DO SILÊNCIO AO SOM – DO SOM AO SILÊNCIO

Com performance ao vivo e projeção simultânea, coletivo da nova geração de compositores da Unicamp sonoriza um clássico do cinema mudo dos anos 1920, “A Queda da Casa de Usher”, filme do diretor Jean Epstein baseado em conto de Edgar Allan Poe

Evento acontece nos dias 5 (ADunicamp) e 7 (Rabeca Cultural) de dezembro 


O EVENTO

Sob coordenação do Prof. Dr. JOSÉ AUGUSTO MANNIS, a classe do 3º ano do Bacharelado em Música (Modalidade Composição) da Unicamp apresenta ao vivo o resultado de um projeto de pesquisa, criação coletiva e sonorização em torno de um dos grandes clássicos do cinema mudo dos anos 1920, o filme “A Queda da Casa de Usher”, baseado no conto gótico homônimo do escritor e poeta norte-americano Edgar Allan Poe e dirigido pelo vanguardista Jean Epstein em 1928.

Com projeção do filme original em alta resolução e sonorização ao vivo, a performance instrumental acontece em tempo real em duas sessões:  no dia 5 de dezembro (quarta) às 18h30 no Auditório Maurício Tragtenberg da Associação de Docentes da Unicamp (ADunicamp) e no dia 7 de dezembro (sexta) às 20h30 na Rabeca Cultural, em Sousas.

O FILME

Em 1928, o documentarista e diretor polaco-francês Jean Epstein (1897-1953) lançou o filme que projetou seu nome e sua carreira: “La Chute de la Maison Usher” (A Queda da Casa de Usher), primeira adaptação para o cinema do conto gótico homônimo do escritor e poeta norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849). Realizado em plena era do cinema mudo, o filme em preto-e-branco tem 62min de duração e contou com a colaboração daquele que viria a ser o expoente do cinema surrealista espanhol, o celebrado diretor Luis Buñuel (1900-1983), que no filme atuou como co-roteirista e assistente de Epstein.

O CONTO

Publicado quase um século antes, em 1839, “A Queda da Casa de Usher” narra a estória dos irmãos gêmeos Usher (o angustiado Roderick e o espectro vivo, abismal e fascinante de Madeleine), que em certas versões, como no filme de Epstein, são representados como marido e mulher. Ambos habitam um castelo isolado e decadente em meio a brumas, miasmas e a ameaça mórbida da morte, num padecimento jamais dito e em mútuo estado de obsessão. A convite de Roderick, eles são visitados pelo narrador, que acaba por testemunhar o trágico desfecho prenunciado por uma sucessão de sinais aterradores e eventos sobrenaturais.

 O GÓTICO

A história se insere em um gênero literário do século 19 denominado Gótico (sem qualquer vinculação com o período medieval), o qual se define pela consagração do tema do horror (como vampiros, múmias, fantasmas, mesmerismos, reencarnação e toda a sorte de pavores). Novelas góticas alemãs foram as primeiras a tematizar o terror a e explorar o medo como mola mestra da vida psicológica. O gênero seria abraçado pela literatura inglesa, tornando-se um viés importante do Romantismo logo ramificado no mundo inteiro. O Gótico encontrou grande afinidade entre poetas pós-românticos franceses, os simbolistas. Na França, o poeta Charles Baudelaire tornou-se o tradutor, propagador e ensaísta crítico da obra de Edgar Allan Poe.

EDGAR ALLAN POE

Nascido nos EUA em 1809, Poe foi educado no Reino Unido. Artista “banido” da vida intelectual americana, alcoólatra e outsider, teve uma biografia de desajuste social e morreu na miséria, após ser encontrado literalmente ‘na sarjeta’, em 1849. Tinha 40 anos. Pouco antes, escrevera seu poema mais célebre, “O Corvo”, um lamento sobre a morte da mulher amada, uma prima sua bem mais jovem com quem se casou quando ela tinha apenas 13 anos. Poe defendia o trabalho poético sistemático e o rigor ‘matemático’ da literatura e chegou a redigir um método de escrita, sugestivamente denominado “A Filosofia da Composição”.

POE & A FRANÇA

A reputação póstuma de Edgar Allan Poe como “poeta maldito” e “poeta do sobrenatural” teve início um ano após sua morte. A partir de 1850, ele seria idolatrado na França por autores como Marcel Proust, André Gide, Stéphane Mallarmé e Paul Claudel, além de Charles Baudelaire, que se tornaria seu grande e obsessivo tradutor para o idioma francês e um de seus mais entusiastas propagadores. A ele dedicou inúmeros ensaios críticos. Consta que as cartelas que legendam o filme de Epstein seriam traduções de Baudelaire.

POE & O MUNDO

A personalidade de Edgar Allan Poe marcou a cultura francesa por três gerações e atravessaria os séculos mundo afora. Seu conto “A Queda da Casa de Usher” se espalhou por diversos países. Desde a primeira incursão, o filme de Epstein de 1928, até anos recentes, em 2015, já são listados pelo menos 19 títulos fílmicos criados a partir desse conto. O impacto de Poe também atingiria músicos, desde o compositor francês Claude Debussy (que deixou uma ópera inacabada sobre o conto, em que trabalhou por 17 anos) até o músico minimalista norte-americano Philip Glass. Diversos artistas do pop e do rock também fizeram sua transposição do conto, obra que foi também levada ao rádio drama e ao teatro. No cinema, “A Queda da Casa de Usher” inspirou vários filmes pós-expressionistas e curtas-metragens experimentais, todos tributários à obra inaugural e vanguardista de um visionário: o pioneiro Jean Epstein.

O EXPRESSIONISTA

Embora por vezes designado como “impressionista”, o filme de Jean Epstein guarda todas as características típicas do Expressionismo alemão, que, assim como as novelas góticas, nasce na Alemanha do século 19 como negação do mundo burguês, do racionalismo e do mecanicismo, sob franca influência de Nietzsche e Freud. Com o cinema mudo, a estética cinematográfica expressionista conheceu o auge na década de 1920, tendo marcado as escolas francesas e russas da chamada Sétima Arte. Visualmente, essa estética se manifesta de forma vigorosa na distorção do cenário com recursos de luz, ótica e fotografia, na representação viva da natureza como um ser dotado de poderes autônomos e na caracterização enfática e acentuada dos personagens por meio da maquiagem carregada, do visagismo exagerado e, sobretudo, dos estados psicológicos ‘anormais’. O objetivo é ultrapassar os limites da realidade e atingir a máxima expressão da subjetividade psicológica e emocional. Pode-se afirmar que Edgar Allan Poe, cuja obra Baudelaire definiu como “negrume da escuridão”, antecipa o Expressionismo, por buscar na arte “não uma fatia da realidade, mas a evocação de uma experiência”.

 A. POE & J. EPSTEIN NO CURSO DE COMPOSIÇÃO

O desafio de sonorizar filmes mudos… hoje!

A experiência de criar música e ambientes sonoros para os chamados filmes mudos ou silenciosos teve início em 2004 no curso de Bacharelado em Música, modalidade Composição, do Instituto de Artes da Unicamp, sob a orientação do Prof. Dr. JOSÉ AUGUSTO MANNIS, compositor e engenheiro acústico. Desde então, foram realizadas 12 musicalizações de filmes silenciosos com composições originais de alunos em trabalho coletivo. Segundo o Professor, “trata-se de uma das atividades das disciplinas de composição musical concebidas especialmente para o desenvolvimento da criatividade artística nos estudantes”.

Entre os filmes mudos consagrados já sonorizados na disciplina estão os clássicos “Encouraçado Potemkin” (Sergei Eisenstein, 1925), “Limite” (Mario Peixoto, 1931), “Um homem com uma câmera” (Dziga Vertov, 1929) e “Um cão andaluz” (Luis Buñuel, 1928), além da compilação “La couleur électronique” (excertos de Georges Méliès, 1896-1914).

A METODOLOGIA: UM PROCESSO

De acordo com o Prof. MANNIS, como idealizador da iniciativa e coordenador do projeto, dois conceitos se constituem como eixos do trabalho: o de mimese e de invenção. “Os princípios que fundamentam essa atividade são, primeiramente, o de que a expressão artística é essencialmente mimética”, afirma, tomando por base a Filosofia clássica e a concepção de mimese (no grego, mimeisthai) conforme proposto por Aristóteles em sua Poética. 

Ele explica: “Por muito tempo interpretou-se a noção de mimese no sentido platônico do termo, ou seja, como imitação, cópia, simulacro. Porém tradutores da Poética para a língua francesa (como Duppont-Roc e Lallot, depois Darriulat e também Genette) optaram por traduzir mimeisthai como ‘representar’, dadas as conotações teatrais e mesmo ficcionais desse verbo até o esgotamento de uma ação completa e acabada”. Segundo MANNIS, essa nova acepção do termo mimese condiz com a própria Poética de Aristóteles, em que se lê: “Só é possível haver criação em uma linguagem quando esta se fizer veículo de mímesis, ou seja, de representação, ou melhor, de simulação de ações e eventos imaginários; quando com ela se puder inventar histórias, ou pelo menos contar histórias que já foram inventadas”.

Em segundo lugar, ainda conforme a concepção dos processos criativos do Prof. MANNIS, “toda invenção é produto de três processos cognitivos interagindo sistematicamente: percepção, análise e síntese”. Logo, conforme conclui ele, “toda criação é produto de uma nova síntese recombinando conhecimentos adquiridos anteriormente”.

Assim busca-se estimular a imaginação dos alunos com materiais extramusicais ao mesmo tempo em que se aperfeiçoam suas aptidões de escuta, análise e livre imaginação, esta controlada, sempre posteriormente ao gesto de invenção, por uma observação crítica. Ao longo da disciplina, parte do tempo é dedicada à análise do filme, seguida de uma decupagem adequada à intenção criativa. As partes segmentadas da narrativa são então divididas entre os alunos, que devem trabalhar em composições individuais e coletivamente, uma vez que todos participam em conjunto da performance ao vivo e em sincronia com a projeção do filme.

“Os alunos aprendem a trabalhar em equipe e a lidar com parceiros que respondem de maneira distinta e possuem outras qualidades, atributos e aptidões, de forma a se compor, em grupo, com a diversidade, com as adversidades e com as diferenças humanas. É um exercício”.


FILME: CRÉDITOS

Título: “A Queda da Casa de Usher” (1928). 62min.

Direção: Jean Epstein.

Roteiro: Jean Epstein e Luis Buñuel.

Tradução francesa (cartelas/legendas) atribuída a Charles Baudelaire.

Personagens principais:

  • Sir Roderick Usher (Jean Debucourt)
  • Lady Madeleine Usher (Marguerite Gance)
  • Allan, o visitante/narrador (Charles Lamy)
  • O médico (Fournez-Goffard)

SONORIZAÇÃO ORIGINAL

COMPOSIÇÃO E REALIZAÇÃO COLETIVA

  • Gustavo Rocha (guitarra)
  • Igor Aguilar (ocarina, djeridoo e percussão)
  • Leonardo Pelegrin (percussão)
  • Lucas Quínamo (clarinete e pífanos)
  • Nicholas Sonevesso (violão de 7 cordas)
  • Renato Sarmento (violão de 6 cordas)
  • Thales Roel (piano)

ORIENTAÇÃO

Prof. Dr. JOSÉ AUGUSTO MANNIS

CO-ORIENTAÇÃO

Regina Porto (estágio docente)


SERVIÇO

SESSÃO 1
05 dez 2018 (quarta) 18h30
Local: Auditório Maurício Tragtenberg
ADunicamp – Associação de Docentes da Unicamp
Av. Érico Veríssimo, 1479 – Cidade Universitária, Campinas
ENTRADA FRANCA

SESSÃO 2
07 dez 2018 (sexta) 20h30
Local: Rabeca Cultural
Av. Dona Maria Franco Salgado, 250 – Jardim Atibaia (Sousas), Campinas
ENTRADA FRANCA


CURRÍCULOS

COORDENADOR

Prof. Dr. JOSÉ AUGUSTO MANNIS

Compositor, performer eletroacústico, sound designer, produtor radiofônico, consultor em acústica de salas, professor universitário e pesquisador. Fez estudos musicais no Brasil (UNESP) e na França (CNSMDP). Mestre pela Universidade de Paris VIII e Doutor pela Unicamp, fez Pós-doutorado pela Universidade Federal Fluminense. Na França, atuou junto ao Ensemble de L’Itinéraire (1983-1987) e no INA/GRM (1987-1989). Implantou no Brasil a filial do Centro de Documentação de Música Contemporânea (CDMC-Brasil/Unicamp), que coordenou de 1989 a 2006. Docente da Unicamp desde 1989, onde ensina composição, contraponto, acústica, tecnologia de áudio e radiofonia, orienta trabalhos de mestrado, doutorado e pós-doutorado e desenvolve pesquisas no campo da música, processos criativos, engenharia de áudio, acústica de salas, bioacústica e biblioteconomia. Idealizador e Coordenador do LASom – Laboratório de Acústica e Artes Sonoras do Depto. de Música do Instituto de Artes da Unicamp. Desde 2008 atua em performances com a artista sonora e radialista Janete El Haouli, com quem colaborou na coordenação e produção da sessão Brasil da radio documenta 14 (Kassel-Atenas) em 2017.

COLETIVO (MÚSICOS)

Gustavo Rocha

Com formação em violão erudito, em 2016 ingressou no curso de Bacharelado em Composição pela Unicamp. Em 2018 tornou-se bolsista do Programa de Apoio Didático (PAD), auxiliando os dois primeiros semestres da disciplina Percepção Musical. Como bolsista presta monitorias e ministra palestras aos alunos. Participou de masterclasses e eventos com Hans-Peter Schutz, Phillippe Manoury, Paolo Spedicato, Laiana Oliveira, Louis Robin, Clément Zular, entre outros.

Igor Aguilar

Autodidata no estudo da ocarina, teve aulas de violão erudito. Em 2012 ingressou no bacharelado em Física na UNESP, onde teve contato com estudos de acústica e de luteria e deu início à construção de ocarinas de cerâmica. Em 2016 ingressou no curso de Composição da Unicamp. Em 2017 fez estudos de cerâmica aplicados à construção de instrumentos, objeto de sua pesquisa como bolsista pelo Pibic. Ministra oficinas de luteria na Unicamp e UNESP.

Leonardo Pelegrin

Técnico em música pelo Conservatório André da Silva Gomes, em 2015 ingressou no curso de bacharelado em música na Unicamp com ênfase em percussão popular e bateria. Em 2017 tocou na Big Band do Arcevia Jazz Festival, na Itália. Participou de Jam Sessions e de intercâmbio com músicos da Itália, Espanha e África do Sul. Atua na música brasileira, jazz e música de câmara. Neste filme, assina a luteria de seu instrumento de percussão.

Lucas Quínamo

Com primeira formação em saxofone, foi atuante na cena jazzística. Em 2015 ingressou no curso de Licenciatura Musical da Unicamp e em 2016 no curso de Composição. Em 2018 foi finalista do concurso de composição do II Festival de Música Contemporânea Brasileira Edino Krieger com a peça “\respire”, para quarteto de cordas. É um dos organizadores do coletivo Descompasso e da produtora de arte e tecnologia de São Paulo Ballet Fractal.

Nicholas Sonevesso

Professor e técnico em música, guitarra e violão erudito, é bacharelando em composição musical pela Unicamp. Integrou o naipe de percussão do Projeto Guri de 2008 à 2011 e em 2012 ingressou no Conservatório Carlos Gomes. Participou em 2013 da 1ª Semana de Orquestra para Jovens Músicos e dos espetáculos “Vi-Vida-Mente Arte” e o “Centenário de Vinicius de Moraes”, ambos no Conservatório Carlos Gomes, onde é parte do corpo docente.

Renato Sarmento

Violonista, compositor e arranjador. Integrou grupos de música popular brasileira, choro, gafieira e marchas carnavalescas e em 2014 foi diretor musical da peça ‘Ópera do Malandro’ de Chico Buarque montada pela Cia de Artes Cênicas Tempero d’Alma. Em 2016 gravou o CD “Mosaicos” com a Camerata de Violões de Campinas. Realiza recitais solo e em grupos de câmara. Atua como professor e em 2016 ingressou no curso de Composição pela Unicamp.

Thales Roel

Guitarrista e violonista, em 2016 ingressou no bacharelado em composição pela Unicamp. Em 2018, realizou estágio na University of Western Bohemian, onde desenvolveu um acervo de música barroca brasileira e um estudo comparado das práticas do estilo. Atua nas áreas de composição, interpretação, análise e computação musical. É pesquisador FAPESP vinculado ao CIDDIC/Unicamp, com estudo sobre o erudito e o popular na obra de Arrigo Barnabé.


ESTÁGIO DOCENTE
Regina Porto

Compositora, sound designer, radialista e documentalista, é mestranda em Musicologia pela Unicamp, com pesquisa sobre a obra de Claude Debussy. Foi produtora e coordenadora de programação da Cultura FM de SP, editora de música da revista Bravo!, curadora de música contemporânea do Instituto CPFL e documentarista audiovisual da Fundação Osesp. Ex-parceira de Arrigo Barnabé em composição e arranjo, estudou com H.J. Koellreutter, cujo acervo de documentos é objeto de sua pesquisa de mestrado em curso pela USP no âmbito da Ciência da Informação. É bolsista Capes.


+ info | contato
Prof. Dr. JOSÉ AUGUSTO MANNIS
(19) 9 8116 3160
jamannis@g.unicamp.br


REALIZAÇÃO
Universidade de Campinas
Instituto de Artes | Depto de Música
ADunicamp

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Rabeca Cultural

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