham suas visões subjetivas dos fatos ou mesmo que as tomem como uma representação objetiva (e inquestionável?) da realidade. Essa tendência é o tema central do filme Rashomon (de Akira Kurosawa), que foi exibido recentemente no Cineclube da ADunicamp e levou à criação do conceito “efeito Rashomon” para caracterizar a dificuldade de apreendermos objetivamente os fatos nos quais estamos envolvidos. Daí a necessidade da apuração dos fatos por terceiros, do confronto das versões, da apresentação de provas materiais etc. Nos últimos tempos, no entanto, há uma tendência de vários atores sociais a suplantar o efeito Rashomon através de atitudes que obliteram até mesmo fatos concretos, comprovados, criando e divulgando versões que visam institucionalizar as interpretações mais favoráveis às suas próprias narrativas. Esse fenômeno ganhou o nome de “pós-verdade”, conceito escolhido como “palavra do ano” pela Universidade de Oxford (cf. vídeos no YouTube). Há alguns anos, o instituto de pesquisa britânico Ipsos MORI vem alertando para os perigos da percepção e calculando o índice da ignorância de diferentes países, no qual o Brasil figura hoje em 6º lugar (vide fórmula de  cálculo; no site, é facultado o acesso a mais dados, via bloco Perils of perception in 2016 – início da página).

Se há grupos sociais que, por definição, deveriam ser especialmente atentos aos perigos da percepção e avessos às atitudes que tornam possível a “pós-verdade”, dentre eles deveria estar necessariamente a comunidade acadêmica – tomando por base a hipótese de que cabe aos membros dessa comunidade procurar entender de modo adequado os fenômenos, em toda sua complexidade, por mais que tal compreensão às vezes se contraponha a seus interesses subjetivos mais imediatos. A posição oficial da ADunicamp sobre como lidar com eventuais excessos ocorridos no período da greve de 2016, tal como estipulada por sua Assembleia Geral, atende a esses requisitos, ao propor apuração dos fatos de modo imparcial, com garantia de “processo democrático, transparente e público”. Conclamamos os membros de nosso quadro de associados e a comunidade acadêmica de modo geral a engajar-se pela manutenção desses princípios – sem os quais aumentam os riscos, cada vez mais evidentes, da aceitação tácita de um estado de exceção que, longe de resolver os conflitos, tem a vocação inequívoca de acirra-los cada vez mais.

Diretoria da ADunicamp, mandato 2016-2018

 

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